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quarta-feira, 29 de março de 2017

Joaquim Pessoa







São as Pessoas como Tu

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras. 
As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o co...rpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.




Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

Foto de Fatima Pereira.

ALEXANDRE O'NEILL //// O amor é o amor









O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?



ALEXANDRE O'NEILL

in ABANDONO VIGIADO (1960), in POESIAS COMPLETAS 1951/1986 (INCM, 3ª ed. , 1995)


Foto de Antonio Maria.

terça-feira, 28 de março de 2017

Deixe a menina / Chico Buarque e Mart`nália





Mart’nália é uma combinação explosiva de duas pessoas. Martinho da Vila e Anália Mendonça. Nunca ouvi a sua mãe cantar, mas pelos vistos a alquimia responsável pelo nascimento deste ser especial, misturou de forma perfeita o que havia de melhor para misturar. Excepção feita ao nome... mas isso sou eu, que não tenho o gosto brasileiro para criar nomes originais.
Mart’nália canta, compõe, toca “violão” e é exímia percussionista, sendo que esta última “habilidade” já a fez correr mundo, integrando as bandas de grandes músicos, antes de se ter aventurado como cantora.
Hoje e aqui, podemos vê-la como convidada do Chico Buarque, num espectáculo ao vivo, fazendo um dueto numa mistura de duas velhas canções dele, “Sem compromisso” e “Deixe a menina”.
O contributo dela, que deixa o Chico tão feliz quanto desconcertado... é algo como se alguém encontrando uma fogueira, resolvesse juntar-lhe gasolina, tal é o balanço, o gozo, a irreverência, a provocação irresistível e a recriação irremediável das canções que, como uma avalanche, arrastam a habitual pacatez dele para parte incerta.
Mart’nália é uma força da Natureza que merece ser muito mais conhecida.

“Sem compromisso” e “Deixe a menina” – Chico Buarque e Mart’nália
(Francisco Buarque de Holanda)   





A Mart'nália e tão alegre só de ela chegar parece que a alegria vem junto ... amei a música.






Antonio Ramos Rosa









(Não posso adiar o amor para outro século)


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
...
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indensa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa.   

(  Foto do autor )

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Salvador Novo







"AMOR"
...
Salvador Novo

Amar es este timido silencio
cerca de ti, sin que lo sepas
y recordar tu voz cuando te marchas
y sentir el calor de tu saludo.
Amar es aguardarte
como si fueras parte del ocaso,
ni antes, ni despues, para que estemos solos
entre los juegos y los cuentos
sobre la tierra seca.
Amar es percibir, cuando te ausentas,
tu perfume en el aire que respiro,
y contemplar la estrella en que te alejas
cuando cierro la puerta de la noche



Salvador Novo    





segunda-feira, 27 de março de 2017

Hamilton Ramos Afonso








Convite
Vem respirar-me -te num beijo
que nos tire o fôlego
pondo-nos a respirar
pela pele um do outro
com a mistura de cheiros
a ser o combustível
que as transforme em fluidos
e aromas do nosso amor...
Vem respirar-me-te
sem pudor



Hamilton Ramos Afonso   


Foto de Antonio Maria.

domingo, 26 de março de 2017

Almada Negreiros









Aconteceu - me.....


Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita...
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.



Almada Negreiros  



Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.