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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Laura Santos






A paixão pode ser estúpida como uma bota da tropa


O som da tua voz desperta canto vibrante
No meu tronco terra, horizonte sagrado.
Tuas mãos celebram o meu peito ofegante
Pedra jade de um desejo descompassado
Precipitado na minha imaginação ardente.
Fio de prata tornado fogo, bruto diamante
Liberdade dourada, chuva incandescente
Em desassombrada alucinação galopante.


Laura Santos


Bodyscapes, Carl Warner

Cidália Ferreira.





Conheces meu olhar, como ninguém, talvez

Meu olhar nem sempre transmite o que sente
O meu coração padece num segredo absoluto
Por vezes não disfarço. Um olhar não mente
Mas tudo passa, a alegria volta não discuto
.
Sabes o que  sente o meu  olhar ao recordar
Aqueles momentos que me assolam o coração
Quando o que sente, é revolta, de não te dar
O que bem  mereces, e não me digas que não
.
Conheces o meu olhar, como ninguém, talvez
Notas no meu olhar a capacidade de te amar
Do meu coração conheces a minha sensatez 
.
Sabes o que sinto e o meu olhar não esquece
Vagueias em mim, na imensidão d'meu olhar
E na minha mente, só teu carinho prevalece.
****
Cidália Ferreira.

Foto de Antonio Baptista.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

António Ramos Rosa

























Onde é aqui, 
o centro, 
onde se respira, 
a cama limpa 
o corpo inteiro e nu. 
Onde é a fome e o braço toca 
o esplendor. 
Respira o ventre, 
a vela incha 
ao sol e ao mar sem fim. 

Onde é aqui, 
a fome nua, 
a árvore exacta 
no centro 
da alegria, 
a luz e o olhar 
aberto ao mar.

Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.

António Ramos Rosa

sábado, 12 de agosto de 2017

Patxi Andion







....................20 Aniversario… Palabras
Patxi Andion



20 años de estar juntos
Esta tarde se han cumplido
Para ti flores, perfumes
Para mi, algunos libros

No te he dicho grandes cosas
Porque no me habrian salido
Ya sabes cosas de viejos

Requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
Abonar nuestro detino
Tu bajabas la persiana
Yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
Casi como ignorando el sabor
Del la soledad compartida
Quise hacerte una cancion
Para cantar despacito
Como se duerme a los niños
Y ya ves,solo palabras
Sobre notas me han salido
Que al igual que tu y que yo
Ni se importan ni se estorban
Se soportan amistosas.
Mas no son una cancion
Que helada esta casa !
Sera que esta cerca el rio
O es que estamos en invierno
Y estan llegando,estan llegando...
Los frios.
20 años de estar juntos
Esta tarde se han cumplido
Para ti flores, perfumes
Para mi, algunos libros




Laura Santos




Ilusão
Sou mente tola que tudo inventa.
Porque não admito que o sol te aqueça
sem a minha presença.
Ou que a chuva te molhe
e acaricie sem pedir-me licença.
Que o sorriso que em mim se apresenta
fique triste quando te olhe.
Para ti desejei livres espaços
ocupados por árvores e por brisas,
corropio de amor, breves cansaços,
musgo verde, chão de pétalas de rosas
em movimento que tu pisas.
Criei nos teus ombros altas pontes
e nas tuas mãos abri sem querer
pequenos lagos, doces frescas fontes.
No teu olhar imaginei um pedaço de céu
que depressa de mim desapareceu.
Mas nunca verdadeiramente te perdi.
De coisa nenhuma nunca algo nasceu.
Poderia dizer-te da tristeza sem idade,
falar-te desta angústia. Da fatalidade 
desta tremenda estupidez....
Nada daria a medida das minhas penas,
do peso dos dias e das noites,
da alegria e contentamento que não se fez,
da beleza de todas as coisas pequenas.
Dos extensos, duradouros desertos
de sonhos adormecidos e despertos.
Deste exílio permanente em lugar nenhum.
Uma saudade de histórias não contadas;
apenas fantasia intensa sem maravilha...
Ilusões de óptica, escuras fundas estradas
como se fosses apenas uma ilha.
Não existe já um lamento ou um quebranto.
Apenas uma ausência que me atravessa,
uma lança que me trespassa, um triste canto.
Não existe já uma atrevida promessa.
Nem mágoa contida, nem devassa.
Apenas foste embora para a tua colina.
O teu e o meu tempo depressa passa
sabes do tesouro que existe no fundo da mina. 
Mas, em ti persisto sem que esteja.


Laura Santos

Ana Moura, A Case of You



,,,,,,,,,,,,,Da autora , Como diria Oscar Wilde, "a ilusão é o primeiro de todos os prazeres", o que "parece um absurdo, e no entanto é a exacta verdade, que, se toda a realidade for vazia, não haverá mais nada de real nem de substancial no mundo além das ilusões"(Giacomo Leopardi), porque "sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio"(Anatole France), as "ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro"(Victor Hugo) e "o coração é regra geral a fonte das ilusões do espírito"(Pierre Nicole)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

RUY BELO





TU ESTÁS AQUI


Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável e selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal  posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome domértico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas qu fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas coisas das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizere que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


 RUY BELO

Poema de Ruy Belo in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor", edição Assírio & Alvim (1402), Julho 2010


Maria Helena Guimarães





AQUELA CENTELHA
Aquela centelha em teu olhar
revelou , num ínfimo instante ,
o medo que tens de me perder.
Senti o teu mundo vacilar
na voz arrastada e vacilante
com que pretendeste responder .

