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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Herberto Hélder




























Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paixão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
A minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
das suas cabeças
ardentes: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente. 


Herberto Helder

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Nuno Júdice


























Na cama, onde o teu corpo, de costas, se abandona
aos meus olhos, e os cabelos se espalham pela almofada
és a mais bela das mulheres nuas. Os pés, sobre
os lençóis que o amor amarrotou, cruzam-se,
num breve descanso; e o rosto, de olhos 
fechados, esconde o desejo que a tua brancura
me oferece, contra a parede que inscreve
o único limite do nosso amor. O braço direito
caído para o chão, agarra um vazio que encho
de palavras; e o braço esquerdo, sob os seios,
indica-me o caminho em que cada repetição
é uma descoberta. Se te voltares, abrindo os braços,
e mostrando o peito, saberei o rumo seguir,
nesta viagem em que és a proa e o vento; mas
se ficares assim, secreto retrato no atelier
do coração, apenas te peço que entreabras
os lábios, para que um murmúrio nasça
de dentro da tela. Então, cobrir-te-ei as pernas
com o lençol, espalhar-te-ei pela almofada
os cabelos, escondendo a nuca e o ombro; e
deixarei que este poema se derrame sobre ti,
ateando este fogo com que a tua nudez
me incendeia.


Nuno Júdice

terça-feira, 25 de julho de 2017

Fernando Campos de Castro




POR QUE ESTOU FELIZ


Hoje quero a flor
Mais bonita que houver
Para dar de presente
A quem tanto me quer
Pode ser uma rosa
Bem bonita e cheirosa
Ou a simples meiguice
De um malmequer
Quero pôr no regaço
De quem gosta de mim
O jardim dum abraço
De afectos sem fim
Porque estou feliz
Porque canto o amor
Quero ver sempre em ti
O mais lindo fulgor
Porque estou feliz
Porque canto o amor
Quero ser para ti
O teu único amor
Hoje quero a manhã
Mais bonita que houver
Para dar com um beijo
A quem tanto me quer
Pode ser perfumada
De carinho e mais nada
A flor mais sonhada
Por uma mulher
Quero pôr no caminho
De quem tanto me quer
O sorriso mais lindo
Que a vida me der

Fernando Campos de Castro
(canções)

Foto de Antonio Baptista.

FADO






Letra

Eu gosto do teu andar
Desse jeito que é tão teu
Eu gosto do teu olhar
Olhar que a ti me prendeu

Eu gosto do teu cabelo
Do dourado do teu rosto
E da tua linda boca
Nem calculas como eu gosto

Eu gosto das tuas mãos
Que tão bem acariciam
Do teu corpo, dos teus modos
Que os meus olhos extasiam

Eu gosto do teu sorriso
Sorriso franco e leal
Até das tuas maldades
Eu não desgosto, afinal

Eu gosto da tua voz
A voz mais linda que ouvi
Gosto de tudo do que é teu
Só porque gosto de ti

segunda-feira, 24 de julho de 2017

MENSAGEM PARA UM GRANDE AMIGO




Pois é hoje é para ti!!!!!!!!!!!



Alegria


Há tanto tempo nos conhecemos, há tanto tempo fazemos parte um da vida do outro, estando perto ou longe, e acho que nunca te  disse como  és   especial para mim. Nunca te  disse como a tua presença em minha vida é importante. 

Tu estives-te presente em momentos cruciais da minha vida, sempre me deste apoio e sempre confiaste em mim. Tu me fizeste acreditar em mim quando eu mesma duvidava, das minhas capacidades. Contigo aprendi muitas coisas, vivemos muitos e bons momentos, e fizemos boas histórias para guardar na memória e para recordar.

Tu me trazes alegria e leveza para a minha vida,tu fazes de mim uma pessoa melhor. Obrigada, meu querido amigo. Tu sabes o quanto és importante para mim, a nossa amizade é muito importante para mim.......beijinhossssssss,obrigada pela nossa longa e linda amizade.....gosto muito de ti!!!!!!!



Como agradecimento a UMA FIEL AMIGA deste blog  e não só....publico aqui  as palavras sinceras e puras 
 desta minha GRANDE AMIZADE . Bem hajas  pela forma como encaras a vida e nela transmites  o que há 
de mais sublime , repito a AMIZADE.



