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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Joaquim Pessoa Nos Teus Gestos

Nos teus gestos há animais em liberdade
e o brilho doce que só têm as cerejas.
É neles que adormeço, e dos teus dedos
retiro a luz azul dos arquipélagos.

Os teus gestos são letras, sílabas, poemas.
Os teus gestos são páginas inteiras. São
a tua boca a namorar na minha boca,
o cio dos séculos a saudar o tempo.

São os teus gestos que me acordam. Gestos
que vestem o silêncio fundo das ravinas
e assinalam a água dos desertos.

Os teus gestos são música. São lume.
São a respiração do teu olhar. A seara
de espigas que ondula no meu corpo.

Joaquim Pessoa, in 'Guardar o Fogo'



são reis


Tenho em mim uma sede de perfume
de margens
de nascentes
de mar bravo em dias de tempestade
Tenho em mim uma ânsia de caminhos
que se trilhem sozinhos
enquanto os pés levitam
Tenho em mim olhos que ainda acreditam
e mãos
e braços
e toda uma série de passos
que me levam invariavelmente
para onde as rosas choram no chão
Tenho em mim toda uma paixão
que ferve a fogo lento
e um sentimento
que oscila entre a ternura e a saudade
E entretanto tenho pés desnudos
que caminham mudos
onde a terra se faz poema...
 
 
são reis
2abril14
 
 
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Nilson Barcelli //// Escuta , meu amor

     

Escuta, meu amor,
o canto pungente das mãos
que te procuram de ansiedade
e que de tardança o destroem,
tornando-o triste e negado.

Não há pranto, não há nuvens
para que o teu amor
fique no canto
amordaçado e ferido,
mas a cada minuto sem ti
há um além-mundo de incertezas
que no meu enlevo se alojam
em amoral desencanto.

Sem ti, sem o teu fogo,
sou um coveiro de sonhos
a remexer nas cinzas
do que não foi queimado
na fogueira imaginária do teu não.
 
 
Nilson Barcelli /  Abril 2014

David Mourão Ferreira




Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele

David Mourão-Ferreira

Imagem retirada do Google

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Joaquim Pessoa //// ABRAÇA_ME

ABRAÇA-ME

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa forma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. Uma vez que nem sei se tu existes.
in "Ano Comum"
 
 

domingo, 27 de abril de 2014

Laura Santos /// Promessa



PROMESSA

Um dia soltarei as borboletas que trago na barriga

E no ar lançarei as vagas.

Contigo ficarei para sempre comigo a sós, e irei

Sempre com uma moldura na voz

Rodear-te de atenção e loucura. Em ti porei

Para sempre, como no presente, a minha ternura.

Nus, teus braços barcos cordas, esperarei

Em cada vale o deslizar de todas as neves

E se suspendam de ti as folhas, alegrias breves.

A mar-te-ei como às flores, para sempre todas as tuas cores.

Ficarei liberta e louca nas casas da tua boca
E amar-te-ei sempre nas asas duma gaivota
Com olhos brancos de espuma...
Flutuante, bela e capaz de romper uma a uma
Cada nuvem que aparecer.
Amar-te-ei sempre.
 
Laura Santos
 

 

Eugénio de Andrade //// Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor

quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade.
Foto Rosa Miranda.
 
 

Fernando Pessoa





"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

Fernando Pessoa

sábado, 26 de abril de 2014

Fernando Campos de Castro /// Desejo breve


Toco-te
Sorvo-te
Inspiro-te...

Na boca o mel
Que me dás e trago

Dispo-te
Desço
E ajoelho
E no limite do ventre
Me embriago

Rasgo-te o corpo
E quase enlouqueço
Mordo-te os gestos
E de repente vejo
No rio quente
Que me inunda o sexo
O frio abrandamento do desejo

Ai amor
O que seria da noite
Sem as almofadas do sonho



Fernando Campos de Castro

 
 
Nota:   hoje acordei assim......srrsrsrsrs

 

Laura Santos /// Passado



PASSADO


Nos montes deixei a tua imagem
gravada na pedra do passado.
Parti em longa viagem, à espera da janela
do significado.Cada significante surgia
no cume da palavra, em cada dia
na tua voz de linho. Tanta a saudade
do que não fiz, tantas as pedras no caminho.
Na coragem da ternura sopra o vento
que faz desabrochar um rio
no meu cabelo...Vem despentear-me,
vem dizer que sim.
Vem deitar-te enfim, como água
sobre mim.
 
