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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

António Botto








creio...
O mais
importante na vida 
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso, 
É necessário pressenti-la 
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível 
É como que ouvir uma voz de alguma coisa 
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida 
É ser-se criador. 
E para o impossível 
Só devemos caminhar de olhos fechados 
Como a fé e como o amor.

António Botto   


Foto de Antonio Baptista.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

EUGÉNIO DE ANDRADE










POESIA


Passamos pelas coisas sem as ver,
Gastos, como animais envelhecidos:
Se alguém chama por nós não respondemos,
Se alguém nos pede amor não estremecemos,
Como frutos de sombra sem sabor
Vamos caindo no chão, apodrecidos.


EUGÉNIO DE ANDRADE

Foto de Antonio Baptista.
foto do poeta

POESIA NO FADO....De Fernando Campos de Castro·







POESIA NO FADO....


AGUAS TURVAS DE SAUDADE

Já quanta vez amor, me tornei rio
Revolto em águas turvas outonais
Correndo em solidão e desvario
Atrás dessa corrente onde tu vais

Deixei o cais sozinho e fui sem remos
Nos braços do destino a navegar
Nessa grande loucura de nós mesmos
Aonde nos deixamos naufragar

Corri montes e vales, fui loucura
Até sermos os dois o que sonhamos
Nessa cama de luz e de ternura
Onde em cada noite nos amamos

Já quanta vez amor, fui desvario
E leito de água pura em tempestade
Para ser hoje apenas este rio
Revolto em águas turvas de saudade


Fernando Campos de Castro  

Foto de Antonio Baptista.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Vasco Gato








































A tua beleza é o cano de uma espingarda encostado à minha têmpora.
Como as tuas mãos folha-de-estanho me cegam, por isso te
toco - procurando saber onde estou.

Porém o teu corpo se dispara, e então eu sou a paisagem posta a um
canto para entrar a música. Sou um braço solto com a pulseira
em rotação, fita amarela nos cabelos da morte, madeira para o
lume da tua boca.

Debaixo dos holofotes da loucura, os anjos caem aturdidos. Assim
nós, carnais pelo excesso de luz , veia de pólvora que rebenta na
cabeça da solidão.

Beija-me, beija-me com o fogo das noites em branco.



Vasco Gato

João Basílio Lobo Maia






Uma vida lá longe perdida. Mas o que é essa vida ? Tenho tanta dor em mim que me esqueci de viver.
Vida postiça que vivo por decisão do destino.

Acordo subitamente sei que vou somando dias ,mas viver não vivo.
Não sinto a alegria do teu doce olhar no meu ser. Lá fora a rua passa devagar no seu cortejo como nada existisse. Passa , princesa, passa e ensina-me a viver. Porque a vida na solitária não é nada. A recordação do teu sorriso é uma vida que não canto. O teu sorriso é a curiosa sensação de iluminar as trevas.
Triste a minha alma é uma árvore morta ao nascer . Verde os limões são amargos. Olho a janela não encontro razões para viver. Os letreiros com nomes de ruas me lembram a saudade da tua rua. Penso na latitude e na longitude da tua presença solar. O meu relógio me diz o tempo que não vivo. Não sinto a vida em mim sou o frio sentir da morte.
Lá fora há um sossego como eu fosse um morto abandonado. Passa, beleza, passa com teu manto rosa alegria do meu ser.Olho a minha pequenez queria ser o teu sonho, mas fico pela tua sombra. Não basta abrir a janela para viver. Olho o mar só encontro sal triste. Olho o rio na sua candura que me deixa a pensar em ti.
Vivo na minha cave vinho amargo em casca de carvalho. Meu Deus olhos as suas pedras em sentido único são a minha última morada. A filosofia da tua partida sei de cor. Preciso de te encontrar junto do meu amar, junto do teu olhar. Mas noite me mata ,mas não é bastante para me cegar. É preciso perder a noção de tudo na merda desta cave para viver plenamente em teu olhar
José Basílio Lobo Maia

Foto de Jose Basílio Lobo Maia.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Isabel de carvalho sousa





LUA
Vestes a noite
com a tua claridade nua
teu feitiço.
Vagueias em mim
pelos sentidos
e eu percorro o deserto
à procura de mim
e do mistério.

