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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sebastião Alba /// Ninguém meu amor




Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


Sebastião Alba

terça-feira, 30 de julho de 2013

DIVAGAÇÕES //// Poema do que tinha de ser


O fato é que de ti só quero
o que tens de diferente, de parecido e de melhor,
Mas, o pior, contigo, é muito bom também.
Nem quero saber das coisas que não quiser me dizer
Embora esteja doido para te dizer
Muito mais do que queres saber:
Palavras amorosas, dengos e mesmo desejos pervertidos,
Que trago comigo.

Ah! Me pego pensando no teu rosto
Como será quando estiveres alvoroçada
Por pegar teus seios,
Que receios terás
Se te lamber mais do que devo
Numa fantasia única
De que és sorvete
Que sonhei quando criança.

A realidade é que, perto de ti,
Todo olhar meu é pornográfico
Como um gráfico
De uma realidade inevitável,
De um destino
Que não se pode fugir



noir sur blanc




Torquato da Luz /// Noutro lugar


Torquato da Luz

Abre a janela do coração
e deixa que a madrugada
o tome por inteiro.
Não tenhas medo.
Não faças nada,
senão isso primeiro.

Depois debruça-te e espera.
Hás-de ouvir a voz do mar,
vinda no vento, como era
outrora, noutro lugar.

Verás então que nada está perdido
e a vida recupera o seu sentid
o.
 
 Torquato da Luz
 
 

Para os meus amigos/as .....








Um pouco de frescura .

Maria do Rosario Pedreira //// Lê.......

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:


livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosario Pedreira

[in Poesia Reunida, Quetzal, 2012]





s/t

domingo, 28 de julho de 2013

Florbela Espanca /// Vim para os Teus Braços Chicoteada pela Vida

Florbela Espanca Florbela Espanca Portugal 1894 // 1930 Poetisa
Vim para os Teus Braços Chicoteada pela Vida Então tu pensas que há muitos casais como nós por esse mundo? Os nossos mimos, a nossa intimidade, as nossas carícias são só nossas; no nosso amor não há cansaços, não há fastios, meu pequenito adorado! Como o meu desequilibrado e inconstante coração d'artista se prendeu a ti! Como um raminho de hera que criou raízes e que se agarra cada vez mais. Vim para os teus braços chicoteada pela vida e quando às vezes deito a cabeça no teu peito, passa nos meus olhos, como uma visão de horror, a minha solidão tamanha no meio de tanta gente! A minha imensa solidão de dantes que me pôs frio na alma. Eu era um pequenino inverno que tremia sempre; era como essa roseira que temos na varanda do Castelo que está quase sempre cheia de botões mas que nunca dá rosas! Na vida, agora há só tu e eu, mais ninguém. De mim não sei que mais te dizer: como bem mas durmo mal; falta-me todas as manhãs o primeiro olhar duns lindos olhos claros que são todo o meu bem.

Florbela Espanca, in "Correspondência (1921)"

Pablo Neruda //// O Teu Riso....


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.


in "Poemas de Amor de Pablo Neruda



Momentos...

sábado, 27 de julho de 2013

Sofia J. Andrade /// Dias difíceis

Dias difíceis




Que fazer aos longos dias
Suaves e perfumados
Pintados outrora
com a cor dos teus olhos
e de ti
tão despidos
tão vazios agora?

Que fazer naquelas horas
Em que tínhamos encontro marcado
Me desnudavas a alma
Para a vestires de ti
Da tua voz
E do teu sorriso?

Que fazer nas intermináveis noites
Em que os sonhos
Se transformaram em pesadelos
O sono se converteu em insónias…
Voltas e reviravoltas numa cama em desalinho
Em madrugadas agónicas?

Que fazer da minha vida vazia de ti
Desta ausência que aos poucos me mata
Que caminho seguir
Que rumo, que via, que direcção
É a mais sensata?