Foto de Fatima Pereira.

Nuno Júdice,




Carta (Esboço)



Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.
Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

Foto de Antonio Baptista.

sábado, 22 de julho de 2017

Hamilton Ramos Afonso.





Há momentos...



Há momentos tão nossos 
em que as palavras se calam, 
por desnecessárias
e deixamos falar a ternura,
o carinho, o amor
e então escrevemos 
um no outro , o mais
belo poema mudo
nos nossos perfumados 
corpos a golpes de paixão...

Há momentos tão nossos 
que os gestos calam
as palavras e ouvimos 
a mais bela melodia
dois corações a bater 
compassadamente...


Hamilton Ramos Afonso.   


Arte: Augusto Rodin  

Foto de Hamilton Ramos Afonso.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

maria helena guimarães




AMASTE-ME DEMAIS

Amaste-me demais!
Um amor de posse,
nervoso,inquieto;
teia dourada
que me limitava o passo.
Amaste-me demais!
Como amas os troféus
das tuas viagens
que nos seus lugares exactos
se deixam acariciar pelo teu olhar.
Memórias dos triunfos do passado
que te alimentam o orgulho.
Amaste-me demais!
Como às estátuas de mármore
que nuas te deleitam
e te recebem na solidão organizada
e imaculada do Outono.

Amaste-me demais!



Com um amor observado 
e controlado
pelos olhares das mulheres da tua vida
presos nos caixilhos de prata
a profanarem a minha nudez 
e a nossa cumplicidade.
Amaste-me demais!
Com o orgulho de ontem,
a indecisão de hoje
e o medo do amanhã.
Não se pode ser assim amada.
Morre-se

maria helena guimarães
Do livro Contigo à Lareira
edium editores pag. 65/ Ano 2012


Livros publicados :
INTIMIDADES/1994
MANHÃS DE SETEMBRO/1998
Editou o primeiro romance Dar a vida pela vida,
editorial Minerva em 2001 a que se seguiu o
romance Caminhos de Jasmim e Rosa Chã ,
Papiro Editora , em 2008
CONTIGO `A LAREIRA/2012
Teve um poema premiado nos 3ºs Jogos Florais da
Editora abrace, de Montevideu , Uruguai , em
Outubro de 2011
Faz parte de vários grupos portuenses de poesia.
É membro da Sociedade Portuguesa de Autores.  

FOTO DA  POETISA

Foto de Antonio Baptista.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Miguel Torga




Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).
Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente,
Do teu vulto calado,
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.
*
(Miguel Torga)


Foto de Antonio Baptista.

são reis




Ando por onde não me vês
não te toco
mas sempre sabes onde 
ma achar
porque caminhos me perco
que noites me alumiam
e que dias e sóis me fazem 
sorrir
Há impulsos que não se 
escondem
que são indisfarçaveis
quando andas assim
comigo
no invisível de ti
quando não há outra forma
de sentir
que não essa que nos 
expõe
que nos tira o folego
e nos torna  tão
vulneravéis 
mas ao mesmo tempo
fortes.

são reis 

Te Quiero, Te Quiero, por Diego el Cigala e Rosario Flores (filha de Lola Flores)



Cesário Verde




VAIDOSA

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito 
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
e em 1886, morre Cesário Verde, poeta português


Foto de Antonio Baptista.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Isabel De Sousa ( Luadiurna )




QUANDO TE VI.....
quando te vi
acendi todas as estrelas do espanto e do prazer
abri todos os sorrisos iluminados pelo teu olhar
corri as cortinas do tempo amarrotadas no sotão do passado

quando te vi
abri todas as portas derrubei todas as barreiras
tirei do armário o vestido de arminho e as flores de laranjeira

e
adornei-me de pureza na pueril inocência das crianças
quando te vi
tatuei o teu nome na alma
e é lá que ainda te guardo
ao abrigo do meu sentir


Isabel de Sousa(luadiurna)


Foto de Fatima Pereira.

horizonte... Nuno Júdice



















Não sei de onde vem esta imagem que percorre
os dias e as noites, ou esses instantes em que um rumor
se desprende do fundo do ser. Há restos de uma espuma
de frases, de uma ondulação de sentimentos na concha
das mãos, de um desejo de abismo nos braços trémulos
de uma névoa de madrugada, que atravessam a memória
enquanto o vento salgado do inverno faz entrar no corpo
um frio que rejuvenesce. Respiro o fumo
do passado, e afasto as brasas para ver se ainda
recupero alguns rostos, uma ondulação de cabelos
quando é preciso correr para nos libertarmos 
das ondas que crescem com a maré, e submergem
o que resta do navio afundado numa rajada
de acasos.

