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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cesário Verde




VAIDOSA

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito 
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
e em 1886, morre Cesário Verde, poeta português


Foto de Antonio Baptista.

1 comentário:

fatima maria disse...

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces...


beijokas.....