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terça-feira, 27 de junho de 2017

Joaquim Pessoa








Abraça-me
...

Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que delem fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes. 
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais. 
Uma vez que nem sei se tu existes.


Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'  

Foto de Antonio Maria.

Nala Marques






DEPOIS DE TI

Dentro de mim guardo de ti
Réstias de sol,brilho de estrelas,
Pedaços de lua,
Um imenso mar, finas areias
E duas sombras, a minha e a tua.
Fora de mim
Guardo teus abraços, teus beijos,
E flutuando as tuas mãos, o teu olhar
Carregado de desejos.
Depois de ti,
Depois de mim,
Nada ficou para guardar meu amor,
A não ser,
A solidão no coração
E esta dor...


Nala Marques.  
Foto de Antonio Maria.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

valter hugo mãe






 Calor interior....



Às vezes perco-me nos caminhos que
conheço. Adormeço nos ruídos do
mundo sonhando banalidades...
enquanto sou feliz. Sempre que
falho e fecho os olhos, imagino
outra pessoa perto de mim aquecendo as
mãos no calor do meu corpo como nas labaredas
de uma pequena fogueira




valter hugo mãe   

Foto de Antonio Maria.

Pablo Neruda





Fostes minha, fui teu

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos...
Já não se adoçará junto a ti a minha dor.


Mas para onde vá, levarei o teu olhar 
E para onde caminhes levarás a minha dor.


Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos 
Uma curva na rota por onde o amor passou.


Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame 
Daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.


Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste 
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.


Do teu coração me diz adeus uma criança
E eu lhe digo adeus.



Pablo Neruda   

Foto de Antonio Maria.

são reis





Lembras-te daquele sentimento
que se esconde no fundo de nós
que transparece nos gestos
que se humedece nos olhos
que se estreita nos dedos
que pulsa nas veias
que arde na pele
que geme que nem um condenado
e que zumbe no nosso ouvido
como se fosse um passado
tornado presente?
Nada mudou aqui!
Aqui continua morando a saudade
que cresce a cada dia que passa


são reis   

Foto de Antonio Maria.

domingo, 25 de junho de 2017

Letra JORGE ROSA





"Morri Ontem"


Morri ontem
Toda a vida que eu vivesse / Jurei que te dedicava
E toda a a vida deixava / No dia em que te perdesse
Deixei de ver-te, ceguei / Quis falar-te e fiquei mudo
Os meus sentidos e tudo / Que era meu, abandonei
Morri ontem, podem crer
Á hora em que o sol, morria
Á hora triste, em que o dia
É dia, e deixa de o ser;
Comigo nunca mais contem
Pois de mim mais nada existe
Morri quando tu partiste
Partiste ontem, morri ontem
A vida que Deus me deu / Só foi minha até á altura
Em que por sagrada jura / Todo o meu viver foi teu
Sem saberes o que fazias / Presa a outro amor fugiste
Sem pensares quando partiste / Que a minha vida partia

Letra JORGE ROSA  


sábado, 24 de junho de 2017

Davia Mourão Ferreira





TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade! 
Há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a despimos assim que estamos sós!



DAVID MOURÃO-FERREIRA, PROFESSOR, ESCRITOR E POETA PORTUGUÊS


FOTO DO AUTOR DO POEMA

Foto de Antonio Maria.