Seguidores

quinta-feira, 21 de junho de 2018

João marinheiro, inéditos 2013






alfazema...

 
 
Alfazema o cheiro lembras...
depois os olhos a dizerem tanto
os sentidos
o coração desalvorado
o toque dos lábios na pele, tempestades eletrizantes a caírem sobre nós
tu
eu
os dois, um único ser entrelaçado
a tua respiração ofegante
o ar no meu peito a não ser o preciso, a sufocar

o coração desalvorado, o peito pequeno para tanto sentir.

Eu a sentir-te
tu a sentir-me
a pele
a tua língua tímida a descobrir-me
eu a deixar que me desnudes a alma
eu a querer-te

tu a querer-me

desejo

os dois desejo

amor

é isso

ainda não te disse hoje

amo-te.

João marinheiro, inéditos 2013
fotografia de  Koert Michiels

Poema de José Luís Peixoto








Olhos fechados

Fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite
distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.
a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.
todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.
fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os
olhos fechados.
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência
a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.
mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.
aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.


Poema de José Luís Peixoto    

Foto de Antonio Maria.

terça-feira, 19 de junho de 2018








Deixas-me assim ...
Mais uma vez ...
De semblante carregado ...
Sem saber o que virá ...
Dentro de mim uma Tempestade,
Uma Luta,
Mais uma vez ...
Não sou o que queres ...
Mas aqui estamos ...
Não me amas ...
Mas fazes-te sentir ...
Desejas-me às vezes,
Sentes falta às vezes ...
E aqui fico 
Tempestade incompleta,
Há espera de um sinal teu ...
Preciso que acalmes este Furacão em mim
Que me faças sentir Importante,
Não pela Força que tenho ...
Mas pela Fraqueza que não domino ...
Deixas-me assim,
Mais uma vez ...
Tu ...

CC    
Foto de Para Ti apenas.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Nuno Júdice








geometrias...
Entre o teu corpo e a paisagem vejo abrir-se 
a distância que me leva de mim a ti. E se 
entre mim e ti outra distância não houvesse, 
limito-me a contar os passos que dou para 
que a conta não acabe. Tu, porém, olhas-me 
neste fundo de tabuada, e deixas que o teu 
braço seja a régua onde a distância se mede 
pelo abraço que falta. Então, acerto a conta 
pelo triângulo que o outro braço forma, 
quando seguras a cabeça, e fecho nesse ângulo 
a soma dos corpos que totalizam o amor.

Nuno Júdice     
Foto de Antonio Maria.


HELENA GUIMARÃES






POEMA

A alma a esvoaçar
o espaço,
dedos a definir
imaginários
contornos,...
o pensamento
submerso,
o sol aquietando-me
o peito,
neste sentir sem jeito,
sem razão,
num universo de sonho
a fluir na quietude
da tarde.
Sorvo o deleite
que invento,
embriago-me
no sentimento
para esquecer
o medo,
a angústia
da dúvida
que na razão
desperta
a cada
momento.

Helena Guimaraes
Janeiro 2003
FOTO DA POETISA     

Foto de Antonio Maria.

sábado, 16 de junho de 2018

Paul Éluard






















Falo-te através das cidades
Falo-te através das planícies
A minha boca repousa na tua almofada
Os dois lados da parede opôem-se
À minha voz que te reconhece
Falo-te de eternidade

Ó cidades lembranças de cidades
Cidades envoltas nos nossos desejos
Cidades precoces e tardias
Cidades fortificadas cidades íntimas
Despojadas de todos os seus pedreiros
Dos seus pensadores dos seus fantasmas

Campo modelo de esmeralda
Viva vivaz sobrevivente
O trigo do céu sobre a nossa terra
Alimenta a minha voz eu sonho eu choro
Rio e sonho entre as chamas
No meio dos cachos de sol

Sobre o meu corpo o teu corpo estende
A toalha do seu espelho transparente.



Paul Éluard

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Autor desconhecido






Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seicentos anos de lava --
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Foto de Antonio Maria.