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domingo, 22 de outubro de 2017

Alice Vieira





Guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.
Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes...
Depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.
E eu adormecida para sempre no teu peito.
E eu acorrentada para sempre no teu peito.
E de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor.
Muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão...
E eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito.

© Alice Vieira  

Foto de Fatima Pereira.


sábado, 21 de outubro de 2017

António Ramalho






PARA TE AMAR...

Para te amar, desenhei o meu coração,
Preenchi-o com o teu olhar,
Colei a tua foto e perdi-me em ti,
Para te amar...
Sequei as minhas lágrimas no teu amor...
E vivi a minha vida em teu corpo...
Para te amar...
Coloquei uma flor em teu jardim...


António Ramalho   

Foto de Fatima Pereira.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Joaquim Pessoa







Canção de Amor



Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

Joaquim Pessoa, in 'Canções de Ex-Cravo e Malviver'

Foto de Antonio Baptista.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Nuno Júdice








(Da) Intemporalidade


Era esse o tempo em que nenhum rosto se parecia
com o teu, a mais bela mulher do mundo, quando
era o amor que definia o cânone da beleza, e
só tu entravas nesse patamar em que a respiração
fica suspensa, os olhos não se desprendem de
outros olhos, e mesmo que tenhas partido são eles
ainda que guardo em mim, como se o olhar que nos
prendia um ao outro tivesse apagado o mundo
do meu horizonte, em que só tu cabias, mesmo que
não to tivesse dito, e só não sabia era se tu sentias
por mim o mesmo que eu sentia por ti, que de tal forma
me oprimia que nem queria saber o que tu, na verdade,
sentias, porque a verdade eram os teus olhos,
e os lábios que, ao abrirem-se, abriam o sorriso
que me abria a vida onde só tu cabias, até ao
dia em que desapareceste, para que eu não mais
te visse, até esse dia em que passaste por mim, e
só os olhos eram os mesmos, fazendo com que
anos, cidades, dias e noites, insónias e dores,
se tivessem apagado entre mim e ti, nesse breve
instante em que revi os teus olhos, e não mais te vi.
Nuno Júdice

Foto de Antonio Baptista.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

David Mourão-Ferreira








Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja. 
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

Foto de Fatima Pereira.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Hamilton Ramos Afonso








A tua boca…


A tua boca,
minha tentação
quando
olhando teu rosto
se escancara
num sorriso,
naquele gaiato sorriso
com que me trazes
enfeitiçado…
Duas tentadoras gomas
franqueiam-me o caminho,
para o seu interior,
transformando-a
no salão de baile
onde nossas linguas,
traquinas e irreverentes,
dançam
a valsa do amor…


Hamilton Ramos Afonso
In, Amor como o primeiro, Chiado Editora, 2015.

Foto de Antonio Baptista.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Luadiurna







Silêncios vivos
Guardo-te nas memórias
de um tempo luz....
um tempo de palavras inseguras
de silêncios vivos
a resguardar as manhãs de azul .
No amor, profanado por esfinges,
ocultam-se imagens rebatidas...
são de pedra , os olhos e as mãos...
invadem-me as palavras,
os sonhos
gemem e ardem.
Silêncios abrem-se
na noite dos poemas,
ao desabrigo das palavras .



Lua Diurna
9 de Julho de 2016 ·
isabel de carvalho sousa    

Foto de Antonio Baptista.