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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

José Luís Peixoto

Fingir que está tudo bem



Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga. 


José Luís Peixoto

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Victor Oliveira Mateus






Querer-te...



Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã,...
só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice,
as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso
alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas.
É o verde das acácias e das palmeiras e as rosas de Jericó
alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,
as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma
janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite!
E é o teu corpo nu, exausto, branco como um templo,
porque todos os corpos são um templo no solo
consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil
e dançante caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer.



Victor Oliveira Mateus
Arte: Amro Ashry II    





segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

. efeneto*


Na espuma do teu corpo 

No perfume do teu cabelo
estabeleço a aliança
da noite com as mãos.

Na tua pele a seda
que se acende
no ovo do meu canto.

Nos ombros o começo
da linguagem do beijo
no percurso ondulante
da espuma do teu corpo.

Nas tuas faces a chama e a cinza
o murmúrio da música
do meu respirar.

No cais sem lençois
as tuas mãos aparelham-me o corpo
para a aventura da viagem.

efeneto*   


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hilda Hilst

ANTES QUE O MUNDO ACABE...




Foto da Net



Antes que o mundo acabe,
 deita-te e prova
 Esse milagre do gosto
 Que se fez na minha boca
 Enquanto o mundo grita
 Belicoso...
 E nos cobrimos de beijos
 E de flores...
 ...antes que o mundo se acabe.
 Antes que acabe em nós
 Nosso desejo.

Hilda Hilst

JE T'AIME MOI NON PLUS COM TRADUÇÃO






Já se foi o tempo em que esta canção causou verdadeiro escândalo, quando do seu lançamento nos anos 70. Serge Gainsbourg o autor e um dos intérpretes ao lado de sua então esposa Jane Birkin gravaram o primeiro sucesso erótico que apresento com tradução das palavras francesas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ANTÓNIO NOBRE




O TEU RETRATO




Deus fez a noite com o teu olhar,...
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.


Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!


Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!


Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!


ANTÓNIO NOBRE


Em, DESPEDIDAS (1902), (Lello e Irmãos, 2ª ed., 1985)







terça-feira, 29 de novembro de 2016

Maria do Rosário Pedreira


Toca-me onde me dói e verás
uma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca...
adivinhada de um mistério. Esta


é a tua vez de o desvendares -
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me


por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo


pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem


cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido


de uma aldeia. Não me adivinhes -
lá, onde me doer, vou recordar-me.

Maria do Rosário Pedreira