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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cesário Verde








A DÉBIL
Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa de um café devasso,
Ao avistar-te, há pouco fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorrestes um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ía passando, a quatro, o patriarca
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

sorriam, nos seus trens, os titulares,
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, parastes embaraçada
Ao pé de um numeroso ajuntamento,

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.



«366 poemas que falam de amor»,
Antol. org. por Vasco Graça Moura, 
Lisboa: Quetzal, 2003

Cesário Verde
Arte: Leon Herbo



                 
Foto de Antonio Maria.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

MANUEL ALEGRE









MAIS DO QUE O TEU CORPO
Mais do que o teu corpo quero o teu pudor
quero o destino e a alma e quero a estrela
e quero o teu prazer e a tua dor
o crepúsculo e a aurora e a caravela
para o amor que fica além do amor.
A alegria e o desastre e o não sei quê
de que fala Camões e é como água
que dos dedos se escapa e só se vê
quando prazer se torna quase mágoa.
Estar em ti como quem de si se parte
e assim se entrega e dando não se dá
quero perder-me em ti e quero achar-te
como num corpo o corpo que não há.
MANUEL ALEGRE
in LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE (Pub. D. Quixote, 2001)

Foto de Antonio Maria.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Francisco Valverde Arsénio







Adormeci sobre este poema
inacabado,
esqueci as palavras
antes de o sonho me embalar,
apertei os dedos
em dormência
onde os versos se aconchegaram.

Bate-me no peito
aquele instante nosso
e as letras formam
pequenas partículas dispersas.
Não quero mais marés,
quero-te oceano de águas puras,
quero-te no bulício dos amantes.

Adormeci sobre os olhares que trocámos
e o momento em que me sorriste.

Calada,
a minha voz sai dos sonhos
e confunde as nuvens,
é um grito de boca cerrada.

Adormeci contigo nos meus braços.
Francisco Valverde Arsénio


Foto de Antonio Maria.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017









A NEGUINHA ME DEIXOU

Neguinha, porque me deixas,    
Se eu nunca te deixei?
Guardo em mim, as minhas queixas
Implorar é o que não farei.

Neguinha, deixas um deserto,
Onde plantastes flor, alegria,
Nem sei se o caminho acerto
Sem tua doce companhia.

Tanto ouvi, era tão meiga, tua boca,
No quarto a me dizer meu amor
Com desejo, uma paixão louca, 
E, agora, só me acenas pelo retrovisor.

Porque me deixas, neguinha,
Depois de ter me acostumado?
Não sente uma saudadezinha
De tanto amor derramado?

Neguinha porque me deixas
Depois de tanto cuidado?
Sei que tens razão nas queixas,
Mas, tá doendo um bocado.


Ilustração: Mapa Pokemon GO. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

rui amaral mendes in a noite e o sangue [2016]








acordares...
fazem-me falta esses primeiros momentos 

em que sinto o teu olhar 
repousando sobre mim 
ou tão só o meu perdido num lugar teu

acordares quotidianos,

ontológicos.
o homem e a dimensão 
evanescente dos seus mitos.

digo-te: os despertares são 

instantes dilatados em que 
as expressões mais puras da alma 
ganham densidade

e o tempo a teu lado ganha outra dimensão, 

torna-se tangível os horizontes do tempo
mimetizando a linha longínqua de 
um vasto oceano que calmamente navegamos.

sim! assim é o horizonte da nossa partilha: 

(per)sentindo-lhe a essência, 
ignoramos-lhe os limites, 
redefinidos numa interminável reconfiguração óptica

uma realidade inconcreta 

assente numa lógica onde tempo e espaço se diluem, 
enquanto ousarmos reclamar nosso 
o desafio de lhe navegarmos as águas.



rui amaral mendes in a noite e o sangue [2016]  


Foto de Antonio Maria.

Rainer Maria Rilke







Canção de Amor 

Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção. 

Rainer Maria Rilke


Foto de Antonio Maria.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Hamilton Ramos Afonso






MADRUGADAS

Nas madrugadas de insónia ,
com a companhia da tua memória, 
compartilhas comigo a nicotina
que transforma o meu quarto
em ambiente de nevoeiro
e bebes do mesmo copo o alcool 
que anestesia a minha mágoa.
A cada insónia tornas-te tão tangível
que me iludo e estendo os braços
esperando tocar-te e ver a tua silhueta desfazer-se
em fumo,
fica-me apenas a desilusão 
de não ter passado duma quimera…
A cada magrugada em que o sono 
não se concilia com a vontade de descansar
és a minha companhia 
em sonhos onde se jura lealdade,
para depois ficar apenas a sensação 
de não passar de fogo que tu apagas
deixando apenas as cinzas da desilusão.
A cada insónia descubro 
amargurado
que me esqueci 
de te esquecer…


Hamilton Ramos Afonso  

Foto de Antonio Maria.