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domingo, 30 de abril de 2017

Oswaldo António Begiato









"Canta-me
Se me cantares
prometo,
com as mais ternas palavras 
que eu puder recolher...
no poço dos desejos,
jurar-te amor eterno


Apenas canta-me,
porque encantado
já estou."




Oswaldo António Begiato    

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

sábado, 29 de abril de 2017

Florbela Espanca







Minha alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
...

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”


Florbela Espanca
In Sonetos

Arte: Fabiano Milani
 


Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

Fernando Pessoa







Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada dizer
E tudo se entender
Tudo metade...
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa
 

Foto de Fatima Pereira.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

David Mourão-Ferreira







Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
...
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira   

Foto de Fatima Pereira.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Amarelinha....................






Se eu fosse Deus…
Criaria um sol apenas para te iluminar, uma estrela, a mais brilhante alguma vez vista, que seguisse todos os teus passos nas noites de desassossego, de dúvida e de tristeza. Inventaria uma fonte de água pura que saciasse toda a tua sede de viver.
Dar-te-ia forças para quebrar todas as correntes que te prendem; faria com que das tuas costas nascessem asas de anjo branco que te fizessem voar até aos limites da felicidade.
Se eu fosse Deus…
Faria com que sorrisses quando te apetece chorar; levaria para muito longe todos os que semeiam tristeza no teu coração; encheria a tua alma de esperança e faria com que acreditasses na tua beleza; na tua luz. No imenso rio de luz que emana de ti, mas que tu não vês porque te querem esconder entre sombras.
Se eu fosse Deus…
Criaria uma ilha maravilhosa, onde só os pássaros fossem testemunhas do nosso amor; levar-te-ia comigo e juntos construiríamos o Olimpo do nosso amor. Só o sol, as árvores e os pássaros testemunhariam os nossos corpos unidos na areia, desenhando um coração único que seria meu e teu.
Se eu fosse Deus tu serias a minha Deusa. Juntos inventariamos algo superior aos homens, ao Universo e a todos os deuses: o nosso infindo amor.
Mas, afinal, sou apenas aquele que te ama. Apenas? Não! Já somos deuses, amarelinha! Deuses de nós e desta força imensa que nasceu nos nossos corações. Deixa-me amar-te! Deixa-me ser feliz apenas neste sonho!



amarelinha.....



...

Florbela Espanca








Saudades! Sim... talvez... e porque não? Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! P...ara quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca  

Foto de Antonio Maria.


são reis









E em ti desabrocham todas as primaveras
e ouvem-se todos os trinares
mesmo que não seja a hora ...
porque é em ti que tudo floresce
tudo transborda
tudo acalma
tudo se diz e tudo se sabe
mesmo quando a alma se esquece
de ser ela a florir



são reis   


Foto de Antonio Maria.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

José Régio







Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…- unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois…- abre os olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio
Arte : Andrius Kovelinas    

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

José Luís Peixoto






És o mundo todo ....

...


Morreste - me . Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir....
Deixaste-te ficar em tudo... os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele


José Luís Peixoto    



Foto de Antonio Maria.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Vinicius De Morais





AUSÊNCIA


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Morais

Rio de Janeiro , 1935   






Maria Helena Guimaraes Do livro """ INTIMIDADES """






DEIXA SÓ...


Deixa só que os meus olhos
acariciem teu corpo,
mesmo de longe e sòzinhos.
No meu caminho de escolhos
o ver-te é chegar ao porto,
vencer os ventos daninhos.
Meus olhos não te magoam
quando exploram , dolentes,
o teu corpo de mansinho.
Não te julgam. Só perdoam.
Bebem-te os gestos, frementes,
e cobrem-te de carinho.
Olhar-te, estou consciente,
é flor de suave fragância,
aromas desconhecidos.
Só por si é suficiente
para diminuir esta ânsia
e adormecer os sentidos.
Deixa pois que os meus olhos
o teu corpo acariciem
mesmo de longe, ansiosos.
E como flor entre abrolhos 
só de ver-te se saciem
e deixem de estar saudosos.


