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quinta-feira, 25 de maio de 2017

maria helena guimaraes




PERDI 


Perdi o caminho
para as coisas simples.
Aquele golpe de asa
que me fazia sonhar,
que entendia a flor,
o pôr-do-sol e o mar,
o rocio da manhã,
a calidez de Setembro,
um sorriso doce,
um olhar claro
e o calor da lareira
à noite, em Dezembro.


Perdi o caminho
para as coisas simples.
esse trilho estreito
que sobe na escarpa,
que trepamos sem medo,
alegres, sem jeito.
O rir cristalino
Que explode na alma
O abandono ao sentimento,
o viver do momento,
amar pelo amor
entregue inocente,
colhendo-o sem dor.


Perdi o caminho
Para as coisas simples!!



Maria Helena Guimarães  



FOTO ACTUAl DA POETISA

Foto de Antonio Maria.

Carlos Drummond de Andrade




POEMA

Então convicto ouço o teu nome,
Única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo , puro som.
Aperto... o quê ? A massa
de ar em que te converteste
e beijo , beijo intensamente o nada .


Carlos Drummond de Andrade

Foto de Antonio Maria.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

isabel de sousa ( luadiurna )






Lua ancestral


Vestes a noite
com a tua claridade nua
ritos ancestrais de brumas e feitiços
vagueias em mim
desde mais atrás de Avalon
e a noite é tua
percorres os sentidos
perpetuas os desejos
em lagos oníricos onde se perturba a razão
mágica é a tua presença
oh lua encantada
e eu percorro o deserto
das reticências do sentir
à procura de ti de mim
e do significado do mistério
habitas a noite
imaginas os sonhos
és lua nocturna
e no teu olhar
acodes às manhãs
onde o dia se anuncia
afago-te a mão da aurora
e chamo-te a mim
envolvo-te num sorriso aberto
e sinto-te
nocturna e diurna
neste eterno retorno
que me sabe a ti

Isabel de Sousa ( luadiurna )   

Foto de Antonio Maria.

Nuno Júdice





Leio o amor no livro...
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos...
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele



Nuno Júdice  

Foto de Fatima Pereira.























Na espessura do bosque
o que a minha mão procurava
era um mirtilo


Jorge Sousa Braga




























Adorei a cor do teu vestido
A cor de quando à noite a pele nos toca

Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)



António Carlos Cortez












terça-feira, 23 de maio de 2017

Francisco Valverde Arsénio //// Não Me Lembro / Mas Sei !



Não me lembro se chegaste a pedir para entrar nos meus dias. Mas que importa, apetece-me afundar no teu olhar e perder-me num momento que não termine nunca. Só eu sei como a voz dos teus olhos tem mais timbre que o som das gotas de orvalho… e elas caem nesta madrugada vindas do cimo de todas as flores. Enraizaste-te em mim como a neblina ao beijar a terra por cima do monte… intensamente… e os corpos evadem...-se nessa bruma densa… toco-te… tocas-me a alma com esse sabor selvagem de quem está presente mesmo quando ausente… és mulher!

© Francisco Valverde Arsénio



Foto de Antonio Maria.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

são reis





POEMA

MAIS UM ..


Por vezes é no silêncio que melhor me escuto
que melhor me entendo
que melhor assimilo todas essas luzes acesas
que teimam em brilhar
e que eu teimo em desvanecer
como se fossem por si só um crime
Por vezes é nos meus ouvidos
que esses silêncios gritam
e fazem eco
tornando-se a melhor terapia
que nessas alturas eu poderia desejar
Por vezes mordo esse silêncio
engulo-o
e volto a expeli-lo do meu corpo
como uma benção anunciada
que me deixa mais segura
aliviada
como se de repente eu entendesse
a essência de todas as coisas
e os porquês de todas as pessoas

são reis    

Foto de Antonio Maria.

domingo, 21 de maio de 2017

Glória Salles





“Teu coração, minha casa”.


É inútil trancar todas as entradas
Na casa do teu coração faço morada
Apenas eu preencho estes teus nadas
Às minhas rendas se rende na madrugada.
Dissemino meu cheiro pelos tapumes
As paredes do teu intimo impregnando
Altero todas as rotinas, teus costumes.
Sou o desejo no teu corpo gotejando
No cálculo das tuas horas, na contagem.
Sou saldo positivo, que te faz perceber.
A vã tentativa de extinguir minha imagem
Que coisa alguma vai minha marca remover
Posso até ser fábula, enigma, ou delírio talvez...
Mas é nos meus rios que teu sonhar tem placidez.