Tu que à minha vida
Tanto de bom trouxeste:
Cor, alegria, sorrisos, encanto
magia, serenidade…
Tu que tanto me ensinaste
Com a sabedoria das tuas palavras
Esqueceste-te de me ensinar
Que viver um só dia sem ti
Seria uma eternidade…






Sofia J. Andrade
S.J.A XV-VII-MMXIII





st


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Para ouvir... //// Elizeth Cardoso - Amor Oculto




Retrato.

Francisco Valverde Arsénio /// ANTES DE AMAR…



Namora-me,
olha que o vento deixou de soprar
e que os nossos olhos
se apearam fora da estação.

Namora-me
como fazem as urzes
e as estevas,
como faz o lírio,
a oitava musical,
ou o azul
quando rouba o verde ao mar.

Há um lago,
uma noite,
uma mão esquecida da minha,
um poema,
um soluço,
um rio que aperta a foz.

Namora-me,
traz uma porção reticulada de chão,
um destino cravado de pontos cardeais,
um jardim de palavras incandescentes.

Namora-me no preâmbulo do teu amor.

Namora-me antes que me ames.


 
Francisco Valverde Arsénio



 





CANTO AO AMOR OCULTO


Como um passarinho vivo
Criando um ninho para o meu amor...

Hei de fazê-lo com as mais belas flores da floresta
e envolvê-lo com os mais doces cantos de outros pássaros
para cantar com os mais suaves sons que há.

Nem me importo de voar mais alto
Ou, de por longas distâncias, me cansar
Ou, se, na busca, venha a me machucar
Se os melhores e saborosos frutos recolher.

Só me importo, antes do luar aparecer, olhar seus olhos,
e cantar, no por do sol, o meu canto de glória,
pelo imenso amor que só posso ter

Que é mais belo ainda por ninguém perceber .... 








Estrela



Para ouvir..../// B.B. King - Blues Boys Tune




A BELEZA DO ACASO...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

PAULO EDUARDO CAMPOS /// NOS TEUS BRAÇOS





Nos teus braços,
Morreria
Se ontem fosse amanhã.
Morreria
Por gostar
Da maneira como gostas,
Se caísse em teus braços.
Se os meus braços vacilassem,
Evitaria o teu olhar.
E morreria outra vez
Para poder ter
O motivo de te encontrar.
Nos teus braços,
Morreria.
 
 


PAULO EDUARDO CAMPOS
in NA SERENIDADE DOS RIOS QUE ENLOUQUECEM (Amores Perfeitos, 2005)
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Antecipação amorosa....




Hoje neste dia frio,

gostaria mesmo era de dançar,

de contigo me agarrar e me embriagar ,

sem me importar se o papa Francisco iria me perdoar.

Como nada é tão simples

tive mesmo foi que tomar vinho e dormir,

mas, não antes de comer carne de porco e queijo

(o que não tem o mesmo sabor da tua carne

nem do teu beijo).

Porém, só em pensar na delícia que seria

te beijar no cangote,

meu coração correu ao galope,

num frenesi de ilusão

e o desejo que me assaltou

antecipadamente me absolveu

do que não aconteceu

pela certeza de que um amanhã haverá

em que, com frio ou com calor,

de amor hei de te matar! 


Do blog By Spersivo

Hamilton Afonso //// Há Dias...



Há dias em que apetece
enroscar-me no sofá e
descansar a minha cabeça
no quente do teu colo
e esperar, pacientemente
as carícias que me faltam,
o carinho que prometes

Há dias em que para me
sossegar o coração amargurado
pela crueldade da vida basta-me
pressentir o cheiro almiscarado da
tua pele orvalhada pelo sublime
desejo da entrega

Há dias em que sinto a falta do
teu colo, do teu ombro, do teu peito,
como o de hoje…

Há dias em que a distância é
mais cruel, mais sufocante e
o amor , sublime contradição
torna-se mais forte, mais presente
em nós…
como hoje…


