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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Nuno Júdice







Sonhei contigo embora nenhum sonho


Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefação de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
das fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.
Nuno Júdice  

Foto de Antonio Maria.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

isabel de carvalho sousa // Lua Diurna








Silêncios vivos//isabel de carvalho sousa
Guardo-te nas memórias
de um tempo luz....
um tempo de palavras inseguras
de silêncios vivos
a resguardar as manhãs de azul .
No amor, profanado por esfinges,
ocultam-se imagens rebatidas...
são de pedra , os olhos e as mãos...
invadem-me as palavras,
os sonhos
gemem e ardem.
Silêncios abrem-se
na noite dos poemas,
ao desabrigo das palavras .

isabel de carvalho sousa   
Lua Diurna   


Foto de Lua Diurna.

Hilda Hilst





Desde sempre em mim





Contente. Contente do instante 
Da ressurreição, das insônias heróicas 

Contente da assombrada canção 
Que no meu peito agora se entrelaça. 
Sabes? O fogo iluminou a casa. 
E sobre a claridade do capim 
Um expandir-se de asa, um trinado 

Uma garganta aguda, vitoriosa. 

Desde sempre em mim. Desde 
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo 
Nas ermas biografias, neste adro solar 
No meu mudo momento 

Desde sempre, amor, redescoberto em mim.


Hilda Hilst 

(1930-2004)






Poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.

José Régio - Cântico Negro







“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”

José Régio - Cântico Negro

FOTO DO  AUTOR DESTE BLOG

Foto de Antonio Maria.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Miguel Torga







Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga  

Foto de Antonio Maria.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Pablo Neruda





































Um homem diz sim sem saber 
como decidir até mesmo o que é a pergunta, 
e é apanhado, e então é carregado 
e nunca mais se escapa de seu próprio casulo;
e é assim que somos, para sempre cair 
no bem profundo de outros seres;
e um fio se envolve em nossos pescoços, 
outro se entrelaça um pé, e então é impossível, 
impossível se mover, exceto no poço -
ninguém pode nos resgatar de outras pessoas. Parece que não sabemos falar; Parece que há palavras que escapam,  que estão faltando, quando foram embora e nos deixaram a nós  mesmos, enrolados em armadilhas e fios. E de uma só vez, é isso; já não sabemos 







do que se trata, mas estamos profundamente dentro dele, 
e agora nunca vamos ver com os mesmos olhos 
que fazemos quando fazíamos crianças.
Agora, esses olhos estão fechados para nós, 
agora nossas mãos emergem de braços diferentes. E, portanto, quando você dorme, você está sozinho em seus sonhos  e corre livremente através dos corredores  de um único sonho, que pertence a você. Oh, nunca deixe que eles venha roubar nossos sonhos,  nunca os deixem entrelaçar na nossa cama. Aguentemos as sombras  para ver se, da nossa própria obscuridade,  emergimos e nos seguimos pelas paredes,  aguardamos a luz, a capturamos,  até, de uma vez por todas,
torna-se o nosso próprio, o sol de todos os dias.


 Pablo Neruda




domingo, 18 de fevereiro de 2018

PAULA MENDONÇA







Saudades
Saudades do tempo...
em que acendíamos os beijos
na chama da paixão

Percorríamos cada curva dos nossos corpos
com a suavidade
com que o oleiro molda o barro

Em que nos entregávamos
indiferentes ao fluir das horas...
sem regras nem tréguas

Saudades do tempo
em que os meus olhos eram o teu espelho
O meu corpo, o teu abrigo
A minha pele, a tua roupa

Saudades do tempo 
em que éramos dois corpos e uma só alma…
Agora não sei mais o que somos
Sei tão-só de mim
Trago uma ferida aberta no lugar do coração…
e uma alma errante, perdida algures 
nas lembranças de um tempo passado.


PAULA MENDONÇA