Glória Salles  Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.



sábado, 20 de maio de 2017

Nuno Júdice








Braile

Leio o amor no livro...
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele

Nuno Júdice   

Foto de Antonio Maria.

Torquato da Luz








Medo de te amar demais,
quando demais não é suficiente.
Medo de não saber por onde vais,
quando te sei ausente.
Medo de ficar só entre os demais,
quando se torna evidente
a abundância de sinais
de que não estás presente.
Medo de te amar de mais,
porque demais não é suficiente.




Torquato da Luz   

Foto de Fatima Pereira.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

(Eugénio de Andrade)






Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.
...

(Eugénio de Andrade)


Foto de Antonio Maria.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Eugenio de Andrade







Tu és a esperança, a madrugada



Tu és a esperança, a madrugada.
Nasceste nas tardes de setembro,
quando a luz é perfeita e mais dourada,
e há uma fonte crescendo no silêncio
da boca mais sombria e mais fechada.
Para ti criei palavras sem sentido,
inventei brumas, lagos densos,
e deixei no ar braços suspensos
ao encontro da luz que anda contigo.
Tu és a esperança onde deponho
meus versos que não podem ser mais nada.
Esperança minha, onde meus olhos bebem,
fundo, como quem bebe a madrugada.


Eugénio de Andrade  

Foto de Antonio Maria.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Nuno Júdice.






As coisas mais simples, ouço-as no intervalo do vento
Quando um simples bater da chuva nos vidros
Rompe o silêncio da noite e o seu ritmo se sobrepõe
Ao das palavras.
Por vezes, é uma voz cansada que repete ...

Incansavelmente o que a noite ensina a quem vive.
De outras vezes, corre, apressada,
Atropelando sentidos
E frases como se quisese chegar ao fim,
Mais depressa do que a madrugada.
São coisas simples como a areia que se apanha,
E escorre por entre os dedos enquanto
Os olhos procuram
Uma linha nítida no horizonte
Ou são as coisas que subitamente lembramos,
Quando o sol emerge num breve rasgão de nuvem.
Estas são as coisas que passam quanto o vento fica
E são elas que tentamos lembrar, como
se as tivéssemos ouvido ,
E o ruído da chuva nos vidros
Não tivesse apagado a sua voz.


Nuno Júdice.  


Foto de Antonio Maria.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Maria do Rosário Pedreira






, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos...

que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros


Maria do Rosário Pedreira,

in Poesia Reunida (Quetzal, 2012)

Arte: Dario Campanile   

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

POR TI / Paula Raposo




Por ti...



Damos as mãos, em simultâneo,
nem sequer nos olhamos,
basta o tacto, e esse calor
húmido que me inebria.

Quero sentir-te,
fervilhar no afago da tua mão,
e derreter-me nas mãos do nosso amor.

Não me deixes,
segura-me ainda,
aperta-me, enlouquece-me;
desliza pelo meu corpo
que te espera, entra em mim.

Deixa que eu me entregue
pelo tempo que o tempo dura,
vive por mim, em mim,
o momento de ser tua.



Paula Raposo in ' canela e erva doce' , pág.11, 2006 - Magna Editora


Foto de Fatima Pereira.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Isabel de Sousa ( luadiurna )





Para que me visses
incendiei o sol de Abril
abri os casulos das borboletas azuis...
espelhando no céu as gaivotas
e o rio
o teu rosto queimava
na hora do meio dia
e à noite
a lua trazia-me a loucura
das palavras sussurradas
onde se instalava
o frémito da paixão
a manhã era um sorriso aberto
no meu corpo

os girassois caminham
em direcção â luz



Isabel de Sousa
( luadiurna )  

FOTO DA POETISA

Foto de Antonio Maria.

domingo, 14 de maio de 2017

CARLOS EDUARDO LEAL,






 UMA CARTA AO CAIR DA TARDE

meu amor
O oceano não precisa das suas lágrimas para ficar mais salgado.
Nem os céus nem as estrelas ficarão mais luminosos
do que o brilho dos teus olhos.
mas a minha vida ficará mais deserta
sem o aconchego dos teus abraços
e o suspiro melancólico da tua voz em meus ouvidos.
Portanto, não se esqueça de que
o oceano sempre toca o céu no infinito das paixões,
assim como eu infinitamente enlaço o corpo da tua alma
despudoradamente através do erotismo que brota ávido
no corpo das minhas palavras.


