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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Estrela da Tarde




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Ary dos Santos

Foto: Anna.Edyta Przybysz (aprzybysz)

Relembrando velhos tempos...

Cantico Negro




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Pórtico





Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
— ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo duma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.
(Um ócio grande. Morre tudo
dum morrer suave e brando...

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm ...

João José Cochofel

De : helena guimaraes

HAVIA SOMBRAS DE DISTÂNCIA
 HAVIA SOMBRAS DE DISTÂNCIA

HAVIA SOMBRAS

Havia sombras de distância

no teu olhar

e uma fatalidade doce

nos contornos da noite

que os dedos de estrelas

pontilhavam de poesia.

-Tu vais negar-me!

-Não te nego!

Assim reescrevemos

a história,

engolimos a vida

tementes do riso.

Rasgamos os outros

porque assim é preciso,

domamos a face, escondemos misérias,

enchemos de lama

as coisas mais serias,

para não ver um esgar,

um riso,

um afastar.

O eterno dilema de estar.

Construímos sonhos, magia

e vivemos, amordaçados,

numa eterna letargia!

H.G Outubro 2003

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jamais serei um poeta como Chico....



Sem habilitação

Se for requisito para ser grande poeta
A necessidade de amar uma mulher sem orifícios
Dispenso a láurea de ser grande neste ofício,
Pois, me vale muito mais ser um poeta menor
E aproveitar os orifícios ao redor
Que renunciar a tamanha fonte de prazer.

domingo, 26 de junho de 2011

Y resbaló.......De : Dionisio Ridruejo



Memória



Y resbaló el amor estremecido
por las mudas orillas de tu ausencia.
La noche se hizo cuerpo de tu esencia
y el campo abierto se plegó vencido.

Un ayer de tus labios en mi oído,
una huella sonora, una cadencia,
hizo flor de latidos tu presencia
en el último borde del olvido.

Viniste sobre un aire de amapolas.
Como suspiros estallando rojos,
bajo el ardor de las estrellas plenas,

los labios avanzaron como olas.
Y sumido en el sueño de tus ojos
murió el dolor en las floridas venas.


Memória

E resvalou o amor estremecido
pelas mudas margens de tua ausência.
A noite se fez corpo de tua essência
e o campo aberto se quedou vencido.

Um ontem de teus lábios ao meu ouvido,
uma trilha sonora, uma cadência,
fez-se flor de latidos a tua presença
na fronteira última do esquecimento.

Viestes com um ar de papoilas.
Como suspiros estalando de vermelhos,
sob o calor forte das estrelas plenas,

os lábios que avançaram como ondas.
E sumiram no sono de teus olhos
morreram na dor das veias mais floridas.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um amor....




Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão.
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus, do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice

Imagem retirada do Google

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um tema eterno.....




Foi Assim

O meu amor aconteceu
como acontece, em geral, o amor.
Como um passarinho veio,
de mansinho pousou
e, sem precisão, bicou meu coração
que despertou
e me deixou tão tolo, tão contente
tão feliz que, de repente,
me vejo assim fazendo versos para você.

De: helena guimaraes / Que loucura


 QUE LOUCURA

Que loucura é a vida!

Turbilhão de sensações,

de existências

que se estiolam

lentas,

em inerte engano.

Vidas tão cinzentas!

Os sonhos desfeitos dia a dia,

a renascer, límpidos

na mesma utopia.

Que loucura é a vida!

Onde estamos nós?

Somos ou não somos?

Alacres gnomos,

nesta imensidão,

cada vez mais sós.

Nos abstraímos.

Vivemos?

Não. Só existimos!

H.G Setembro 2002

Seios....................




Teus seios pequeninos que em surdina,
pelas noites de amor, põem-se a cantar,
são dois pássaros brancos que o luar
pousou de leve nessa carne fina.

E sempre que o desejo te alucina,
e brilha com fulgor no teu olhar,
parece que seus seios vão voar
dessa carne cheirosa e purpurina.

Eu, pare tê-los sempre nesta lida,
quisera, com meus beijos, desvairado,
poder vesti-los, através da vida,

para vê-los febris e excitados,
de bicos rijos, ávidos, rasgando
a seda que os trouxesse encarcerados.

Hildo Rangel

Foto:Michelle 7

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Meus olhos.perc....






Meus olhos percorreram teu rosto...
Envolvi-me em tua alma inocente.
Não entendi o que você me disse,
Fiquei encantado com a ópera da sua voz:
A música dos anjos.

Você não existe...

