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sexta-feira, 31 de março de 2023

Matilde Campilho

 

Os garçons empilhando as cadeiras 
você me olhando e me pedindo que 
fale Por Favor Fale Mas Não Escreva
eu evitando o toque ruim dos ponteiros 
do relógio que anuncia a já famosa fuga
de nossos corpos cada um para sua 
ponta da cidade - se nosso amor fosse 
revólver eu seria o cabo e você a mira
tal como dizia a professora Sofia Jones
é terrível existência de duas retas 
paralelas porque elas nunca se cruzam 
e elas apenas se encontram no infinito 
a verdade é que nunca nos interessou
a questão do infinito mas o resto 
das ideias matemáticas claro que sim 
eu na verdade prefiro mais de mil vezes 
sua chávena de chá ficando fria sobre a mesa 
enquanto você fala sobre raízes quadradas 
enquanto você fala sobre ladrões de figos 
enquanto você fala sobre o tropeço da baleia 
subitamente eu já nem sei sobre o que você fala 
porque a forma como seu dente incisivo corta
e suspende toda a beleza da cafetaria 
faz com que eu novamente entenda que 
pelo sétimo dia é chegada a hora do cuco 
e do canto do cuco 
portanto eu pego minha bicicleta 
e como de costume você faz meu retrato 
de cabelo todo desenhado no vento 
em jeito de menino que está sempre indo embora 
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo 
voltará à mesma hora para o mesmo amor 
a mesma mesa a mesma explosão 
com toda a certeza a mesmo fuga 
porque você e eu a gente é feito de matéria 
escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia
e espanto.


Matilde Campilho




quinta-feira, 30 de março de 2023

Ana Luísa Amaral

 

E é o tempo depois da precaução ausente 
em que tudo me vem: versos, ternura, olhar 
e uma alegria absurda de partilhar contigo 
Himalaias poéticos, conspirações de artigos 

- como buracos negros desventrados e lisos,
eles são o que resta do meu lado em razão:
de quando te empurrei de cima do poema 
para não o estragar na emoção de ti.

E ainda às escuras tacteio verso e tu 
e respiro contigo em lírico Evereste 
(metaforicamente, ar rarefeito e liso)

E de luzes acesas, no depois hiperbólico,
pouso-te ternamente em cima do poema,
devolvo-te ao lugar onde sempre estiveste.


Ana Luísa Amaral 






Michelangelo Buonarroti (Caprese, 6 de março de 1475 - Roma, 18 de fevereiro de 1564), conhecido em espanhol como Miguel Ángel, foi um arquiteto, escultor e pintor renascentista italiano, considerado um dos maiores artistas da história tanto por suas esculturas quanto por suas obras. pinturas e obras arquitetônicas Desenvolveu sua obra artística ao longo de mais de setenta anos entre Florença e Roma, onde viveram seus grandes patronos, a família Médici de Florença e os diversos papas romanos.




quarta-feira, 29 de março de 2023

Nunca....

 Nunca se deixem vencer.....





Um gajo está na cama com a amante quando ouve os passos do marido.

A mulher manda-o pegar as roupas e sair pela janela. Ele resmunga porque está a chover muito, mas não tendo outra solução, salta e cai no meio da rua, onde está a passar uma maratona.

Ele aproveita e corre junto com os outros, que o olham de um jeito esquisito.

Afinal, ele está nu!

Um corredor pergunta:

- Você sempre corre assim nu?

- Sim! - responde o amante - É tão bom ter uma sensação de liberdade...

Outro corredor pergunta :

-Mas você sempre corre assim nu com as roupas nas mãos?

O gajo não se dá por vencido:

- Eu gosto assim. Posso vestir-me no fim da corrida e ir para o carro para ir para casa...

Um terceiro corredor insiste:

- Mas você sempre corre assim nu com as roupas nas mãos e com um preservativo na pila? O gajo responde:

- Só quando está a chover!




A HIPOTENUSA

A HIPOTENUSA





Um Quociente apaixonou-se
Doidamente
Por uma Incógnita.



Olhou-a com seu olhar inumerável 

E viu-a, do Ápice à Base...

Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde 
A alma irmãs
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais. 

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar. 
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram 
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos. 
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso. 
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.




....................

 Gosto de ouvir o bater do teu coração.

Tem sempre o mesmo ritmo.
O bater do meu coração é mais inconstante.








terça-feira, 28 de março de 2023

Spersivo...Br

 

MEDITAÇÃO

 


Nas longas noites em que com Deus converso

e Ele me explica quem e como são os seus

não identifico nos que tanto o citam

nenhum traço sequer do que me diz

e isto é o tipo da coisa que me faz infeliz

na medida em que sinto que sozinho

sou o único ser no universo

que encontra Deus tomando vinho

e comendo pão com mais outros ateus,

enquanto os santos nem sequer me fitam 

tanto que o intelecto me complicam

ao ponto que, às vezes, penso que sou louco

ou que eles não são santos nenhum pouco!



