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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Casimiro de Brito













Vou de partida
mas levo comigo
a solidão da pedra...
o branco das amendoeiras
e a boca insaciável
das ondas do mar
da minha infância —
e comigo levo
uma página branca
cheia de memórias
o arco-íris das cerejeiras
e mais a saudade
das mulheres que amei
e sorriso luminoso
dos meus filhos    



Casimiro de Brito   

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

JOSÉ AFONSO ( ZECA AFONSO )








Saudades de um homem generoso e valente


É a grandeza de José Afonso que marca a sua memória. Era um homem generoso, solidário, valente. Um homem corajoso, um sonhador combativo, um homem da utopia que não se perdia na ilusão, porque acreditava que o que estava para vir devia ser acelerado, precipitado, para ficar à nossa vista em tempo útil.
O lugar de José Afonso nunca mais foi ou será preenchido por ninguém.

Zeca Afonso - Os Vampiros "Eles Comem Tudo" (Original)





A opinião duma brasileira sobre Portugal








ROUBADO A  UM BLOG  (  e porque sou português......aqui vai.  )



A opinião duma brasileira sobre Portugal


Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: ingratidão e pessimismo.Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui — embora pareça-me que muitos nem percebam.
Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.
Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero.
Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles. Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho é do douro.Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil. O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens trasmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.
O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e o afeto que têm os portugueses.De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político. Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal .Os portugueses- de direita ou de esquerda — não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam. Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.
Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.Todo idioma deveria carregar afeto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal carrega. Gosto de ser chamada de miúda. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de putos. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir ”magoei-te?” quando alguém pisa no meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce.
O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses -embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter.Portugal usa suas    melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.
O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe.Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece.Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.



Ruth Manus ( é advogada e professora universitária e assina um blogue no Estado de São Paulo, Retratos)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Dulce Pontes









DULCE PONTES /     GAIVOTA




Miguel Esteves Cardoso





                              Aprender de cor quem amamos.


Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. 
Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta. São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou mais um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma última oportunidade de a resguardar e de a reter. Funciona. 




Miguel Esteves Cardoso  









Nuno Júdice










                                                                         Calvário

O Cristo que dorme, na gaveta do altar,

de espinhos vermelhos na cabeça e

feridas roxas nas mãos, tem os olhos

fechados. Desceu-lhe as pálpebras

a mão de Madalena, a loura prostituta

que ele roubou aos homens; limpou-lhe

o sangue o lenço de Verónica, a bela

compadecida que guardou o linho onde

o seu rosto permanece; cruzou-lhe as

mãos a Mãe, ouvindo na ira dos ventos

a voz divina. Que durma em paz, esse

Cristo roubado à cruz, na gaveta do

Altar aonde não chegam já as vozes do

homem. Adormecido, que nem um grito

de dor o desperte; nem um gemido

suplicante o distraia do seu sono; nem

a fúria das gerações lhe reabra as

feridas. Um a um, têm caído os espinhos;

pouco a pouco, o sangue confunde-se

com a cor da pele; e no seu rosto uma

antiga palidez recupera a vida. Até

que alguém reabra a gaveta, na véspera

de Páscoa, e o traga de volta a este

mundo: cravando mais fundo ainda

nas mãos e no pés, os pregos, no peito,

o bico da lança, e na cabeça, os espinhos.


Nuno Júdice



"Posso arrepender-me de ter mentido, de ter sido a causa de ruínas e sofrimentos mas nem à hora da morte me arrependeria de ter amado..." Graham Greene











terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Al Berto









e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência
o amor
o abandono das palavras
o silêncio

e a difícil arte da melancolia



Al Berto    

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.