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sábado, 24 de junho de 2017

Davia Mourão Ferreira





TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol, 
que é feito de ternura amarrotada, 
da frescura que vem depois do sol, 
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade! 
Há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade 
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente, 
e é ternura também que vou vestindo, 
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós 
a despimos assim que estamos sós!



DAVID MOURÃO-FERREIRA, PROFESSOR, ESCRITOR E POETA PORTUGUÊS


FOTO DO AUTOR DO POEMA

Foto de Antonio Maria.

helena guimares





NÃO SEI

Não sei porque
me acalma o mar,
quando as águas revoltas 
se desfazem nos rochedos.
Não sei porque 
a imensidão me capacita
do nada.
Mas vogo na ondulação
como em berço de ninar.
Perdem - se entre água e céu
todos os meus medos.
Aqueço ao sol
a minha alma gelada.
Mergulho na plenitude
do entardecer
e desperto em paz
para reviver.  


helena guimaraes
Porto , 1995

Do livro " Manhãs de Setembro " em 1998
Pag.23

" Nascuntur poetae , fiunt
oratores
Foi esta sentença latina
que me ocorreu ao ler ,
deleitada , as Manhãs de
Setembro...
De facto , a poesia é um
dom ,não se aprende! ..."   


FOTO DA AUTORA

Foto de Antonio Maria.

helena guimaraes







PEDISTE-ME UM DIA UM POEMA
 PEDISTE-ME UM DIA UM POEMA
Descrição:
NÃO-POEMA


Pediste-me um dia um poema,
poema que fosse teu.
                                 Como ave delicada
que agoniza quando presa,
o poema nasce na alma,
movimenta-nos o sangue
com a força do desejo,
humedece-nos os lábios
com a ternura de um beijo,
dança na bainhas dos versos,
plana nas asas da calma,
amordaçado, ele morre
se soletrado fenece.
Poema não compreendido
torna-se vago, emudece.
Procurei o teu poema
no abraço da entrega,
nas pegadas paralelas
de mãos dadas junto ao mar,
na cumplicidade da noite,
na comunhão de um olhar.
Só descobri versos vagos
dançando ao som do medo,
abandonos calculados,
a reserva e o segredo.

                                Pediste-me um dia um poema,
poema que fosse teu.
Mas nesses versos dispersos,
o poema se perdeu.
Não consegui e foi pena.
Poema não construído
torna-se num não-poema!

                          HG  Junho 2004

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Isabel de Carvalho Sousa.







Como uma borboleta

Como uma borboleta 
num incendiado sol de Abril
quis que me visses.
Era meio dia no teu rosto
e por gosto riscavam gaivotas o azul
que prolongava o Rio.
Olhaste-me. Ardeu o dia.



Isabel de Carvalho Sousa. 


Foto de Isabel De Carvalho Sousa.


De Patrícia Carvalho




O amor nasce quando os olhos se cruzam e permanece enquanto se olharem...



Poema de uma AMIGA , que infelizmente já nos deixou   muito nova ainda e com muito para nos dar...



TEU CHEIRO


Teu cheiro...
Entorpece meu desejo, enlouquece meu doce beijo.
Cheiro que vicia a alma e tira minha calma
Cheiro da pele do homem que vai além das minhas vontades

Teu cheiro de macho...
Só meu corpo sente só meu corpo entende

Teu cheiro de Homem...
Só minha mente pode alcançar só minha alma pode decifrar

Sente minha pele, sente meu perfume...
Teu cheiro esta em todos os meus poros
Esta em meus sonhos
Em minha vaidade de mulher

Quer entender?
Vou traduzir em nossa cama com detalhes a sentir
O prazer que o teu cheiro de homem pode causar em meu desejo de mulher

E no final...
Adormeço em seus braços onde
Teu cheiro me acalma me aquece a alma e faz sonhar
Patrícia Carvalho

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Florbela espanca




Ser poeta

Florbela Espanca


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


José Tolentino Mendonça




...........
perdemos repentinamente 
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou


José Tolentino Mendonça   

Foto de Antonio Maria.

Joaquim Pessoa




Quem disse?

Quem disse que o teu nome é uma espada
e as tuas mãos dois rios transparentes?
Quem te acordou naquela madrugada?
O voo da águia? O silvo das serpentes?
Quem sabe que és minha namorada
e me guardas os beijos mais ardentes?
Quem fez uma canção desesperada
com o sexo dos anjos impotentes?
Ó meu amor, quem foi?, quem foi que disse
que se durante a noite alguém nos visse 
fazendo amor de corpos abraçados
nos faria morrer de orgasmo e sede
ou apenas, encostados à parede,
em nome da alegria fuzilados?


Joaquim Pessoa  
Foto de Fatima Pereira.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Albino Santos




Não sei porquê

hoje lembrou-me que
puseste na mesa
aquela toalha de linho
onde as papoilas vermelhas
são beijadas pelo sol bordado
que te sai das mãos!...
Quis afastar esse pensamento
e fui até à margem do rio,
junto das margaridas que tanto gostavas...

Dei por mim a relembrar os tempos idos,

os nossos segredos,
os sonhos perdidos,
as histórias de amor,
os dias mais felizes...
E tudo parece que rebrilha
como pedrinhas de cor
entre as raízes...

Quem sabe, amanhã será primavera!...