E a imagem continua a assombrar-me, como se
fosse a vertigem de calor que sacode as searas imóveis
do verão, quando o sol as prende à terra e só um pássaro, 
no centro do céu, sugere um outro caminho para
quem se perdeu no labirinto dos campos, vendo o tempo
passar à sua frente com o lento silêncio dos seus 
passos de areia. E é quando surge um sonho de água
sem fim, de superfície lisa como o espelho azul
em que o teu rosto se reflecte, e o murmúrio
do amor se confunde com a respiração que emana
do horizonte, que um desenho de ilhas e de falésias
anuncia o porto indicado no mapa do teu corpo, 
com a sombra de mármore dos lençóis que 
o escondem.

E descubro-te no fundo desta imagem, envolta
no veludo de ausência em que os meus dedos
sentem a tua pele, e tiram de dentro do nada
o calor das palavras com que o amor é esculpido
na pedra do poema.



Nuno Júdice

terça-feira, 18 de julho de 2017

maria helena guimarães




O SONHO E O MEDO


A alma a esvoaçar
o espaço,
dedos a definir
imaginários
contornos,
o pensamento
submerso,
o sol aquietando-me
o peito,
neste sentir sem jeito,
sem razão,
num universo de sonho
a fluir na quietude
da tarde.
Sorvo o deleite
que invento,
embriago-me
no sentimento
para esquecer
o medo,
a angústia
da dúvida
que na razão
desperta
a cada
momento.
Janeiro 2003

" Nascuntur poetae , fiunt
oratores
Foi esta sentença latina
que me ocorreu ao ler ,
deleitada , as Manhãs de
Setembro...
De facto a poesia é um
dom , não se aprende..."
Do livro as Manhãs de Setembro
publicado em Dezembro de 1998

Foto da autora do poema

Foto de Antonio Baptista.

Fernando Pessoa - 13/06/1888




Não Digas Nada!


Não digas nada! 
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


Fernando Pessoa - 13/06/1888


Foto de Antonio Baptista.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

entrega... Nuno Júdice




entrega...
Numa noite antiga de verão em que todas as estrelas 
brilhavam nos seus lugares, nessa noite de calor ouvi
as rãs na água dos arrozais, e as nuvens de mosquitos cobriam
o caminho por onde te via passar, descalça, correndo sobre a terra
até ao pátio da casa fechada onde só os fantasmas viviam,
esperando que lhes abrisses a porta para atravessarem o campo
dos enforcados. Mas tu não os vias, e continuavas
a correr até à estação onde já nenhum comboio parava,
e ias para o canto mais escuro do jardim, despindo a blusa
para libertares o peito do calor da noite, e ofereceres
às estrelas as pontas dos seios.

Nuno Júdice   


domingo, 16 de julho de 2017

maria helena guimarães




QUANDO TU VIESTE


Quando tu vieste
a primavera tinha passado já
e a calma do verão preenchia
o diário da minha existência .

Mas de repente foi Março.
Março de jasmim e glicínias
enlaçando nossos corpos.

Foi Abril de rosas .
Botões a florir - nos no regaço,
a desabrochar corolas perfumadas .

E foi Maio agreste.
Maio de lágrimas e granizo ,
perfume agreste de giestas floridas .

Foi Março , foi Abril e foi Maio ,
de lágrimas , de dor ,
de de prazer , de comunhão de amor .

Quando tu vieste ...
Foi outra vez Primavera !

maria helena guimarães

Do livro Manhãs de Setembro / 1997
Pag. 37


O Lobo Ibérico é uma espécie protegida
e o seu " habitat " é o norte de Portugal
e da nossa vizinha Galiza.
Como as espécies que constituiam o seu 
alimento rareiam , ele vê - se obrigado 
a atacar os rebenhos.

    Na antiguidade foi considerado sagrado.