CARLOS EDUARDO LEAL,
in A SEDE DA MULHER (E DE UM HOMEM), (editado no Brasil, s/ data)

Foto de Antonio Maria.


sábado, 13 de maio de 2017

Reinaldo Ferreira





Perguntas-me quem sou? Sou astro errante

Perguntas-me quem sou? Sou astro errante
Que um sol dominador a si chamou,
E, cego do seu brilho rutilante,
Se queima nessa luz que o encantou!

Meus passos de inseguro caminhante,
Submissos ao olhar que os escravizou,
Caminham para Ti em cada instante
E tu ainda perguntas quem eu sou!

Eu sou aquilo que de mim fizeste,
Sou as horas sombrias que me deste
A troco da ternura que te dei

Perguntas-me quem sou? Nome de Cristo,
Eu nada sou, Amor, eu nem existo,
Mas querendo tu, Amor, tudo serei!


Reinaldo Ferreira  


Florbela Espanca






Sem remédio


Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor...
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!



Florbela Espanca  

Foto de Fatima Pereira.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

José Luís Borges





Diz-me por favor onde não estás
em qual lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.
Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.
Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.
Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.
Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.

Jorge Luís Borges   
Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

De são reis





E sem palavras te amei...
e muda te recordo
Talvez a pele ainda te reconheça
se um dia te tocar
Tu vais morrendo aos poucos
no meu silêncio
desaparecendo na memória
do ultimo beijo
deixando um hálito fresco a saudade
porque toda a saudade se quer fresca e inteira
assim como um canteiro
que se rega e cuida todos os dias
Não vá o silêncio e o beijo
morrerem para sempre na mudez dos meus lábios




são reis  

Foto de Antonio Maria.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

MANUEL ALEGRE






MULHER DE PRETO


Ela vinha de preto mas trazia
a noite pendurada no vestido.
Porém não era luto mas alegria...
ou a cor do pecado anoitecido
ou talvez fosse a lua que nascia
na parte do seu rosto mais escondido.
Ela vinha de preto e resplandecia
porque era a própria noite que a vestia.



MANUEL ALEGRE

in NADA ESTÁ ESCRITO (Pub. D. Quixote, 2012)

Foto de Antonio Maria.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Jorge Pincoruja







Deixa que te abra pétala por pétala esmorecida ...
Nessa cor tua suave quase perdida
Nesse teu rendilhado desbotado...
A que me entrego dedicado.

Sejam esses tons de beleza amedrontada
Entre os meus dedos segurando esse desejo...
Minha flor de primavera desejada
No toque delineavel do teu beijo.
Deixa que te sinta com os meus bisturis aguçados
Que te cortam sem dor nem aflição
Que eu te sinta em teus seios rebuscados
Num arrepio soprado no coração...
Amor, que sendo minha flor tão desmaiada
De azuis celestes e aromas já tão gastos
Hortensia fria por mim algures pintada
Com cores azuis sofridas... e de rastos. 




Jorge Pincoruja 


Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Mia Couto








Uns fecham portadas,
e se encerram na paisagem.

Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.

Eu vivo apenas fora de mim.

De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo.
Apenas de outros me faço eu.

Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.

Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.

A meu lado
nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.

Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.

Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.

É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.

Só entāo tenho janela.



Mia Couto

Luísa Sobral / Amar pelos dois






Amar pelos dois


Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi p’ra te amar
Antes de ti, só existi...
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talves devagarinho possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talves devagarinho possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois


Luísa Sobral






Salvador Sobral canta na primeira semifinal o tema "Amar pelos Dois", uma composição da irmã Luísa Sobral, e consegue um lugar na Final do Festival da Canção 2017

Paula Raposo







Sem título
A ternura com que lês as entrelinhas das minhas reflexões
deixa-me um sorriso de afecto e de esperança,...
donde solto a saudade da distância.

São os espaços em branco que dão colorido à minha vida,
é o mar, são as flores,
é a voz, são os momentos.

Na luz das minhas palavras reflecte-se o teu olhar.


Paula Raposo   

Foto de Antonio Maria.


segunda-feira, 8 de maio de 2017








NATUREZA




Se acaso algum dia eu te fizer mal,
e, no amor, por amor, se faz deselegâncias,
tome isto como um padrão anormal...
não me julgue pelas inconstâncias .