Chamo-te
envolvo-me
e sinto-te Lua
neste eterno retorno
que me sabe a ti



Isabel de carvalho sousa



Nuno Júdice





























Perante os que olham a realidade como se fosse
o único absoluto, sinto-me como se estivesse perante
aqueles marinheiros loucos que, ao verem
aproximar-se o temporal, se lançam à água,
deixando para trás os mapas e a bússola. Na verdade,
entendo essa mesma realidade, que os outros
veneram, como algo tão impuro como o chão que
pisamos, com a diferença de que os pés não sabem
distinguir o caminho certo se o rumo de quem anda
não os dirigir de acordo com uma ideia, um destino, o
que quer que seja que possa eliminar o acaso. E
é aqui que os crentes no real me contradizem: "Não vês
que o ideal se esfuma por entre dedos, e que
tudo o que pensas que faz parte da tua vida não passa
de sonho que logo se dissipa quando acordas
da noite"? Porém, digo-lhes, se à noite fico
acordado é precisamente porque o escuro, a sombra,
a própria treva, me confirmam na convicção de
que esta realidade em que vivemos não passa de aparência,
de simples ilusão nascida do nosso desejo de viver
num quotidiano fabricado pelo pensamento. E
neste preciso momento verifico que estou perante
seres abstractos, fantasmas de um arquétipo inútil,
astros que se apagam no céu da consciência que,
para mim, não tem mais realidade do que este papel
em que escrevo, e só é real quando o leio.


Nuno Júdice

sábado, 26 de agosto de 2017

Nuno Júdice

















































Pediste-me um cigarro, durante o jantar, dizendo
que já não fumavas; mas foi da caixa da tua amiga
que tiraste o papel e o tabaco, para o enrolar com
os teus dedos, que deviam servir para outras coisas:
tirar fotografias, por exemplo, para que este instante
se não perdesse no decurso dos tempos, coberto
pelo silêncio que o tempo despeja sobre o tempo
que o precede. Mas não tens nada a ver com a
eternidade: a tua eternidade está nesse bairro
periférico em que vives, num quarto andar para
onde o teu vizinho te ajuda a subir as compras (não
há elevador): é possível que esteja apaixonado por
ti, e tu não sabes como lhe dizer que não é caso
para tanto, muito menos quando ele anda de tronco
nu (hábitos do talho onde tem o seu trabalho),
e quando muito daria para modelo de um Sansão,
de um Hércules, ou de um Atlas - mas já
ninguém quer saber de mitologias para nada. Por
isso é que te dedicas à teoria do ruído; e aconselho-
-te a abrir a janela, para perceberes que o ruído
não é nada, quando tem dentro de si todos os
silêncios que acabam com ele. Assim, nesse
abrir de janela, ouve o silêncio dos pássaros,
o silêncio das nuvens, o silêncio do azul-pálido
que elas escondem, o silêncio das árvores, e
dedica-te antes a procurar uma teoria do imenso
ruído que nasce deste silêncio. Tu, porém,
acabas de enrolar o cigarro, pedes-me lume, e
entre o acender do isqueiro e tu levares o cigarro
à boca houve um silêncio, sem ruído, o simples
instante em que os olhos se cruzam, e não
é preciso silêncio, nem ruído, para captar
a respiração que faz viver as almas, envolve
os seres, e rouba ao instante a sua efemeridade.



Nuno Júdice

A ESTRANHA PRESENÇA DO AMOR







A ESTRANHA PRESENÇA DO AMOR


A vida voa.. 
A vida segue vai...
Vai...
E, alguma coisa, que fica para trás
É como se não tivesse ido.
Lutas, com o coração ferido,
Contra a sensação do tempo perdido
Enquanto me sinto angustiado
Por querer sentir o tempo ao teu lado. 
Nos vemos assim
Como dois seres queridos
Que se estranham
E já nem sabem
Recuperar a beleza do amor passado.

De repente, falamos línguas diferentes
Ou, quem sabe, um de nós,
Ou até mesmo os dois,
Perdeu completamente a lembrança
De todo amor que antes tivemos. 
E tudo aconteceu tão lentamente
Que já nem compreendo
Como nos perdemos
Estando, como estamos, sempre juntos.
E mesmo quando usamos
As mesmas palavras
Tratamos, na verdade,
De dois assuntos.