 

Hamilton Afonso


st





terça-feira, 23 de julho de 2013

Rita Pais /// Inuendo



A minha sede mora na tua pele O meu desejo nasce  no promontório do teu corpo O côncavo do meu ventre é enseada em modo de espera pelo deslizar das vagas que te trazem em espuma por desfazer
Na orla da água que toca a areia
cumprem-se os ritos
e convocam-se os delírios
O mar é deserto escaldante
e as dunas testemunham
o alastrar do fogo
em que se consomem urgências
e se consuma
o imperativo dos sentidos
As nuvens cobrem de sombra
as marcas da lava que o vulcão
agora adormecido calcinou
Só a tua voz ficou tatuada
no silêncio sedoso
que me cobre a nudez.

© Rita Pais 2013
(ao abrigo do código do direito de autor)





 


VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO




Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitetura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor
.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar esta cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



Maria do Rosário Pedreira

 

 

 

 

 

 

Esta Mão Viva John Keats


Esta mão viva, agora quente e pronta
Para um sincero aperto, se estivesse fria
E no silêncio gélido da tumba,
Viria de tal forma te obsedar os dias
E esfriar-te as noites sonhadoras
Que quererias esgotar o sangue de teu coração
Para que em minhas veias -
Pudesse inda uma vez correr a vida rubra
E tranquila tivesses a consciência:
- Vê-a, aqui está, estendendo-a para ti.




Ana Jacomo /// Conta pra mim



Conta pra mim de onde a gente se conhece.
De onde vem a sensação de que sempre esteve aqui,
quando eu sei que não estava.
Conta por que nada do que diz sobre você
não me parece novidade,

como se eu estivesse lá, nos lugares que relembra,
quando eu sei que não estive.
Conta onde nasce essa familiaridade toda com os seus olhos.

Onde nasce a facilidade para ouvir a música
de cada um dos seus sorrisos.
Onde nasce essa compreensão das coisas que revela quando cala.
Conta de onde vem a intuição da sua existência

tanto tempo antes de nos encontrarmos.


 
Ana Jácomo


Laisa





segunda-feira, 22 de julho de 2013

Como se Mistral fosse





Me dá tua mão e dançaremos;
me dá tua mão e amemos mais
como um jasmin nós dois seremos
um jasminzinho e nada mais.
A mesma canção cantaremos
e, mesmo sem jeito, dançarás
como dois tontos beberemos
só por prazer e nada mais.
Te chamo Linda e eu sou criança;
porém, teu nome esquecerás,
porque seremos uma dança
ao luar e nada mais
.



DO blog by Spersivo.

domingo, 21 de julho de 2013

Pablo Neruda ///// AMO-TE



"AMO-TE...como a planta que não floriu
e tem dentro de si,
escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor,
vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como,
nem quando, nem onde,
amo-te diretamente
sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar
de outra maneira

a não ser deste modo
em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão
no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos
se fecham com meu sono."
 
Pablo Neruda
 
A rainha das rosas.
 
 
 

Capítolozinho sobre o Amor...




Não há nada melhor ou não conheço
Que um corpo se fundir em outro corpo, de forma doce,
Profunda e, se possível, bem devagar...
Com um improvável e cruel carinho
Que se converta aos poucos em pranto e prazer
Que lembra, no seu êxtase, o morrer...
Toda alegria nasce com o sofrer:
Sabe meu coração, que transparente,
Viveu do amor suas loucuras mais sensatas;
As dores doces, os gozos tão dourados,
O cinza dos adeuses, o fluir da prata
E nas suas chamas, como um Titanic humano,
Viu o naufrágio de todos os seus planos,
Ainda que sabendo que, na vida,
Amar é o melhor dos desenganos. 

Em relax

ARANJUEZ MON AMOUR




Nota :

          
Adoro, já a ouvi milhentas vezes e não me canso ,  está muito lindo
simplesmento belo...