Maria Helena Guimaraes
Do livro """ INTIMIDADES """
Ano 1994 , pag. 27   

Foto de Antonio Maria.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Mia Couto








para te reconhecer mudei de corpo









No avesso das palavras 
na contrária face 
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio 




Mia Couto

domingo, 23 de abril de 2017

Nuno Júdice








Na fotografia, só teu rosto ficou
desfocado. À tua volta, o candeeiro, a mesa,
os sofás, o cortinado, são nítidos, e quase...
poderia tocar em cada um deles
e sentir o macio do veludo, a madeira,
o frio do metal, como se as coisas
saíssem de dentro da imagem para
junto de mim. Mas o teu rosto, de linhas
esfumadas sob a mancha dos cabelos,
obriga-me a perguntar a que corpo
pertence, e em que dia obscuro tentei
captar a tua aparência, sem reparar que 
te mexeste quando carreguei no botão,
talvez para que não ficasses presa 
do meu olhar. Assim, ao ver-te sair 
de uma caixa de papéis antigos, é 
como se já soubesse que te iria 
perder, ou como se tivesses querido 
que um dia, ao olhar para o que ficou 
da tarde em que nos amámos, tivesse 
de perguntar quem és, como te chamas, 
e que destino me impuseste quando 
me obrigas a lembrar porque guardei, 
no meio de papéis inúteis, a fotografia 
em que apareces desfocada.



Nuno Júdice    


Foto de Antonio Maria.

sábado, 22 de abril de 2017

Laura Santos






A POMBA
Sonhei que o teu corpo era um riacho.
Nas tuas margens plantei todas as sementes;
De ti tudo nasceu, tudo transformaste:
O que sonhei, o que sonhaste.
Do sol veio a luz,
No teu corpo lavrado floresci.
Depois nem sei, vi que mudaste.
Já não eras riacho, eras fonte seca
Onde mirei o meu olhar.
Do teu corpo nu brotou a árvore, 
Dos teus cabelos revoltos, como folhas, o silêncio
As minhas mãos poisaram como pássaros
Nas tuas mãos abertas como pontes.
Tua boca debiquei e tu sorriste.
Do nada surgiu o teu peito branco,
Nas tuas costas graníticas me sentei.
Debrucei-me sobre ti, uma nuvem surgiu;
Do céu dos teus olhos, como grãos
Gotas caíram.
Sequiosa pomba mensageira, uma bebi.
Passei teu território, a fronteira.
Voltei de novo a ti mas não te vi.
Diz-me meu amor porque voaste...



Laura Santos   


Foto de Antonio Maria.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Artur da Távola






Coisas que a vida ensina depois dos 40.......



Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não....
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados a terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer-nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...




Artur da Távola   

Foto de Antonio Maria.

Mário Cesariny







Faz-me o favor


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá...
Tua boca velada
É ouvir-te já.


É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.


Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.



Mário Cesariny   


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cidália Ferreira.







Sinto em teu corpo o calor do teu prazer

Nesta noite iluminada pelo teu ser
Como chuva de estrelas em brandura 
Que iluminam, aconchegam meu coração,
Sinto em teu corpo o calor do teu prazer
Que me transmite segurança sem se ver,
Neste momento em que o desejo, a paixão
Fazem parte de toda a minha loucura,
Quero sim, que me aconchegues nesta noite
Em que os desejos são a minha companhia, 
.
Não saberás o valor do meu carinho
Quando entras em meus sonhos enamorados,
São teus beijos partículas de poesia
Que espalhas em meu corpo desejoso,
São nossas vestes a transparecia, o glamour 
De todo o nosso momentos esplendoroso
Nesta noite iluminada pelo teu ser
Saberás tu o valor que tens para mim
Quando nesta entrega sentirás, o meu amor.


Cidália Ferreira.

HAMILTON RAMOS AFONSO







SONHEI-TE




Foi tão real!


