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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

João de Deus //// Escreve !



Escreve!
 
 
 
Não sei o que supor
 Do teu silêncio. Escreve!
 Quem é amado deve
 Ser grato ao menos, flor!
 Se eu fosse tão feliz
 Que te falasse um dia,
 De viva voz diria
 Mais do que a carta diz.
 Mas olha, tal qual é,
 Não rias desse escrito,
 Que pouco ou muito é dito
 Tudo de boa-fé.
 Há nesse teu olhar
 A doce luz da Lua,
 Mas luz que se insinua
 A ponto de abrasar...
 Pareça nele, sim,
 Que há só doçura, embora,
 Há fogo que devora...
 Que me devora a mim!
 Que mata, mas que dá
 Uma suave morte;
 Mata da mesma sorte
 Que uma árvore que há;
 Que ao pé se lhe ficou
 Acaso alguém dormindo
 Adormeceu sorrindo...
 Porém não acordou!
 Esse teu seio então...
 Que encantadora curva!
 Como de o ver se turva
 A vista e a razão!
 Como até mesmo o ar
 Suspende a gente logo,
 Pregando olhos de fogo
 Em tão formoso par!
 Ó seio encantador,
 Delicioso seio!
 Que júbilo, que enleio,
 Libar-lhe o néctar, flor!
 Eu tenho muita vez
 Já visto a borboleta
 Na casta violeta
 Pousar os leves pés;
 E num enlevo tal,
 Numa avidez tamanha,
 Que a gente a não apanha
 Com dó de fazer mal!
 Pegada à flor então
 No pé curvinho e mole,
 As asas nem as bole
 Toda sofreguidão!
 Pousou... adormeceu!
 Só vê, só ouve e sente
 O cálix rescendente
 Daquele mel do céu!
 Pois vê com que prazer
 E com que ardente sede
 Te havia... que não hei-de!...
 Também beijar, sorver!
 Mas eu só peço dó,
 Só peço piedade!
 Mata-me a saudade
 Com duas Unhas só!
 Eu, a não ser em ti,
 Achar alívios onde?
 Escreve-me! responde
 A carta que escrevi!
 Cansado de esperar
 Às vezes quando saio,
 Pensas que me distraio?
 Pois volto com pesar!
 Concentra-se-me em ti
 A alma de tal modo,
 Que esse bulício todo
 Nem o ouvi, nem vi!
 Ninguém te substitui
 Porque só tu és bela!
 Que estrela a minha estrela,
 E que infeliz que eu fui!
 Mas devo-te supor
 Sempre indulgente e boa:
 Escreve-me e perdoa
 Meu violento amor!
 Respeita uma afeição
 Inútil mas sincera!
 Tu és mulher, pondera
 O que é uma paixão.
 Com sangue era eu capaz
 De te escrever; portanto,
 Tinta não custa tanto,
 E não me escreverás?
 Uma palavra, sim,
 Que me não amas... queres?
 Enquanto me escreveres,
 Tu pensarás em mim!
 Só essa ideia, crê,
 Encerra mais doçura
 Que as provas de ternura
 Que outra qualquer me dê!



João de Deus, in 'Campo de Flores'  


1 comentário:

fatima maria disse...

Escreve-me e perdoa
Meu violento amor!
Respeita uma afeição
Inútil mas sincera!

beijinho.