Apenas imagens...
Sentimentos são puros

Apenas a lembrança...
Anjos resistem ao tempo

O mundo é feito de imagens,
A imagem do amor é você.
Até hoje não sei se sonhei
Ou continuo acordado.
Quero voltar ao passado,
Tentar encontrar você no futuro.

A fotografia do tempo na lembrança
De quem testemunhou
A queda de um anjo na terra.

- Talvez este sonho nunca acabe.

Thiago Maia

Blocos......




É isto vivemos dentro
de grandes blocos de gelo
sem aquecermos ao menos
com os dedos outros dedos
No fundo de nós temendo
que um dia se quebre o gelo.

David Mourão-Ferreira

domingo, 19 de junho de 2011

Mas há a vida .....




Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector

Imagem retirada do Google

sábado, 18 de junho de 2011

É..............................

É melhor viver assim
Apaixonado e distante
Do que ser o melhor amante
Incompreendido e descontente.

É melhor viver assim
Amando quando se pode
Loucamente enamorado
Que viver mal lado a lado.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

convencido.....



Hei de dizer
Com prazer mal disfarçado
Ainda que me deixes amanhã:
“O túnel da vida atravessei
e sei,
se alguma coisa sei,
que o amor que tive tão pouco
me compensou dos uivos dos coiotes
e dos corvos que me rodeiam”.
E nada mais será preciso....

Uns ardem e outros....


Olhares De : helena guimarães

Os olhares são uma brecha
por onde a alma se escapa
e se mostra sem maneiras,
com o calor da paixão,
fria como uma faca,
enevoada de lágrimas,
ou só de si toda inteira.

Olhares de fogo e de mel
profundos, doces, devassos,
que nos desnudam, lascivos;
olhares cansados e baços
do tempo e da amargura;
olhares vestidos de estrelas
que explodem de alegria;
olhares de nostalgia
de um mundo que já morreu.

Olhares!
Uns, de ódio e de raiva
lançam milhares de punhais.
Outros, navegam ternura
em calmos e longínquos lagos.
Uns ardem de desejos,
e outros anseiam beijos.

Os olhares que encontramos
dia a dia na cidade
contam histórias
contam vidas,
lutas ganhas e perdidas,
voos de ave acorrentada,
procura de infinito,
a alma toda num grito
em busca da felicidade!!

De : H.G. / 2008

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O amor é que é essencial ....





O AMOR é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Fernando Pessoa

Identidade....




Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.
Mas como as inscrições nas penedias
Tem maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eu sei, não te conheço, mas existes ...




Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.


Joaquim Pessoa

CANÇÃO DA HORA INESPERADA........


Se não és um fantasma,
Se não tenho ilusão,
Por favor,
Não, não diga nada,
Nada de explicação.
Me dá só tua mão,
Me olha com o mesmo olhar
Que vou por a música pra tocar.
Só te dou permissão
Para um copo de vinho,
Um carinho, um beijo, talvez,
Antes de dançar.
Como pode ser a última vez
Só preciso que saiba
Que, hoje, me fez
Muito feliz.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Madrigal....





Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 13 de junho de 2011

De : Jorge Luis Borges



El enamorado



Lunas, marfiles, instrumentos, rosas,
lámparas y la línea de Durero,
las nueve cifras y el cambiante cero,
debo fingir que existen esas cosas.
Debo fingir que en el pasado fueron
Persépolis y Roma y que una arena
sutil midió la suerte de la almena
que los siglos de hierro deshicieron.
Debo fingir las armas y la pira
de la epopeya y los pesados mares
que roen de la tierra los pilares.
Debo fingir que hay otros. Es mentira.
Sólo tú eres. Tú, mi desventura
y mi ventura, inagotable y pura.

O enamorado

Luas, marfins, ferramentas, rosas,
lâmpadas e as linhas de Dürer
os nove números e o cambiante zero,
devo fingir que existem estas coisas.
Devo fingir que no passado foram
Persépolis e Roma e que uma areia
sutil mediu a sorte da ameia
que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
da epopéia e dos pesados mares
que roem da terra os pilares.
Devo fingir que existem outros. É uma mentira.
Só tu és. Tu, minha desventura
e minha felicidade, inesgotável e pura.

domingo, 12 de junho de 2011

Toda a vida que eu vivesse....

Morri ontem

João Vasconcelos / Jorge Rosa
Repertório de Tony de Matos

Toda a vida que eu vivesse / Jurei que te dedicava
E toda a a vida deixava / No dia em que te perdesse

Deixei de ver-te, ceguei / Quis falar-te e fiquei mudo
Os meus sentidos e tudo / Que era meu, abandonei

Morri ontem, podem crer
Á hora em que o sol, morria
Á hora triste, em que o dia
É dia, e deixa de o ser;
Comigo nunca mais contem
Pois de mim mais nada existe
Morri quando tu partiste
Partiste ontem, morri ontem

A vida que Deus me deu / Só foi minha até á altura
Em que por sagrada jura / Todo o meu viver foi teu

Sem saberes o que fazias / Presa a outro amor fugiste
Sem pensares quando partiste / Que a minha vida partia




Sonhei contigo.....desde sempre....




Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

Imagem retirada do Google

sábado, 11 de junho de 2011

Lembras-te ...? e foi assim o começo...

Olhares

Os olhares são uma brecha
por onde a alma se escapa
e se mostra sem maneiras,
com o calor da paixão,
fria como uma faca,
enevoada de lágrimas,
ou só de si toda inteira.

Olhares de fogo e de mel
profundos, doces, devassos,
que nos desnudam, lascivos;
olhares cansados e baços
do tempo e da amargura;
olhares vestidos de estrelas
que explodem de alegria;
olhares de nostalgia
de um mundo que já morreu.

Olhares!
Uns, de ódio e de raiva
lançam milhares de punhais.
Outros, navegam ternura
em calmos e longínquos lagos.
Uns ardem de desejos,
e outros anseiam beijos.

Os olhares que encontramos
dia a dia na cidade
contam histórias
contam vidas,
lutas ganhas e perdidas,
voos de ave acorrentada,
procura de infinito,
a alma toda num grito
em busca da felicidade!!


De : helena guimarães

5/12/2008
Model Tulipa



Poemas mal comportados / India....



Índia

Ela chorava, ela gemia
E reclamava
Que bom mesmo é se doía
E mais pedia
E mais queria
Se descabelava, me mordia,
se mordia,
Queria mais, ela sempre mais queria,
Fosse noite ou fosse dia,
Me procurava e cada vez era uma agonia
E nunca que se contentava.
Me beliscava
E sempre ria
E me dizia:
-Eu sou é índia. Gosto é de selvageria.

Momento....




Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música.

David Mourão-Ferreira

Imagem retirada do Google

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Do amor I e II.....




I

A névoa disse à árvore:
tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe ser, figura.

II

Ver o cortejo de cedros
e acreditar que é o cenário.
Depois, estender a mão
através da longa perspectiva
oblíqua e poder apalpar,
na pele, que também os cedros
têm corpos húmidos, saliva,
à espera do Amor.

Fiama Hasse Pais Brandão

Imagem retirada do Google

De : Helena Guimaraes

Livro de poesia
 INTIMIDADES
Descrição:

AS TUAS MÃOS

as tuas mãos longas

e morenas

que exprimem do gesto

a subtileza

são lindas, são etéreas

são subtis.

Parecem aves

esvoaçando presas...

Como gosto

de, perdida em pensamento,

seguir as figuras

que, no espaço,

as tuas mãos desenham

em sentido,

e cingi-las ao meu corpo

qual abraço...

Como gosto

quando apontam o universo,

os dedos estirados

como setas...

me elevam, me redimem, me libertam.

Me encontram o perdão

do meu pecado.

Me acalmam,

me sublimam,

como ascetas.!!


Helena Guimaraes

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Moreninha







Casimiro de abreu

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d'amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

Quando tu passas n'aldeia
Diz o povo à boca cheia:
- "Mulher mais linda não há
"Ai! vejam como é bonita
"Co'as tranças presas na fita,
"Co'as flores no samburá! -

Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena - não tens rival!

Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!

Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!

E disse então: - Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.

Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t'iguala ou t'imita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te... parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!

Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:

- "Oh quem me compra estas flores?
"São lindas como os amores,
"Tão belas não há assim;
"Foram banhadas de orvalho,
"São flores do meu serralho,
"Colhi-as no meu jardim." -

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
- Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!...

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
- Como tu ficas bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Eu disse então: - "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores,
"Deixa perfumes sentir!"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta...
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?...

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te - rosa da aldeia -
Como mais linda não há.
- Jesus! Como eras bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Indaiassú - 1857

terça-feira, 7 de junho de 2011

Arquiteta moderna




Talvez no mundo lá fora
Outra mulher seja a minha,
Porém, nos meus pensamentos
Será que tu adivinhas
Quem é que me abraça o corpo
No leito me faz carinho?
Quem é que beija meu rosto,
Quem é que morde meu peito?
Quem é que me fala doce
Sobre um mundo já esquecido?
- És tu, dona dos meus olhos,
Senhora dos meus sentidos
Que docemente na cama
Me honra com seus gemidos
E que ao se perder me perde
De uma forma tão concreta
Que enche o mundo de magia
E de poesia, uma reta
Fazendo castelos de sonhos
Onde só há parca areia.
Tu és uma aranha melosa
Que faz um edifício ou uma teia
Com traços e perfume de rosas
E meu coração incendeia
Tornando a vida formosa.






segunda-feira, 6 de junho de 2011

PEDISTE-ME UM DIA UM POEMA


 PEDISTE-ME UM DIA UM POEMA
Descrição:

NÃO-POEMA

Pediste-me um dia um poema,

poema que fosse teu.