Fiquei sem saber , por um momento ,
tal foi a surpresa que senti ,
como esse fulgor interpretar .
Explodiu no peito o sentimento ,
ofuscou - me a mente e eu nem vi
que podia estar - te a embaraçar .

Deixei de pensar nos circunstantes 
que nos observavam , muitos atentos ,
tentando entender minimamente .
Pensei -nos sòzinhos por instantes ,
perdi o domínio por momentos ,
entreguei - nos tão infantilmente !



Do livro "" INTIMIDADES "" / 1994 pag. 31
Foto da poetisa

Foto de Antonio Baptista.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Hamilton Ramos Afonso.





« Fios de prata, envolvem 
o azul do mar.

É a lua a iluminar 
os caminhos
do meu pensamento 
pleno de ti...»



Hamilton Ramos Afonso.

Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

sábado, 5 de agosto de 2017

dinapoetisadapaz




Desilusão


Entreguei-me a ansiedade de tê-lo.
Esperei como o amanhecer espera o sol,
Era imenso o brilho dos meus olhos...

Enfim, vieste...,
Solícito, cheio de ternura.
Uma lágrima caída em minha face
confessou todo meu afeto.

Mas, foste fraco
ao primeiro obstáculo,
como uma onda que se desmancha
na areia  e morre,
assim  morreu seu falso querer.

Como chuva,
Todas as palavras ditas,
caíram por terra.
Não há desilusão que perdure
Em coração ávido de superação.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Herberto Helder







































As mulheres têm uma assombrada roseira 
fria espalhada no ventre. 
Uma roseira às vezes, uma planta 
de treva. 
Ela sobe dos pés e atravessa 
a carne quebrada. 
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus -
e mistura-se nas águas, 
no sonho da cabeça. 
As mulheres pensam como uma impensada roseira 
que pensa rosas. 
Pensam de espinho para espinho, 
param de nó em nó.  
As mulheres dão folhas, recebem 
um orvalho inocente. 
Depois a boca abre-se. 
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente 
das semanas, 
passam por cima. As mulheres cantam 
na sua alegria terrena. 

Que coisa verdadeira cantam? 
Elas cantam. 
São fechadas e doces, mudam 
de cor, anunciam felicidade no meio da noite, 
os dias rutilantes, a graça. 
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas 
e uma suavidade amarga -
as mulheres tornam impura e magnífica 
nossa límpida, estéril 
vida masculina. 
Porque as mulheres não pensam: abrem 
rosas tenebrosas, 
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual. 
São altas essas roseiras de mulheres, 
inclinadas como sinos, como violinos, dentro 
do som. 
Dentro da sua seiva de cinza brilhante. 

O pão de aveia, as maçãs no cesto, 
o vinho frio, 
ou a candeia sobre o silêncio. 
Ou a minha tarefa sobre o tempo. 
Ou o meu espírito sobre Deus. 
Digo: minha vida é para as mulheres vazias, 
as mulheres dos campos, os seres 
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros 
muros de Deus. 
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram 
a boca e o ânus 
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo. 

Espero que o amor enleve a minha melancolia. 
E flores sazonadas estalem e apodreçam 
docemente no ar. 
E a suavidade e a loucura parem em mim, 
e depois o mundo tenha cidades antigas 
que ardam na treva sua inocência lenta 
e sangrenta. 
Espero tirar de mim o mais veloz 
apaixonamento e a inteligência mais pura. 
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas 
no campo. 
Pensarão na noite molhada, 
no dia luzente cheio de raios. 

Vejo que a morte se inspira na carne 
que a luz martela de leve. 
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão, 
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa - 
vejo os meses que respiram. 
Os meses fortes e pacientes. 
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens. 
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada 
treva das mulheres. 

E digo: elas cantam a minha vida. 
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável. 
Cantam a alegria de tudo, minha 
alegria 
por dentro da grande dor masculina. 
Essas mulheres tornam feliz e extensa 
a morte da terra. 
Elas cantam a eternidade. 
Cantam o sangue de uma terra exaltada. 


Herberto Helder

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Alma à flor da pele.





Ida sem volta
Como é bom viajar no teu abraço.
Ser peso pluma,
sentir a gravidade zero,
ser gaivota a pairar sobre o mar azul.
Deixar-me flutuar ao som da tua voz, sussurrada atrás do ouvido bem juntinho ao pescoço.
Arrepiar pelo carreiro de beijos que me desenhas nas costas, sem pressa de chegar ao destino final.
E o toque que cravas em mim?
Bem...
esse é abusivo...
....e tu sabes e usas-lo como uma espécie de super poder, de herói de banda desenhada, para me mostrares quem manda nesta história.
Por hoje era isto que te queria dizer.
Peço-te que não demores porque já tenho bilhete e não vou a tempo de o devolver.


Foto de Alma à flor da pele.