Por uns momentos senti-te, 
nos meus braços, em minha cama
o perfume da tua pele 
impregnando os lençóis,unindo-se 
ao meu cheiro…


O beijo que eu te dei, pleno de saliva
quente, doce e sensual, fez-me
arder de desejo, e despertou a 
urgência da descoberta do teu corpo


Visitei, com as minhas mãos nuas, em
gestos lentos e sensuais o relevo
do teu peito, tomando-o 
em gestos serenos e macios, sentindo a
frescura de veludo da tua pele


Puxei, com ternura o teu corpo
para o meu, e tu ternamente abriste
a tua fonte da vida, ao paroxismo 
de dois corpos que se amam, com paixão,
até que ambos atingimos o clímax, jorrando em ti a 
minha seiva até à ultima gota


Acordei, e só então reparei que não passou
de um sonho.


A distância continua a colocar em nós
uma cruel barreira à necessidade de
nos cumprirmos, de em nós
fazermos vida…




HAMILTON RAMOS AFONSO   



Foto de Antonio Maria.

                       

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eugénio de Andrade









Acordo sem o contorno do teu rosto na 
minha almofada, sem o teu peito liso e claro 
como um dia de vento, e começo a erguer a 
madrugada apenas com as duas mãos que 
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os 
meus olhos partiram nos teus. 
E é assim que a noite chega, e dentro dela 
te procuro, encostado ao teu nome, pelas 
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão 
aberta nos dedos como um cravo. 
Meu amor, amor de uma breve madrugada 
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e 
desfolho-a lentamente, até que outra boca - 
e sempre a tua boca - comece de novo a 
nascer na minha boca. 
Que posso eu fazer senão escutar o coração 
inseguro dos pássaros, encostar a face ao 
rosto lunar dos bêbados e perguntar o que 
aconteceu. 


Eugénio de Andrade   


Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

rui amaral mendes























Perdition catch my soul
But I do love thee!
And when I love thee not
Chaos is come again.

Shakespeare 


escrevo a destempo
das verdades que me habitam.
conjugo sujeito, predicado
complementos

unicamente nos momentos
em que substantivos e verbos
adjectivos e pronomes
palavras isoladamente neutras

se alinham
como astros num imenso cosmos
para conferir cor ao fogo que
carrego.

se silêncios entrego
não os cuides vazios:
permanece densa     ensurdecedora
a verdade da essência que carregam.

a matéria do poema, sabes!,
são palavras que desejo livres
da ditadura das grilhetas
vazias das circunstâncias,

celebrando a errância de alma minha
por dentro de veredas tuas,
temendo apenas o caos
que sobrevirá à tua ausência.


rui amaral mendes
 in a noite o sangue [2016] ©

domingo, 16 de abril de 2017

Florbela Espanca









Alma a Sangrar


És pequenina e ris ... A boca breve ...
É um pequeno idílio cor-de-rosa ... 
Haste de lírio frágil e mimosa! 
Cofre de beijos feito sonho e neve!


Doce quimera que a nossa alma deve 
Ao Céu que assim te faz tão graciosa! 
Que nesta vida amarga e tormentosa 
Te fez nascer como um perfume leve!


O ver o teu olhar faz bem à gente ... 
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores 
Quando o teu nome diz, suavemente ...


Pequenina que a Mãe de Deus sonhou, 
Que ela afaste de ti aquelas dores 
Que fizeram de mim isto que sou! 



Florbela Espanca


, in "Livro de Mágoas"  


Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

A QUALQUER HORA.







A QUALQUER HORA.