Albino Santos  


Foto de Antonio Maria.


terça-feira, 20 de junho de 2017

CANTA CARLOS ZEL




Quero tanto aos olhos teus
Como o céu quer ás estrelas
Adoro essa feições belas
Como um crente adora Deus


Desde a hora em que te vi 
Minh'alma anda presa á tua
Como eu ando atrás de ti 
Anda o sol atrás da lua


Se um dia o sol se apagar 
No infinito dos céus
Quero a luz do teu olhar 
E o calor dos lábios teus


Por te querer tanto, afinal 
Ando a triste, a perguntar
Como é possível gostar 
De quem nos faz tanto mal



( Compositor Manuel de Almeida - fado Lopoes )   


Carlos Drummond de Andrade




Sem um amor não vive ninguém.
Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.


A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. 



A dor é inevitável. 
O sofrimento é opcional.




Carlos Drummond de Andrade  


Foto de Fatima Pereira.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

António Ramos Rosa


























Da grande página aberta do teu corpo
sai um sol verde
um olhar nu no silêncio de metal
uma nódoa no teu peito de água clara

Pela janela vejo a pequenina mão
de um insecto escuro
percorrer a madeira do momento intacto
meus braços agitam-te como uma bandeira em brasa
ó favos de sol

Da grande página aberta
sai a água de um chão vermelho e doce
saem os lábios de laranja beijo a beijo
o grande sismo do silêncio
em que soberba cais vencida flor



António Ramos Rosa

Joaquim Pessoa






POEMA

Morrer de Amor é Assim

Quem morre de tempo certo...
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei, e falo por mim,
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora,
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar,
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

FOTO DE Joaquim Pessoa  

Foto de Antonio Maria.

domingo, 18 de junho de 2017

isabel de carvalho sousa




UM NOVO OLHAR


acende-se a magia nos meus olhos 
e procuro-te nessa linha ténue 
que o horizonte desenha ao anoitecer

acende-se a magia no negro 
traçado de estrelas 
e na magia das palavras por dizer

doce é perseguir um sonho 
consentido nos teus olhos.



isabel de carvalho sousa 
Foto de Isabel De Carvalho Sousa.

sábado, 17 de junho de 2017

Clarice Lispector




POESIA


Clarice Lispector
...
(re)versos
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

(Agora leia de baixo para cima)


Clarice Lispector

Foto de Antonio Maria.

Rupert Brooke


























When Beauty and Beauty meet
All naked, fair to fair,
The earth is crying-sweet,
And scattering-bright the air,
Eddying, dizzying, closing round,
With soft and drunken laughter;
Veiling all that may befall
After - after -

Where Beauty and Beauty met,
Earth’s still a-tremble there,
And winds are scented yet,
And memory-soft the air,
Bosoming, folding glints of light,
And shreds of shadowy laughter;
Not the tears that fill the years
After-after-


Rupert Brooke

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os voos do sentir.....




OS VOOS DO SENTIR 

No entanto, existo.
Existo, logo sinto
(provei a existência do sentimento).
Existir, sentir, pensar
são só palavras passageiras
e penso que não penso, não sinto, não existo
ou não existirei-
a diferença é nenhuma-
porque tudo existe para desaparecer,
logo existir é não existir,
ser, não-ser,
pensar, não-pensar,
pois, por mais que tudo exista,
tudo não existirá.

Eis o sumo do mundo: nada.
Meu sentir é um nada sentir.

Meu sonho é sentir tudo
e nada sinto.
Nada sentir, contudo, é sentimento.
O sentimento de quem nada sente.
Assim nada sentir é sentir nada
e como nada sinto não sei sentir
e em não sentir meu sentimento se consome
como qualquer sentir
também em nada.

Nada sentir é meu sentir real.
ser frio como gelo, um animal
não é comum.
E incomum entre os comuns me reconheço
tanto que não sou feliz ou infeliz
nem sinto alegria ou me aborreço.
Nada sou do que quero ou quis.
Sou o que sou-
assim me identifico-
e passo:
não sinto nem fico 


Foto de Antonio Maria.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

António Ramos Rosa




subtil...




Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.


António Ramos Rosa


Foto de Antonio Maria.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Alviana Tzovenos




Ao compasso de um tango

desperto-me em emoções espargidas,
poeira de velhos mundos
a dançar estrelas revividas. . .

abraço soluços do amar
entre sorrisos de águas
enamorados de som-luar. . .

num derramar-se de alma
há beijos florindo horizontes
sob olhares perdidos em calma. . .

e vestindo pedaços de infância
num cortejo de juventude ilusão
- breves sonhos!
ao embarcar nas distancias. . .

Mas, ao compasso de um tango,
eu ainda,
sonho, revivo e amo!

Alviana Tzovenos   

Foto de Fatima Pereira.

terça-feira, 13 de junho de 2017

De uma grande amiga





A palavra
Há uma fogueira acesa no interior da palavra: um rio que corre para o sol de Março.
Estende os seus braços para a nascente onde o sentir se espraia no caminho da Fonte e é lá que cabem todos os sonhos vestidos de Verdade.
Correm para a Foz, adentram o mar abraçam a luz ,onde pelo Verbo tudo se cria Há um horizonte aberto nos olhos do sentir e é lá que a Primavera amadurece no interior da palavra.


Isabel de Carvalho Sousa

De uma grande amiga

FOTO DA POETISA

Foto de Antonio Maria.

de Isabel sousa




Foi assim....

Foi no crepúsculo da vida
Que se (me)acendeu um Sol nas mãos
iluminando-me o rosto,o sorriso e a alma....

e também o olhar
com que te vejo
com estes olhos interiores
quando passas por mim no coração
e pronuncio o teu nome
com amor

de Isabel sousa (luadiurna)

Foto de Lua Diurna.

Nuno Júdice




Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.


Nuno Júdice   

Foto de Antonio Maria.