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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Herberto Helder

A carta da paixão
 
 


 Esta mão que escreve a ardente melancolia
 da idade
 é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
 que à imagem do mundo aberta de têmpora
 a têmpora
 ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
 a sua queimadura desde os recessos negros
 onde
 se formam
 as estações até ao cimo,
 nas sedas que se escoam com a largura
 fluvial
 da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
 e o silêncio todo branco.
 ...
 É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
 entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
 relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
 pelo meio
 o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
 um pouco loucas
 engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
 A doçura mata.
 A luz salta às golfadas.
 A terra é alta.
 Tu és o nó de sangue que me sufoca.
 Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
 da madeira fria. És uma faca cravada na minha
 vida secreta. E como estrelas
 duplas,
 consanguíneas, luzimos de um para o outro
 nas trevas.


 (in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, por Eugénio de Andrade 
 
 
 
 
 
 

1 comentário:

Fatima maria disse...

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração

Bj ....