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sábado, 18 de novembro de 2017

Antonio Ramos Rosa






























Da grande página aberta do teu corpo

sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão

de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta

sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor


António Ramos Rosa

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Pablo Neruda





É Proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.


Pablo Neruda  
Foto de Fatima Pereira.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Nuno Júdice









abandono...

Na cama, onde o teu corpo, de costas, se abandona
aos meus olhos, e os cabelos se espalham pela almofada
és a mais bela das mulheres nuas. Os pés, sobre
os lençóis que o amor amarrotou, cruzam-se,
num breve descanso; e o rosto, de olhos
fechados, esconde o desejo que a tua brancura
me oferece, contra a parede que inscreve
o único limite do nosso amor. O braço direito
caído para o chão, agarra um vazio que encho
de palavras; e o braço esquerdo, sob os seios,
indica-me o caminho em que cada repetição
é uma descoberta. Se te voltares, abrindo os braços,
e mostrando o peito, saberei o rumo seguir,
nesta viagem em que és a proa e o vento; mas
se ficares assim, secreto retrato no atelier
do coração, apenas te peço que entreabras
os lábios, para que um murmúrio nasça
de dentro da tela. Então, cobrir-te-ei as pernas
com o lençol, espalhar-te-ei pela almofada
os cabelos, escondendo a nuca e o ombro; e
deixarei que este poema se derrame sobre ti,
ateando este fogo com que a tua nudez
me incendeia.


Nuno Júdice

Joaquim Pessoa





Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua segurança, o teu destino. Sou a maçã que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recordação, a tua vontade. E também o artesão que para ti trabalha, o medo que te perturba e o cã
o que te guia quando entras pela noite. Sou o sítio onde descansas, a árvore que te dá sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu espírito, o teu brilho, a tua dúvida. Sou a tua mãe, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua lápide. Os teus vinte anos. O coração sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o relógio que mede o tempo que te resta. Sou a tua memória, a memória da tua memória, o teu orgulho, a fecundação das tuas entranhas, a absolvição dos teus pecados. O teu amuleto e a tua humildade. Sou a tua cobardia, a tua coragem, a força com que amas. Sou os teus óculos e a tua leitura. A tua música preferida, a tua cor preferida, o teu poema preferido. Sou o que significas para mim, a ternura que desagua nos teus dedos, o tamanho das tuas pupilas antes e depois de fazer amor. Sou o que sou em ti e o que não podes ser em mim. Sou uma só coisa. E duas coisas diferentes. 

Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum'


Foto de Fatima Pereira.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Nuno Júdice









  • esquisso...
    O rosto que tenho nos olhos,
    ao sorrir-me em contraluz;
    os lábios de onde o bâton 
    desaparece quando a vida os retoca;
    o nariz que desenho com o gesto
    em que os meus dedos o lembram;
    os cabelos que se desatam como
    a mais doce das florestas;
    o pescoço adivinhado
    sob as folhas e flores da memória;
    seios que emergem da espuma
    e são as aves que em mim pousam;
    um torso curvo nas voltas
    e revoltas de um simples abraço;
    o ventre em que se juntam
    fogo e chama na mais lenta combustão;
    e os joelhos que se abrem
    no instante da explosão;
    tudo, belo e excessivo,
    que o teu corpo me dá,
    sem mais nada,
    além de amor
    só.
    Nuno Júdice

    Foto de Antonio Baptista.

    Fernando Assis Pacheco







    (do) amor...

    Não sei
    se o que chamam amor é este apaziguamento.
    Não sei se comias fogo. Tuas abelhas 
    voam agora em círculos tranquilos.
    Mães serenam seus filhos no ventre,
    não sei se o que enfim chamam
    amor é esta areia fina.
    Agora estamos um dentro do outro,
    fazemos longas visitas deslumbradas
    porque "o nosso prazer lembra um rio vagaroso
    no meio de juncos ao cair da tarde."
    As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
    falaríamos melhor de tudo isto.
    Não sei se o que chamam amor
    é a cama desfeita o sol fugindo,
    uma vontade louca de beber
    a grandes goles a noite entorpecente.
    Com o silêncio, o silêncio sem nome:
    morrermos a meio do filme
    simples, calada, dedicadamente.
    Eras tu, amor? - Era eu, era eu!
    Um barco junto à margem. E cegonhas.

    Fernando Assis Pacheco



    terça-feira, 14 de novembro de 2017

    HAMILTON RAMOS AFONSO








    OLHOS NOS OLHOS...




    No dia 
    em que te entreguei
    o meu coração
    livre de baias
    naquele abraço
    por ambos
    há muito desejado,
    tive a prova
    do que ele já sentia
    ao olhar-te
    nos teus olhos
    incandescentes
    de ternura...
    A doçura
    com que retribuíste
    o meu olhar
    deu-me a certeza
    que também tu
    me entregaste o teu
    para que ambos
    cumpram
    o bater síncrono
    do nosso amor.
    Aquele dia
    poderia ter sido
    antecipado
    se pudéssemos
    voltar atrás no tempo...

    HAMILTON RAMOS AFONSO   

    Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.