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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Hamilton Ramos Afonso


Teus lábios...



É no cálice bordado
por duas gomas,
de seda carnuda,
que bebo o suco dos frutos vermelhos
que dão vigor ao meu coração...
O carnudo morango,
a doce cereja,
a amora selvagem,
com que nos deleitamos,
perfumam o beijo molhado
que une o afecto
de duas almas em chamas

Hamilton Ramos Afonso

Foto de Antonio Maria.

Machado de Assis




Depois...

Diz a Madame de Stael que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessa, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como o teu são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão recta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias (...). Tu pertences ao pequeno número de ...mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. Como te não amaria eu? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É minha ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama: aqui está uma alma que te compreende e te ama também".
A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?
Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia da minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco. (...)

Depois... depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti.

Machado de Assis

Foto de Antonio Maria.

sábado, 27 de maio de 2017

Mia Couto






Uns fecham portadas,
e se encerram na paisagem.

Outros habitam quimeras,
extintos magmas interiores.

Eu vivo apenas fora de mim.

De longe
me chegam palavras
e nenhuma cabe
no oco da minha māo.
Apenas de outros me faço eu.

Espreito a rua
e, através de mim,
nāo vejo senāo gente
que nasce sem sonhos e vive sem vida.

Sou o homem sem janela:
o mundo está sempre do lado de cá.

A meu lado
nāo mora ninguém:
meus vizinhos
habitam todos dentro de mim.

Ao fim da tarde
porém, o céu se curva
para afagar o meu teto.

Em redondo dorso de cāo,
a meus pés se enrosca a solidāo.

É entāo que chegas,
e eu, enfim, regresso
para dentro de minhas paredes.

Só entāo tenho janela.



Mia Couto

Danubio Azul




Filarmonica de Viena, dirigida por Herbert Von Karajan...




Nada é por acaso......









"O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer."

Einstein

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Nuno Júdice





rosto...

Para definir a substância do teu corpo
teria de me afastar dos conceitos da filosofia mais pura,
do ser e das suas qualidades essenciais, e também...
da imagem evanescente que envolve aquilo
a que se dá o nome de alma. Teria de seguir a corrente
de um rio subterrâneo, que atravessa a planície do tempo
sem se deixar limitar pelas suas margens; e ouviria,
sob o silêncio mais profundo de uma noite
sem lua, a lenta respiração da terra perpassar
nos teus lábios.

Poderia, então, apanhá-la com as mãos, como
se faz a um fruto, e senti-la-ia escorrer por entre
os dedos como a água mais límpida. Dir-me-ias
que estou longe, ainda, do que se entende por
amor. Pouco importa: o que vejo no teu rosto,
quando a ausência o converte num arquétipo, e
nele projecto todas as figuras do desejo, é
o desenho dessa palavra que te veste com
as suas sílabas de sol, e percorre o poema
com a sua luz.



Nuno Júdice   

Foto de Antonio Maria.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

maria helena guimaraes




PERDI 


Perdi o caminho
para as coisas simples.
Aquele golpe de asa
que me fazia sonhar,
que entendia a flor,
o pôr-do-sol e o mar,
o rocio da manhã,
a calidez de Setembro,
um sorriso doce,
um olhar claro
e o calor da lareira
à noite, em Dezembro.


Perdi o caminho
para as coisas simples.
esse trilho estreito
que sobe na escarpa,
que trepamos sem medo,
alegres, sem jeito.
O rir cristalino
Que explode na alma
O abandono ao sentimento,
o viver do momento,
amar pelo amor
entregue inocente,
colhendo-o sem dor.


Perdi o caminho
Para as coisas simples!!



Maria Helena Guimarães  



FOTO ACTUAl DA POETISA

Foto de Antonio Maria.