FLOR DA PAIXÃO
Uma em cada ombro, rodeando o rosto de olhos fechados, as flores são brancas, como o vestido cujas alças deixam a descoberto
o busto, de onde os braços nascem, cingindo
o corpo até ao ventre. Sigo, então, o desenho das
sobrancelhas, que encontram um reflexo no
princípio de olheiras que pendem
das pálpebras; e quase poderia tocar o nariz,
onde sinto o frémito da respiração
provocado pelos lábios fechados com força,
como se uma tensão interior obrigasse
o corpo a reagir ao peso da alma. Esta
mulher és tu: agora que puxo as alças
do vestido para vora dos braços, e encontro
a nudez do teu corpo sob as flores
da paixão. Mas não quero que abras
os olhos nem os lábios: respira, apenas,
mais devagar, sentindo o perfume
da tarde; e enquanto dispo, pétala a pétala,
o jardim que me abres, ouço a música
de um cair de roupa no chão
do poema.
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