A qualquer hora em que chegares, sentarás comigo em minha mesa. A qualquer hora em que bateres a minha porta, o meu coração também se abrirá. A qualquer hora em que chamares, eu me apressarei. A qualquer hora em que vieres, será o melhor tempo de te receber. A qualquer hora em que te decidires, estarei pronto para te seguir. A qualquer hora em que quiseres beber, eu irei a fonte. A qualquer hora em que te alegrares, eu bendirei ao Senhor. A qualquer hora em que sorrires, será mais uma graça que o Senhor me concede. A qualquer hora em que quiseres partir, eu irei a frente nos caminhos. A qualquer hora em que cantares, eu estenderei os braços. A qualquer hora em que te cansares, eu levarei a cruz. A qualquer hora em que te sentires triste, eu permanecerei contigo. A qualquer hora em que te lembrares de mim, eu acharei a vida mais bela. A qualquer hora em que partires, ficarás com a lembrança de uma flor. A qualquer hora em que voltares, renovarás todas minhas alegrias. A qualquer hora que quiseres uma rosa, eu te darei toda roseira. Eu te digo tudo isso, porque não posso imaginar uma amizade que não seja total, de todos os instantes e para todo bem.

Como é bom ter amigos,beijinhos com carinho...



Foto de Antonio Maria.

sábado, 15 de abril de 2017

Eugénio de Andrade







Adeus





Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar.


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor, 
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade
, in “Poesia e Prosa”  


Foto de Antonio Maria.

Rita Leston








Gosto de ti e então????????
Estar contigo é estar em paz. É estar em segurança. Estar contigo faz com que a minha mente aquiete. Com que eu seja o mesmo. Faz com que ser eu não custe.
Estar contigo é sorrir. É gargalhadas sem razão. É sorrisos ternos e olhos brilhantes. São abraços que se sentem mesmo quando não estamos. É ter a música própria que mais ninguém ouve. Estar contigo é trazer o sol comigo, mesmo num dia de chuva.
Estar contigo, é estar em paz. 
Demoras?



Rita Leston   

Foto de Antonio Maria.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

EXPLICAÇÃO DO AMOR.....








EXPLICAÇÃO DO AMOR







O amor, minha linda, é esta coisa louca    
que faz meu coração sair pela boca
quando te toco, quando posso te beijar.
Sei que devo, mas, não posso explicar
como minha pulsação se acelera
e o mundo dá mil voltas
ao, levemente, por meus dedos nos teus seios
e, mais suavemente ainda, colher o mel
da tua flor tão bela, doce, embriagadora.
O amor, minha linda, é este querer desesperado,
esta sensação duradoura
de uma necessidade imperiosa
que torna imprescindível o ser amado
e colore o mundo, o ar, a vida
quando te vejo, querida,
e, intuitivamente, sei
que sem ti
feliz jamais serei.

Rosa Lobato Faria









Ele tirou a roupa com elegância e o seu corpo nu era bem a prova da existência do deus que criou o homem ao sétimo dia e descansou. Olhou-a sem a tocar e disse, tira a pulseira, os brincos, esse fio de ouro, quero-te nua, estás cheia de símbolos de classe social e agora não és nada disso, és um bicho soberbo, felino, em pleno cio. Ela obedeceu sem tirar os olhos dos seus olhos daquele dia, e ele procurou a boca dela pelo caminho das coxas, do ventre, dos seios, dos olhos, das orelhas, purificou-se na humidade dos lábios, disse palavras tontas, cântaro, barco à vela, fada, gueisha, camélia, tangerina, iniciou o caminho de volta enquanto as mãos ensaiavam voos de gaivota pela praia, pelos ombros, as costas, as nádegas, e os dedos festejavam e dizia palavras. E o corpo dela de tocaia suspenso entre o céu e a terra, oferecendo-se àquela língua sábia, enquanto o coração, ai dele, se afogava em marés ilimitadas. A sua branca, feminina garganta navegou em todos os cambiantes do murmúrio e do grito, e na hora vermelha, solta de todas as amarras, ouviu-se dizer palavras espantosas, morde-me, inunda-me, mata-me, quero que todos saibam que sou a tua coisa, a tua fêmea, ai.”

Rosa Lobato Faria

In “Os pássaros de seda”
Homenagem a Rosa Lobato Faria   


Foto de Antonio Maria.