Como ave delicada

que agoniza quando presa,

o poema nasce na alma,

movimenta-nos o sangue

com a força do desejo,

humedece-nos os lábios

com a ternura de um beijo,

dança na bainhas dos versos,

plana nas asas da calma,

amordaçado, ele morre

se soletrado fenece.

Poema não compreendido

torna-se vago, emudece.

Procurei o teu poema

no abraço da entrega,

nas pegadas paralelas

de mãos dadas junto ao mar,

na cumplicidade da noite,

na comunhão de um olhar.

Só descobri versos vagos

dançando ao som do medo,

abandonos calculados,

a reserva e o segredo.

Pediste-me um dia um poema,

poema que fosse teu.

Mas nesses versos dispersos,

o poema se perdeu.

Não consegui e foi pena.

Poema não construído

torna-se num não-poema!

HG Junho 2004

domingo, 5 de junho de 2011

Jogos eróticos ou recordações juvenis...



Brincar de amor

Embora a dureza da madeira tenha,
suave pode ser e, com jeito, vou
prender-te e te prensar, e todo o meu amor
e desejo, mais forte e teso que amarras em catapultas,
ou as cordas da guitarra em ti, eu vou,
meter até a sétima costela
até que sintas, minha bela,
o prazer enorme de gemer de amor.

Fico mesmo...

Sem Título



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo querer morrer.

José Luís Peixoto

Imagem retirada do Google

sábado, 4 de junho de 2011

Poemas mal comportados....



Homem objecto

Tua delicadeza é feita de unhas afiadas
que me arranham, cortam e me desenham
o corpo com linhas e riscos obscuros
no teu abraço de virgem e de serpente.

Nem tens cuidado com a pele delicada
ou pensas que as forças me acaba;
me sugas com a soberba dos deuses
e a voracidade das piores feras.

Já eras-me dizes- enquanto as mãos
febris querem extrair mais de onde não há
e a língua e os dentes se põem a passear
com um sorriso de quem há de tirar a última gota.

E só tenho como última lembrança antes do sono
o calor do teu desejo apaixonado e raivoso
se satisfazendo como pode sobre meu ser inerte
que adormece feliz de ser teu objecto....

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Eu simplesmente sinto...

Fernando Pessoa

"Isto"


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

De : Antonio Gala.....



Voy a hacerte feliz. Sufrirás tanto



Voy a hacerte feliz. Sufrirás tanto
que le pondrás mi nombre a la tristeza.
Mal contrastada, en tu balanza empieza
la caricia a valer menos que el llanto.

Cuánto me vas a enriquecer y cuánto
te vas a avergonzar de tu pobreza,
cuando aprendas -a solas- qué belleza
tiene la cara amarga del encanto.

Para ser tan feliz como yo he sido,
besa la espina, tiembla ante la rosa,
bendice con el labio malherido,

juégate entero contra cualquier cosa.
Yo entero me jugué. Ya me he perdido.
Mira si mi venganza es generosa.

Eu vou te fazer feliz. Sofrerás tanto

Eu vou te fazer feliz. Sofrerás tanto
que colocarás meu nome na tristeza.
Na tua balança mal ajustada começa
a carícia a valer menos que o pranto.

Quanto me vais enriquecer e quanto
tu vais te envergonhar de tua pobreza,
quando aprenderes- a sós- que a beleza
tem o rosto amargo do encanto.

Para ser feliz como tenho sido,
beijo o espinho, e tremo ante a rosa,
abençoado com o lábio ferido,

Joga-te inteiro contra qualquer coisa.
Eu inteiro me joguei. E já estou perdido.
Veja como minha vingança é generosa.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A todos e a cada um dos meus amigos...



Por um por todos por nenhum

faço o meu canto canto a minha mágoa

num desencanto aberto pelo gume

deste pranto tão limpo como a água.

Por nenhum por todos ou por um

eu dou o meu poema o meu tecido

de palavras gravadas com o lume

do medo que na voz trago vencido.

Por nenhum por um mesmo por todos

sou a bala e o vinho sou o mesmo

que pisa as uvas os versos e o lodo

num chão onde a coragem nasce a esmo.


De: Joaquim Pessoa