Foto de Antonio Baptista.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Charles Chaplin









Vida


Chega um momento em sua vida, que você sabe:
Quem é imprescindível para você, 
quem nunca foi, 
quem não é mais, 
quem será sempre!




Charles Chaplin

Foto de Fatima Pereira.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Florbela Espanca









Poesia
Amor que Morre
O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!


Florbela Espanca  
Foto de Antonio Baptista.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

[Sophia de Mello Breyner]









... Viagens...


“Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.”


[Sophia de Mello Breyner]

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Amor possessivo











*AMOR POSSESSIVO*


Tu foste a mulher diferente!
Que avassalou meu coração!
Envolveste meu corpo e mente!
Na loucura da paixão!!

Eu quis sonhar teus sonhos!
E desvendar seus segredos!
Pra calar ciúmes medonhos!
E libertar-me dos medos!!
Quis prender-te na vontade!
De ser teu sol e tu minha lua!
Sentir amor com verdade!
No teu corpo em beleza nua!
Fui um homem tão possessivo!
Que enleou todo o teu ser!
E foi por esse motivo!
A razão de te perder!
E também o meu castigo!
Por nunca te esquecer!!!

autor.........................

Foto de Antonio Baptista.

Isabel de Carvalho Sousa ( luadiurma )








Novo Dia

Nos teus olhos anoitece o silêncio. 
Emolduro o teu rosto em dias baços 
e as palavras entrelaçam a ternura. 
É no fundo de ti que acorda 
rebelde
a alma da cidade. 
É em ti que também amanheço.



Isabel de Carvalho Sousa ( luadiurma )  

Foto de Antonio Baptista.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Nuno Júdice






Nuno Júdice e Maria Helena Vieira da Silva: o jogo

Um poema de Nuno Júdice: jogo




A partida de xadrez

JOGO

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"

Um quadro de Maria Helena Vieira da Silva: partida de xadrez (1943)

Foto de Antonio Baptista.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

...................................







A loucura do teu corpo
de pele sedosa 
o teu olhar rasgado 
sedutor como o Sol 
na perpendicular à terra,
o brilho imenso da tua beleza sensual
inspira em mim
a vontade de  acariciar suavemente o teu corpo pluma,
beijar-te
sufocantemente
navegar nos teus seios
alterando as cores das tuas faces
como fogo
de uma estrela iluminada irradiando um néctar
de uma linda flor
que anseio florir
nos meus braços
a meu lado . 



.................................


Foto de Sebastiao Oliveira.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Laura Santos






A paixão pode ser estúpida como uma bota da tropa


O som da tua voz desperta canto vibrante
No meu tronco terra, horizonte sagrado.
Tuas mãos celebram o meu peito ofegante
Pedra jade de um desejo descompassado
Precipitado na minha imaginação ardente.
Fio de prata tornado fogo, bruto diamante
Liberdade dourada, chuva incandescente
Em desassombrada alucinação galopante.


Laura Santos


Bodyscapes, Carl Warner

Cidália Ferreira.





Conheces meu olhar, como ninguém, talvez

Meu olhar nem sempre transmite o que sente
O meu coração padece num segredo absoluto
Por vezes não disfarço. Um olhar não mente
Mas tudo passa, a alegria volta não discuto
.
Sabes o que  sente o meu  olhar ao recordar
Aqueles momentos que me assolam o coração
Quando o que sente, é revolta, de não te dar
O que bem  mereces, e não me digas que não
.
Conheces o meu olhar, como ninguém, talvez
Notas no meu olhar a capacidade de te amar
Do meu coração conheces a minha sensatez 
.
Sabes o que sinto e o meu olhar não esquece
Vagueias em mim, na imensidão d'meu olhar
E na minha mente, só teu carinho prevalece.
****
Cidália Ferreira.

Foto de Antonio Baptista.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

António Ramos Rosa

























Onde é aqui, 
o centro, 
onde se respira, 
a cama limpa 
o corpo inteiro e nu. 
Onde é a fome e o braço toca 
o esplendor. 
Respira o ventre, 
a vela incha 
ao sol e ao mar sem fim. 

Onde é aqui, 
a fome nua, 
a árvore exacta 
no centro 
da alegria, 
a luz e o olhar 
aberto ao mar.

Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.

António Ramos Rosa