Laura Santos

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Antonio Ramos Rosa /// Não posso adiar o amor

  Não posso adiar o amor para outro século

não posso...


ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio


Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração



in "O Grito Claro", (1958)


antonio ramos rosa








O caminho e a flor.

 
O caminho e a flor.

Era uma vez um caminho.....que não caminhava...
Era uma vez um caminho, que se cruzava com muitos outros caminhos......
Um caminho ....que cruzava pontes, navegava mares, corria montes, serras e vales....
Era um vez um ...
caminho.... que sabia voar, envolver-se no azul do céu.....e contemplar a vida...
Muito caminhava, sem caminhar.....muito chegava, sem chegar...e acabando sempre no deserto......
Um dia...encontrou uma flor no caminho.....que exalava um perfume de encantamento....
Sem saber, o perfume levou-o para caminhos desconhecidos, sensações inebriantes....que o levavam para lá da imaginação....
O perfume fez correr a água no deserto....
O perfume fez nascer a vida no olhar....
- Onde me leva este perfume, linda Flor? - perguntou o caminho
- Leva-te ao caminho do coração...........-respondeu a Flor
O caminho absorveu o perfume.......envolveu a Flor.....e correram no calor das sensações…
O Sol acordou...... A lua brilhou.......As árvores cantaram uma canção.......e juntos chegaram ao coração........
Criaram a meta e descobriram a beleza da partilha....Juntos descobriram a vida...
Para lá do coração, estará sempre um caminho e uma flor.......
 
 
 
Como gostei deste "" conto "" e tambem pela pessoa/amiga  que o postou
( visitante assídu-a deste blog )
transferi-o para  aqui , porque  :
Para lá do coração, estará sempre um caminho e uma flor.......

quinta-feira, 24 de abril de 2014

JOSÉ GABRIEL DUARTE // Sei...................

 


Sei quando da primeira vez que te vi, mas não me recordo do que senti, talvez porque ainda não te sentisse.

Sei também quando da primeira vez que te falei, mas não me recordo do que te disse, receio que fossem algumas palavras soltas e sem sentido, ou talvez as tenha dito para que tu não as ouvisses.

Mas recordo-me do dia em que te comecei a amar, e nunca esquecerei o que senti, de tão diferente, amor ardente, que não sei como explicar.
 
 
 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Florbela Espanca //// Os Versos Que Te Fiz




Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!



Florbela Espanca


John Lennon stand by me














terça-feira, 22 de abril de 2014

Álvaro de Campos /// Poema de canção sobre a Esperança









Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,...

Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

[...]

Álvaro de Campos




segunda-feira, 21 de abril de 2014

C.C.

MAIS UM....


sou-me o verso
que falta compor
o poema incompleto
onde tantas vezes
invoco o amor

e resgato o desamor

no amor me afundo
na fertilidade de um céu
intenso e incandescente

no desamor renasço
como semente que hiberna
há espera que a dor seja pó

e uma borboleta regenere
do humus melancolico
onde silenciosas asas

re-aprendam a voar

C.C.

C.C.




 

Isabel Pantoja - Hoy Quiero Confesarme







 