Posso até mesmo não aparentar,
mas, meus sentimentos são instáveis
e há horas em que desejo apenas te namorar;
em outras, as distâncias são saudáveis.


Sou, talvez, tão puro quanto posso ser
e mais espontâneo e menos preparado
como um potro que, para ser domado,
exige que seus instintos sejam preservados.


Com certeza não sou um animal social.
Não por temer a luta ou os rivais.
É que me afasto de forma natural
para querer e desejar, aí, muito mais!

Foto de Antonio Maria.






Egito Gonçalves






Um dia destes abrir-se-ão as portas
e entraremos todos na cidade
um dia destes teremos um domingo
e haverá água límpida e potável

Um dia destes contaremos contos
de terrores antigos     de perseguições
e poremos os verbos no passado
felizes de escaparmos ao massacre

Um dia destes o silêncio quebrará
para sair uma canção de amor
um dia destes a noite abrir-se-á
e tu serás o rosto descoberto

Um dia destes poremos no zoológico
os últimos hipopótamos da cidade
e cortaremos o resto dos tentáculos
que nos mantêm à mercê do grande polvo

Um dia destes as palavras serão públicas
e não escreverão penas de morte
não servirão para mentir     atraiçoar
para ferir os amigos ou matá-los

Um dia destes construiremos um museu
com os retratos do medo e da tortura
do diabo     do crime     da miséria
na galeria dos antepassados

Um dia destes teremos tempo de juntar
os bocados de nós próprios e colá-los
um dia destes não seremos obrigados
a sempre recusar de mão fechada

Um dia destes tu serás tangível
e os meus dedos poderão desapertar-te
um dia destes os quatro cavaleiros
estarão na cadeia sem cavalos

Um dia destes não será com juras
clandestinas que a esperança se fará
um dia destes a fome não poderá
comprar de novo lâminas de barba

Um dia destes abrir-se-ão as portas
e dançaremos nas ruas da cidade
um dia destes beberemos todos
a cerveja da alegria e da amizade

Um dia destes secarão as lágrimas
e teremos cartas vindas da Europa
um dia destes a vida será fértil
e o dia seguinte estará sempre aberto

Meus amigos     meu amor
um dia destes...


Egito Gonçalves     



domingo, 7 de maio de 2017

[Sophia de Mello Breyner]








... Viagens...


“Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.”


[Sophia de Mello Breyner]

Uma poesia de Carmen del Río Bravo









RÍNDETE
Carmen del Río Bravo
Ya sé que rendirse tiene mala prensa.
Pero ríndete.
Deja que el dolor te doble.
Que el miedo te pare.
Que el sueño te venza.
Ríndete.
Doblada. Parada. Vencida.
Levántate.
Tú yo sabemos que
de nuevo.
Estárás lista.



Desiste
Eu sei que a render-se tem má fama.
Porém, rende-te.
Deixa que a dor te dobre.
Que o medo te pare.
Que o medo te vença.
Desiste.
Dobrada. Parada. Vencida.
Levanta-te.
Tu e eu sabemos que
de novo.
Estarás pronta.


Foto de Antonio Maria.

sábado, 6 de maio de 2017

Rosa Fonseca







A separação




É aquele desconforto no peito
entranhado...nunca termina
... Consome levemente os momentos do encontro
Dos olhares...os primeiros que tivemos
Ter-te em cada espera como a primavera as flores
E desenhar o teu rosto mesmo por instantes
Assim na sombra
Na ausência
Na metade...
Ter a demora do teu corpo no meu
Nesta geografia perdida... imaginária...
Como voz quente que afaga os sentidos...
E adoça o movimento do olhar que te espera
Que te acena num gesto secreto
Intimo
Nosso
Separação é voltar a ter-te sem nunca sentir distância...
Rosa Fonseca
, in “Sentires”

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

Nuno Júdice










É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 



Nuno Júdice
in "Pedro, Lembrando Inês"



NOTA:  ... é seguramente dos poemas de amor de que mais gosto. talvez por isso tenha demorado mais tempo para trazê-lo aqui. nem sempre o melhor vem primeiro e se apanha primeiro. poucas vezes é assim, pensando mais. também demorei muito a escolher a foto. tinha imaginado um registo leve, talvez desfocado, e em preto e branco. fiz alguns ensaios. mas a bela coreografia da olga roriz não me saía da cabeça e acabou por vencer o resto...