A mais bela bailarina

JOAQUIM PESSOA /// Amor Combate ....


Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. amor imenso. amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.


JOAQUIM PESSOA





Clássico..




Fátima Porto /// É ASSIM....



É assim com esse olhar
Que te quero,
Um olhar doce e meigo,
De uma cor que nem sei definir

É assim neste pranto
Que meus olhos te vêm,
E meu peito te sente,
Mágoas de um amor ausente

É assim que me dou,
No silêncio das noites sem ti,
Que vejo teus olhos em mim
Num querer ainda maior

É assim nosso amor suave,
Como nuvem que passa ligeira,
Aquecido pelos raios d’um sol de verão,
E regado com lágrimas por não puder gritar:
Nosso Amor é Assim!


Fátima Porto
Texto registado e protegido pelo IGAC

sábado, 20 de julho de 2013

DAVID MOURÃO-FERREIRA /// CASA




Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a solidão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração
 
DAVID MOURÃO-FERREIRA, in INFINITO PESSOAL
Pose 7
OAL
 
 
 

 
 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

ALICE VIEIRA




Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

in O QUE DÓI ÀS AVES (Caminho, 2009
 
 
Black&White
 
 
 
 

Bryan Ferry - Slave To Love




Anabela

POEMA DA ESPERA.....



Talvez seja melhor
Que não venhas.
Ou, melhor ainda se nunca
tivesses vindo.

Porque se assim fosse
Não sentiria
O que estou sentindo
Tamanha ausência de significado.

Talvez seja melhor
Que não venhas.
Podes não ser
Mais nada do que foi
E só matar
O que houve entre nós dois.

Tanto tempos separados
Deve fazer diferença
E se, de repente,
Somos dois estranhos?

Não, é melhor que não venhas.
Melhor permanecer, como agora,
Sem saber por quais caminhos,
Lugares e bancos
Os teus sonhos repousam.

No entanto há uma parte de mim
Que insiste
Em que, de fato, jamais partistes.
E ainda sonha
Com os dias gloriosos
De tua volta
E me sussura
Que não te esquecerei.

Talvez seja melhor que não venhas-
Repito, ansioso, por ouvir tua voz rouca
Me chamar, novamente, de “Meu lindo”!

CECÍLIA VILAS BOAS



Caminha comigo, de mãos dadas
pela estrada sinuosa da vida
caminha comigo, lado a lado
no inconformado rio que chora
ao luar, podemos dançar
a dança da poesia
suavemente iludida
perfeitamente desnudada
vem, em passos lentos
suaves plumas envolventes
numa carícia só tua
num beijo infindável
nesta eloquência desmedida
no silêncio das palavras
no vibrar dos sentimentos
estás tu, poesia
ilusões que encantam,que me fazem sonhar

estarei em s braços
em perfeito jubilar.
 
 CECÍLIA VILAS BOAS
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Joaquim MONTEIRO /// A mulher




A mulher avança resoluta para o mistério
Na imponderável percepção de ser luz

Caminha pela orla da praia
Procurando alimento para os olhos
Com que à noite iluminará a casa de amor

Corre a mulher para o alto fulgor das bocas
E é maná que se dissolve lentamente
Preparando o sangue para as sublimes exigências,
Tocando ao de leve a fímbria do imaginário manto

Cura as feridas com sua saliva ardente
Penetrando, as fendas mais profundas, descobre,
O ponto original da febre, e guarda-a no seu
Coração de noiva, transbordante de alegria

Corre à noite os compartimentos da casa,
Vigiando, com o seu alto sentido maternal,
Se, tudo está no lugar que suas mãos tocam
Fechando, as persianas a qualquer olhar intruso.

Solta os cabelos e espalha o aroma pelo leito d’alegria
E espera que o amor a afague, sonhando num novo dia.