ENCONTRO

 Vem ter comigo à bruma da manhã.Entremos no claro das árvores e no espanto meticuloso do dia,que nos inicia a luz só para melhor nos encontrar uma vereda amável.Podes mesmo dar-me a mão,sozinho perco-me na penumbra dos sonhos,no ritmo imperioso do possível.Como dizer da saudade sem que o mundo note,talvez apenas mostrando-te a cicatriz do trilho silencioso das lágrimas no rosto.Tocaste o ...meu sonho ao passares por aqui,deixando uma luminosa tatuagem.Sabes,às vezes escrevo-te.Há em tudo um alvoroço,um querer,e o lápis arranha o papel como te farei quando cresceres na ponta ansiosa dos meus dedos.As minhas mãos esperam-te,na bruma.Desculpa a impertinência:não me consigo esquecer de ti.Ainda se não tivesses o olhar fundo com que me miras,talvez eu pudesse olhar para outro lado.Mas enquanto tiver esta saudade de te beijar a toda a hora,como poderei afastar um diamante para me distrair com pedras simples?A minha cidade podes ser tu,as minhas ruas e veredas são o teu sorriso,num amor de trato difícil.Ciúme longo,abraços,muita maresia.Mas amanhã,sempre,agora,quente ternura à flor da pele.E dos ossos.Como se me nascesse uma pequena macieira rente ao coração,acaricio um sonho.As flores que nascem na minha boca,trazem o teu aroma ,entre beijos e sonho.Tenho-te apenas a ti e tenho tudo.Todo eu sou saudade,num corpo de ternura.Só isto,na bruma da manhã
 
 
 
 
 
 
 
 

Jacques Brel - Ne Me Quitte Pas









sexta-feira, 18 de abril de 2014

helena guimaraes /// Não quero amar-te




Não !! Não quero amar-te.
Não posso amar-te!

Mas és sol
do meu pensamento,
em ti a cada momento.
Lua das frias noites,
abraço
na minha solidão
de todos acompanhada,
sem norte , sem sul,
sem nada,
básicos seres
nesta imensidão
sem fim.

Não quero amar-te !
seria o meu holocausto
na ara do teu corpo,
tua alma.
Meu ser no teu absorto,
ali , em êxtase , subjugado,
`a espera , num soluço ,
do teu beijo desejado.

helena guimaraes

do livro " Contigo à lareira " 2012






quinta-feira, 17 de abril de 2014

Laura Santos //// VOAR

 


 
 
VOAR

Quando vieres poderei desfolhar todas as rosas do jardim;
até num gesto, sem que te rias de mim
destronar todas as princesas, pôr flores em todas as mesas.

Cobrirei no silêncio, o teu corpo de beijos

e a minha cama de desejos.

E quando o sol abrir de repente o teu sorriso

    
dir-te-ei sem reservas com toda a força

que é preciso

que os deuses morreram

e só nos temos um ao outro.

Depositarei no Olimpo todos os segredos contidos,


todas as mágoas nos tempos idos.
Liberta de promessas, ilusões e receios
fundirei nos céus todos os astros,
ficarei na escuridão do quarto a escutar a tua voz.
O vento soprará para nós e toda a cidade
renascerá das cinzas; Fénix renascida
das noites do passado...
Depois de te ter amado assim,
porei dentro de ti, em mim teus olhos doces
como se fosses
a esperança e alegria da manhã.
Sã miragem de sonho concretizado
realizarei em próxima viagem, os teus cabelos
a crescer sobre os meus dedos.
Sem medos,
como quem espera a madrugada,
não pedirei mais nada.
Decidirei em cada regresso
o renascer da bruma na orla da praia
e pintarei para que não saia
nunca mais das minhas margens o sonho das viagens
e este rio que me percorre desde sempre.
No presente ficarei a sós contigo.
Em cada abrigo , perto das grutas
nascerão de corpos cansados, todas as lutas.
Estarei de braços abertos e fecharei em laços
os teus braços, e ao ouvir os teus passos pelo chão
estenderei sem limite a minha mão...
Estarei à tua vinda, sempre, ainda,
ave na primavera dos países.
voando...
 
laura santos
 
 
 

Lua diurna //// às vezes....




