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domingo, 31 de julho de 2016

Pablo Neruda

intenções 
 
    



















Brincas todos os dias com a luz do Universo. 
Subtil visitadora, chegas na flor e na água. 
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto 
Como um cacho entre as mãos todos os dias. 

Desde que eu te amo não te pareces com ninguém. 
Deixa-me deitar-te entre grinaldas amarelas. 
Quem escreve o teu nome com letras de fumo nas estrelas do sul? 
Ah, deixa-me recordar-te como eras então, quando não existias ainda. 

De repente o vento uiva e golpeia a minha janela fechada. 
O céu é uma rede repleta de peixes sombrios. 
Aqui vêm dar todos os ventos, todos. 
A chuva despe-se. 

Passam em fuga os pássaros. 
O vento. O vento. 
Eu só posso lutar contra a força dos homens. 
A tempestade amontoa folhas escuras
e solta todas as barcas que a noite passada amarrou ao céu. 

Tu estás aqui. Ah tu não foges. 
Tu responder-me-ás até ao último grito. 
Encolhe-te a meu lado como se tivesses medo. 
Mas por vezes uma sombra estranha corria pelos teus olhos. 

Agora, também agora, pequena, me trazes madressilvas
e até os seios tens perfumados. 
Enquanto o triste vento galopa matando borboletas 
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa. 

Quanto te terá doído habituares-te a mim, 
à minha alma bravia e solitária, ao meu nome que todos afugentam. 
Vimos tantas vezes Vénus arder, enquanto nos beijávamos nos olhos
e sobre as nossas cabeças se destorciam os crepúsculos em leques giratórios. 

As minhas palavras choveram sobre ti numa carícia. 
Amei desde cedo o teu corpo de nácar ao sol. 
Creio-te mesmo dona do Universo. 
Trar-te-ei das montanhas flores alegres, "copihues", 
avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos. 
Quero fazer contigo 
O que a primavera faz com as cerejeiras.



Pablo Neruda

2 comentários:

fatima maria disse...

Maravilhoso poema!!!!!!!!

As minhas palavras choveram sobre ti numa carícia.
Amei desde cedo o teu corpo de nácar ao sol.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Trar-te-ei das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestas silvestres de beijos.
Quero fazer contigo
O que a primavera faz com as cerejeiras.

bjinhos.

Miriam Lisbeth disse...

Saudações!!!!!

"Subtil visitadora, chegas na flor e na água."

"As minhas palavras choveram sobre ti numa carícia."

Encantador poema,com belíssima e adequada imagem!!!
Amei!!!

Saudações!!!!!!
(Como nos velhos TEMPOS)!
Um sorriso