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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Nuno Júdice //// Trajecto


 Trajecto 
 
 
 

Como se a tua voz se perdesse e encontrasse
em cada esquina do mundo,
como se o teu corpo se iluminasse e escondesse
nos cantos a que o olhar não chega,
na mais longuínqua memória em que te lembro,
no mais próximo instante em que te esqueço,
encho contigo o papel branco de uma rua
que não existe,
desenho os teus gestos na folha abstracta
de um registo de instantes,
sigo a linha obscura de um rio que inunda
as margens da vida,
e desaguo com ele no oceano que se abre
no estuário dos teus braços.

 Enfureço-me em versos exaustos
de um último poema,
vendo-os derramarem-se pela estrofe
numa inundação de palavras;
faço das suas sílabas um campo
de pétalas secas;
canto com lentidão de um pássaro ferido,
e as árvores morrem num outono
de antigas emoções.
Quando a noite chega, acendo a sua treva
com o sol de um pulsar de estrelas.
Podia arrancar da tua boca esse grito
de néon que fez fulgir as anémonas - mas
perdi-o nas cinzas de um silêncio.

 Dizem que atravessas com os teus passos
a solidão do inverno. E vou atrás de ti,
até onde me esperas.


 Nuno Júdice  




1 comentário:

fatima maria disse...

Enfureço-me em versos exaustos
de um último poema,
vendo-os derramarem-se pela estrofe
numa inundação de palavras;
faço das suas sílabas um campo
de pétalas secas;


Muito belo!!!!!
bjinho