Resultado de imagem para imagem de flores lindas



sábado, 15 de julho de 2017

Maria Teresa - Faltam-Me As Palavras

Maria Teresa - Faltam-Me As Palavras

Faltam-me as palavras
Para dizer-te o que sinto
Faltam-me os poemas
Que descrevam o meu sentir
Por isso me calo
Deixo falar os sentidos
Pois tudo o que eu disser ainda é pouco
Para ti
Por mais frases bonitas que eu invente
Não valem nada
O amor não se explica
Simplesmente é mesmo assim

Se digo que te quero
Ainda quero mais
Se digo que te amo
Não diz o que há em mim
Se digo que te adoro
São palavras banais
Comparado aquilo que eu sinto por ti

Faltam-me as palavras
Para dizer-te o que sinto
Faltam-me os sorrisos
Que mostram como eu estou feliz
Por mais frases bonitas que eu invente
Não valem nada
O amor não se explica
Simplesmente é mesmo assim

Se digo que te quero
Ainda quero mais
Se digo que te amo
Não diz o que há em mim
Se digo que te adoro
São palavras banais
Comparado aquilo que eu sinto por ti

Faltam-me as palavras
Faltam-me as palavras

Se digo que te quero
Ainda quero mais
Se digo que te amo
Não diz o que há em mim
Se digo que te adoro
São palavras banais
Comparado aquilo que eu sinto por ti

Se digo que te quero
Ainda quero mais
Se digo que te amo
Não diz o que há em mim
Se digo que te adoro
São palavras banais
Comparado aquilo que eu sinto por ti

Faltam-me as palavras
Faltam-me as palavras
Faltam-me as palavras




Fernando Pinto do Amaral




































Murcharam por engano as rosas onde agora
vive outra vez o teu amor por mim:
respiro o que restou do seu aroma
ainda tão recente e, no entanto,
a dissipar-se, como o do teu corpo
colado à minha pele, contaminando-a
com um rasto de alegria em cada poro
aberto a uma certeza que não é,
nunca foi deste mundo, que se eleva
no gelo de fevereiro, pelas frinchas
de portas e janelas, toda a noite.

Queria saber amar-te como aos vinte anos
se ama a escuridão iluminada
dos corpos e das almas, essa névoa
soberana e feliz, mas só me ocorre
pedir solenemente a um deus infantil
que apague num só gesto as nossas vidas
ao longo desses tempos irreais
em que as lágrimas tinham outra fé
na dor irracional que abria ao meio
os nossos corações, ameaçando
deixá-los para sempre à mercê de si próprios.
Nunca é bem assim, eu sei: mais tarde vem
o desejo de ser igual aos outros,
de levar uma vida a que chamem "normal"
e de encontrar alguém para nos embalar
um sono que adormeça os mais antigos sonhos
ou faça deles mera literatura.
Então habituamo-nos a isso
e cremos ser felizes, ao obedecer
às migalhas já secas de um sorriso,
a essa imagem sempre confirmada
no abrigo sereno das fotografias
ou nos espelhos baços que há nos olhos
de quem nos vai saudando, até ao dia
em que todas as cores se tornam estranhas
e em que as velhas rosas ressuscitam
erguendo as suas pétalas em busca
de um céu mais inesperado e verdadeiro.

Só a partir daí é que sentimos
que podemos ser hóspedes do fogo
e que todas as leis deste mundo se cruzam
na mesma assombração: quem se apaixona
fica a saber que as rosas nunca morrem
quando o amor as dá e as recebe
num calafrio que nos salva e perde
a vida inteira. E tudo, nesse instante
- rostos feitos de luz entre as cinzas dos bares,
angústias ou remorsos em camas de hotel -,
é meu, nas tuas mãos, e desagua
no febril oceano dos teus braços.



Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 14 de julho de 2017

........................................





solo arável

se eu fosse um grão de trigo
tu serias a terra
e a água
e o sol

numa palavra
preciso de ti
para germinar   


quinta-feira, 13 de julho de 2017

António Ramos Rosa




Nuvens



Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.


António Ramos Rosa

terça-feira, 11 de julho de 2017

Eugénio de Andrade




Shelley sem anjos e sem pureza


Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

Eugénio de Andrade

Foto de Antonio Baptista.