às vezes tenho medo
que as palavras que te escrevo
não passem de lugares comuns

mas,não é comum o que trago
embalado no lugar onde o coração se aconchega

podem ser comuns as palavras que te escrevo
mas são direitas e limpas
como limpo e direito
é este céu que se abre no meu rosto
no infinito da alma ,a celebrar-te com as aves

foi o teu sorriso
que me iluminou o olhar ,as mãos e a vida

e é assim que nasce o amor

aconchegado na alma

num querer escrever a direito

nas linhas tortas da vida!
(porque o que é escrito na alma
só os olhos sabem ler)
 
Lua diurna
 
 
 
Foto
 
 
PÁSCOA FELIZ  A TODOS QUE VISITAM ESTE MEU BLOG.
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 15 de abril de 2014

são reis

És aquela pessoa impossível de alcançar
de ter, de tocar
E se por acaso intento lançar uma mão
na tua direcção
apenas para te abraçar

foges-me como um pássaro assustado
ou finges morrer
E eu fico sem saber se a primavera chega contigo
ou se fui eu quem chegou atrasado
se a tua pele me quer
ou me despreza
se eu sou apenas uma presa
em alguem com pressa
de chegar a lugar nenhum
ou se os teus olhos
são livros de histórias de encantar
e eu apenas não sei como lê-los


são reis
14abril14


"Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma."

Sophia de Mello Breyner Andresen



 

Ricky //// Um Mundo de Sonho/Um Sonho de Mundo

 


Deslizo pelas rugas dos lençóis,

O lume do dia
Vem brincar sobre o teu corpo.
Olho-te…Espero-te…
Saímos,
Vulgos exploradores,
Com vontade de descobrir recantos

Torná-los nossos.
Naquela loucura infantil
Característica dos amantes.
Conduzida por Ti, sorvo ruelas
Vislumbro varandins a dourar ao sol
Dirigimo-nos ao mar
Sabes sempre,
Adivinhas sempre, onde quero estar!
Sol, areia e salpicos salgados.
Envolto pelas lágrimas marinhas,
Reflectes-te em mil pedaços,
Cada qual com o seu brilho,
A sua cor…
As minhas mãos procuram as tuas,
Querem entrelaçá-las, guardá-las…
Hoje, tenho as tuas gargalhadas,
Diluídas na brisa fresca que teima em brincar com os meus cabelos.
Os raios de sol vêm,
Suavemente,
Despedir-se de nós….
Deslizo pelas rugas dos lençóis
E, acordo d’um dia perfeito
No sonho de uma noite.
Ricky
 
 
 
 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Raquel Lacerda //// Tens flores dentro da pele

  1.  
  2. Foto: Quem foi que riu na noite silenciosa


Quem foi que riu na noite silenciosa,
Que o riso deu à noite a forma duma rosa?

E quem chorou depois na noite densa,
Que a rosa se desfez em lágrima suspensa?

Natália Correia


Tens flores dentro da pele
daquelas que se transformam em pétalas
no teu cabelo feito de vento
num dia quente.

Tens asas dentro dos olhos
com eles vês por detrás do céu
aquele onde te deitas...

quando precisas de repousar.

Tens mãos feitas de terra
terra pura que contigo levas
e que deitas inocentemente
no canteiro dos corações.

Tens letras desenhadas nos pulsos
poemas que escreveste com os lábios
de todas as vezes que amaste
sem amar, amando sempre.

Tens a cor verde a pulsar nos ombros
onde carregas, porque és fortaleza feita de areia,
a vida toda que tens para te dar.

Raquel Lacerda

Matthew Rohrer /// Credo

Matthew Rohrer

 

   Matthew Rohrer

I believe there is something else
entirely going on but no single
person can ever know it,
so we fall in love.
It could also be true that what we use
everyday to open cans was something
much nobler, that we'll never recognize.
I believe the woman sleeping beside me
doesn't care about what's going on
outside, and her body is warm
with trust
which is a great beginning.


Credo

Eu acredito que há algo mais
inteiramente acontecendo, porém, nenhuma
pessoa pode nunca saber,
por que nos apaixonamos.

Também poderia ser verdade que o que usamos
todos os dias para abrir latas era algo
muito mais nobre, que nunca será reconhecido.

Eu acredito que a mulher que dormeao meu lado
não se importa com o que está acontecendo
lá fora, e seu corpo é quente
o que me dá confiança
que é um grande começo.

domingo, 13 de abril de 2014

Mia Couto //// Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




 
Foto: Soneto da Separação

(Vinicius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.