Joaquim MONTEIRO

 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Florbela Espanca /// Versos de orgulho






O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.


Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !


O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...


Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.


 Florbela Espanca








A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos. CHARLES CHAPLIN

HOJE ACORDEI ASSIM....

Hoje acordei assim
 Deslizo os dedos suavemente pelas teclas,
Tentando criar um som que preencha o vazio da minha alma
Dando espaço para que a valsa comece…
 Sinto a carícia que toca na minha pele, uma partitura feita para nós dois
 No amplo espaço onde me encontro,
Perscruto a noite, um grito sem eco
 A janela esta aberta e observo as estrelas,
Concentro-me na tua imagem,

Enquanto o meu corpo suplicava pelo teu
 E o desejo de te  ter era tão intenso....

SÃO REIS /// E.....

E para amar-te basta-me o infinito
o teu corpo feito um manto
a cobrir-me
o teu grito
e o teu espanto
a sorrir-me

E para amar-te bastam-me os teus olhos
gritando-me amor
o teu corpo banhado em suor
e esse gemido que mal se ouve

E para amar-te basta-me ter-te assim
aninhada no meu íntimo
presa a mim por fios transparentes
mas tão próxima que até a terra
treme de espanto...











são reis




Quizás Quizás Quizás - Nat King Cole







terça-feira, 16 de julho de 2013

António Gedeão /// Pensar em ti...



Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir



 António Gedeão
Laranja.


António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto' /// É por Ti que Escrevo


 É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'






olhar

segunda-feira, 15 de julho de 2013

EUGENIO DE ANDRADE /// ( SE....) SE FOSSES LUZ




Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: - a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água - música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


 Eugénio de Andrade

 

domingo, 14 de julho de 2013

David Mourão Ferreira /// PRESIDIO


Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco?…

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não. Meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David  Mourão  Ferreira
 
 
 
 
 
Empty Soul
 
 
 
 

JGD /// E....

E...
Se me quiseres
Olha-me
Se não me quiseres olhar
Chama-me
Se não me quiseres chamar
Fala-me
Se não me quiseres falar
Toca-me
Se me tocares
Beija-me
Se me beijares
Ama-me
Que eu também te quero amar ...

©JGD




Mari
Em Casa

sábado, 13 de julho de 2013

Caio F. Abreu /// É só me pedir...



Eu entro nesse barco, é só me pedir.
Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou.
Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso
preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou.
Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando
em torno de mim mesma.Mas olha, eu só entro nesse barco
se você prometer remar também!
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes.
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito,
vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer
que vai remar também, com vontade!
Mas você tem que remar também.
Eu desisto fácil, você sabe.
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos,
mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar
o mundo pra te ver todo dia.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
Mas a gente tem que afundar junto
e descobrir que é possível nadar junto.
Eu te ensino a nadar, juro!
Você tem que me prometer
que essa viagem não vai ser a toa,que vale a pena.
Que por você vale a pena.
Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

Caio F. Abreu

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Pablo Neruda

Mas se amo os teus pés

é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem
Pablo Neruda





Tudo será como ontem, quando despi
 a roupa e corri para o teu corpo
 e entrei na tua cama...

 


Florbela Espanca /// Os versos que te fiz



Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!


Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca



Bia.







 

C.C. /// Marcaste .....

Marcaste encontro comigo,
Na esquina do destino,
Trazias pérolas nos olhos,
Amor-perfeito na boca,
E nas mãos…
A carícia do bocejar da lua,

Seduzida fiquei,
Nessa noite vestida de dia,
Na luz do teu retrato,
Desenhado a traço de pena,
Num tempo de espera,

Peguei tuas mãos,
Como quem recebe a eternidade,
Olhei teus olhos,
Como quem olha um colar de rubis,
E na tua boca…
Saciei a doçura dos meus sonhos!

C.C.
 
 
Serenidade
 
 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Joaquim Pessoa /// Bastava-nos amar. E não bastava




Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.