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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Eugénio de Andrade








Acordo sem o contorno do teu rosto na 

minha almofada, sem o teu peito liso e claro 
como um dia de vento, e começo a erguer a 
madrugada apenas com as duas mãos que 
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os 
meus olhos partiram nos teus. 
E é assim que a noite chega, e dentro dela 
te procuro, encostado ao teu nome, pelas 
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão 
aberta nos dedos como um cravo. 
Meu amor, amor de uma breve madrugada 
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e 
desfolho-a lentamente, até que outra boca - 
e sempre a tua boca - comece de novo a 
nascer na minha boca. 
Que posso eu fazer senão escutar o coração 
inseguro dos pássaros, encostar a face ao 
rosto lunar dos bêbados e perguntar o que 
aconteceu. 


Eugénio de Andrade     


Foto de Antonio Maria.



1 comentário:

fatima maria disse...

aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca -
e sempre a tua boca - comece de novo a
nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração
inseguro dos pássaros, encostar a face ao
rosto lunar dos bêbados e perguntar o que
aconteceu.

bjs............