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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Miguel Torga


Deixem
passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada

...

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.


Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora


Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.



Miguel Torga   



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

são reis

Apetece-me guardar-te assim
inteira
na minha mão...

Os teus olhos sorrindo
e apetecendo
e eu segurando o teu rosto
resvalando-me na pele
como se aos dedos acudisse
uma subita ternura
que eu não controlasse
como se à tua boca aflorasse
um subito desejo
de beijar a minha mão
presa já ao teu rosto
e eu de mergulhar nos teus olhos
já presos em mim



são reis   



 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Fernando Campos de Castro

 
O TEU CHEIRO
 
 
 
...
Ainda e sempre , amor
é o teu cheiro
O cheiro do teu corpo que me falta
o teu sabor a sol , a céu e a sal
que me limita a língua e sobressalta
Ainda e sempre a tua boca
a rua mais comprida onde o desejo é risco , raiva
e febre louca
onde arrefeço o fogo do meu beijo
É no teu corpo , na tua pele
na duna do teu peito entumecida
que eu percorro e cavalgo a solidão
num cavalo de vento rumo à vida
Das tuas mãos abertas
Das coxas e das costas
Do frémito do sexo
e do perfil de estátua do teu rosto
Ainda e sempre , amor , é do teu cheiro
Do cheiro do teu corpo que eu mais gosto
 
 
 
Fernando Campos de Castro
Do livro : Violação da noite/ pag. 20 / ano 2000  
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

POEMA DO QUE TINHA DE SER




 
 
 

O fato é que de ti só quero
o que tens de diferente, de parecido e de melhor,
Mas, o pior, contigo, é muito bom também.
Nem quero saber das coisas que não quiser me dizer
Embora esteja doido para te dizer
Muito mais do que queres saber:
Palavras amorosas, dengos e mesmo desejos pervertidos,
Que trago comigo.

Ah! Me pego pensando no teu rosto
Como será quando estiveres alvoroçada
Por pegar teus seios,
Que receios terás
Se te lamber mais do que devo
Numa fantasia única
De que és o sorvete
Que sonhei quando criança.

A realidade é que, perto de ti,
Todo olhar meu é pornográfico
Como um gráfico
De uma realidade inevitável,
De um destino
Que não se pode fugir.

De: "Águas Passadas", Editora Per Se, 2013.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

David Mourão-Ferreira

 
ilusões 
 
 
 
    
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


 
David Mourão-Ferreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Glória Salles

 
 
 
 
O tempo segue, caminhando lento.
Ignorando minha maior verdade
Nessa cruel espera moram as horas
Alheias a dor da imensa saudade
E num turbilhão, as lembranças....

Intensas refletem nos meus versos
Ferem, reavivando os sentidos.
Trazem velhos sonhos já dispersos
Não demora, porque hoje preciso.
Ver a saudade viva no teu olhar
Aninhada, protegida em teu peito.
Quero ouvir outra vez, teu respirar.
Divisando teu olhar, já concluo.
Se tiver o brilho do teu sorriso
Chovendo assim em minha seara
Tenho tudo, e de mais nada preciso.
Quebre as amarras, viole os sentidos.
Reviva o sonho, sem pressa de ir embora.
Quando trancar aquela porta, por favor.
Sem nenhum medo, lance a chave fora.

 

Glória Salles


 Arte: TANYA SHATSEVA   





 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Clara Maria Barata

E depois partiste
Como se o teu destino fosse apenas ter pressa…partiste. Não soubeste ler o grito sofrido dos meus olhos, a mensagem perdeu-se na pequena distância que nos separava. As tuas mãos inquietas acenavam despedidas, falavam promessas de amanhãs, tropeçavas nas palavras, conjugavas o verbo amar num futuro impossível, inventavas sorrisos e gestos de ternura esfarrapada.
Agonizava o que ainda restava de mim no teu olhar.
Dizias que o tempo não lograria apagar o que n...
a carne se cravou pelo punhal da paixão, que os sonhos amanhecem sem fronteiras e as estrelas vigiam as noites mais sombrias.
Mentias. As estrelas adormeceram no cansaço dos dias, silenciou-se a voz do vento, o sol é uma memória diluída no tempo, as roseiras do jardim esqueceram as flores, entristeceram em canteiros esvaídos de esperança, só os espinhos reclamam espaço na terra seca e solitária, antes abençoada pela chuva dourada e pelo trinar das aves nas colinas do desejo.
Ceguei e ensurdeci. Poderei também ter perdido a voz quando, no inclemente deserto de mim, deixei de pronunciar a água do teu nome.



Clara Maria Barata