Fernando Pessoa

 Fernando Pessoa



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.




Gustav Courbet

 




Quadro de Gustav Courbet
“Joe, A Bela Irlandesa”

Museu Nacional - Estocolmo






Quadro de Gustav Courbet
“Auto-Retrato Com Cão”
Museu Petit-Palais - Paris




Quadro de Gustav Courbet
“Mulheres Peneirando Trigo”
Museu de Belas Artes - Nantes




Quadro de Gustav Courbet
“Dormindo”
Museu Petit-Palais - Paris



Gustav Courbet (1819-1877) foi um pintor anarquista francês pertencente à escola realista. Pintou principalmente paisagens campestres e marítimas preocupando-se em colocar nas suas pinturas a realidade fruto de uma observação directa.




Maria Teresa Horta

 

Fui imaginada para amar 
amar-te meu amor 
mais do que eu queria 

na arte e no mistério 
de me dar, na entrega 
secular de que fugia

O enigma estará 
no meu ficar 
a entregar-me a ti na rebeldia 

iludindo as asas no voar
indo além de mim
todos os dias


Maria Teresa Horta



segunda-feira, 27 de março de 2023

.......................

 



Amar também é saber esperar, mesmo quando se sente cada tic tac do relógio a picotar no coração.







.....................

 



Capítulozinho sobre o Amor

Não há nada melhor ou não conheço
Que um corpo se fundir em outro corpo, de forma doce,
Profunda e, se possível, bem devagar...
Com um improvável e cruel carinho
Que se converta aos poucos em pranto e prazer
Que lembra, no seu êxtase, o morrer...
Toda alegria nasce com o sofrer:
Sabe meu coração, que transparente,
Viveu do amor suas loucuras mais sensatas;
As dores doces, os gozos tão dourados,
O cinza dos adeuses, o fluir da prata
E nas suas chamas, como um Titanic humano,
Viu o naufrágio de todos os seus planos,
Ainda que sabendo que, na vida,
Amar é o melhor dos desenganos.



domingo, 26 de março de 2023

Willie Nelson - You Were Always On My Mind




Matilde Campilho

 

MARÇO

Levantei-me para o contrário disto - a Shakespeare 
Foi como aquela vez em que morava na América 
E regressei a casa para o contrário disto - a quebra 
Prometeram-nos dias de sol após o terror dos 30 dias 
Disseram que fevereiro seria o contrário disto - o breu
Vesti-me a rigor para o desenho na casca dos jacarandás 
Porque estava anunciado nos cartazes o contrário disto 
Achei que nalgum momento a luz viria tomar conta de tudo 
Que de uma forma ou outra lavaríamos os cabelos no mar 
Mas hoje o que se vê da janela é o lado oposto do clarão
É mais um volta na avenida com ombros cobertos de pavor 
E eu só sei que acordamos sempre para o contrário disso 
Somos os filhos do verão - somos o inverso da escuridão


Matilde Campilho


Não precisas de mo dizer

Não precisas de mo dizer.

Sorri, apenas. as faces

Sabem tudo o que fazer.

Não precisas de me chamar.

Sorri, apenas. e ainda

Às faces voltarás para amar.







sábado, 25 de março de 2023

A MENINA E A CHUVA

 

[Poesia] A MENINA E A CHUVA – Pedro Luso de Carvalho

 

Praça da Alfandega - Porto Alegre / Brasil




A MENINA E A CHUVA

               – Pedro Luso de Carvalho




A chuva caia incessantemente

na tarde já na beira da noite.

A menina olhava da janela

a rua molhada lá embaixo,

aonde andava trôpega gente.


E continuava a chuva fina,

que se estenderia na tarde.

E a menina ainda lá na janela

diante de uma gota d’água,

gota que na vidraça brilhava.


O deslumbramento da menina

com a brilhante gota da chuva

a descer pelo fio de luz,

chegou na vidraça e explodiu.

Então, do deslumbre fez-se a névoa.




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A MINHA POESIA

A MINHA POESIA - Pedro Luso de Carvalho


Pablo Picasso - O Velho Guitarrista Cego


  

  A MINHA POESIA

      – Pedro Luso de Carvalho




Poesia, minha força na noite,

modo sereno de o medo afastar,

há perigo à espreita na noite,

perigo de punhais na noite,

tantos ataques mortais.



Poesia, biombo onde me escondo,

pés alados para voo entre nuvens,

a minha renúncia à luta inglória –

aos vilões minha ira, meu repúdio.



Poesia até o meu último canto,

até o último degrau da escada.

Ainda é meu farol a poesia,

iluminando as ruas aonde ando.





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Porto Alegre, RS, Brazil
Advogado, escritor e poeta. Casado, dois filhos.