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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Hamilton Ramos Afonso

Quero-te em mim


"Qual das nossas peles...

se vergará à sede
e a carne à vontade?
 
Pele e carne
que em chamas
sucumbem ao amor
efeitos colaterais
do vulcão em que
se transformam dois seres
que se amam…
Suprema contradição
as peles arrepiam-se de frio
no calor intenso do verão,
fervem de calor no
frio gelado do inverno…
A carne ,
fraca,
sucumbe à tentação
do amor e entrega-se ,
pele com pele em volúpia
ao prazer prometido
pelas carícias mutuas ,
que a convidam à entrega,
ao abandono e ao deleite
do prazer do amor…
Quem sucumbirá primeiro?
eu ?
ou tu?
Talvez os dois
em simultâneo
em êxtase final
no derrame
da minha seiva
no teu cálice sagrado…
E as nossas peles
arrepiar-se-ao no calor
e queimarão em pleno frio…
 

Hamilton Ramos Afonso
 
 
Versos de São Reis, que inspiraram o meu poema 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Casimiro de Abreu

 
 
 
 
Quando Tu Choras
 
 
 
 
Quando tu choras, meu amor, teu rosto
Brilha formoso com mais doce encanto,
E as leves sombras de infantil desgosto
Tornam mais belo o cristalino pranto.
Oh! nessa idade da paixão lasciva
Como o prazer, é o chorar preciso:
Mas breve passa - qual a chuva estiva -
E quase ao pranto se mistura o riso.
É doce o pranto de gentil donzela,
É sempre belo quando a virgem chora:
- Semelha a rosa pudibunda e bela
Toda banhada do orvalhar da aurora.
Da noite o pranto, que tão pouco dura,
Brilha nas folhas como um rir celeste,
E a mesma gota transparente e pura
Treme na relva que a campina veste.
Depois o sol, como sultão brilhante,
De luz inunda o seu gentil serralho,
E às flores todas - tão feliz amante -
Cioso sorve o matutino orvalho.
Assim, se choras, inda és mais formosa,
Brilha teu rosto com mais doce encanto:
- Serei o sol e tu serás a rosa...
Chora, meu anjo, - beberei teu pranto!
 
 
 
Casimiro de Abreu  
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 28 de agosto de 2016

Nala Marques

 
 
 
 
Se eu voltasse a amar alguém.
Seria um homem como tu,
Gentil amoroso como eu te vejo,
Um homem ...

Com quem qualquer mulher
Vive a sonhar
E com ele deseja trocar
O seu primeiro beijo.
Pudesse eu voltar a amar
Esse homem serias tu,
Já estou a imaginar viver junto de ti!
Que bom seria ver o teu sorriso meigo
Sentir o teu olhar ardendo de desejo
E os teus braços apertados
Em volta do meu corpo em frenesim!
Sentir a tua boca, sobre a minha boca,
Matando a fome dos meus beijos,
Saciar dos nossos corpos os desejos
Depois adormeceres junto de mim.
E quando chegasse o novo dia
Acordar dentro dos teus braços,
Se eu voltasse a amar,eu juro,
Que o nosso amor jamais teria fim.


Nala Marques.(poetisa e escritora)  






 

sábado, 27 de agosto de 2016

© NUNO JÚDICE

UM AMOR



Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, ...

puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhamos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.



 © NUNO JÚDICE 

In A Partilha dos Mitos, 1982

Arte: Glenn Harrington 

 

Meus olhos verdes de João Maria Nabais

Meus olhos verdes





Eu sonho acordado
muitas vezes sem dar por isso
olhando o infinito
através dos meus olhos verdes
nem sempre verdes é certo
às vezes azuis
outras cinzentos
variando durante o dia
conforme a intensidade da luz
do sol ou das estrelas
passando a verde se escuto
- o silêncio do mar longo e profundo
e o canto das cigarras
em noite cheia de lua

cinzento é um tempo de ninguém
vindo de fora sem prever

azul o rosto da manhã
de um instante de saudade escrito na memória

verde a força que deposito
no amor e me alimenta o coração

os meus olhos são verdes
azuis ou cinzentos ?
a mim pouco importa
aos outros também

verde é simplesmente
a cor do momento
- um símbolo de esperança
sortilégio de olhar
e ver o mundo
em mais um dia que vivo
e sinto

João-Maria Nabais

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

João Luís Barreto Guimarães

A meias
Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um...

(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.



João Luís Barreto Guimarães    



 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Mário Quintana

Bilhete...
Se me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa-em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem
devagarinho,
que a vida é breve,
e o amor mais breve ainda…
 
 
 
(Mário Quintana)
Amor- Tela de Gustav Klimt