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terça-feira, 25 de outubro de 2022

O EVANGELHO segundo JESUS CRISTO

 O EVANGELHO

segundo
JESUS CRISTO


José Saramago


Por uma coincidência, concerteza muito invulgar, estava de férias na praia, a ler, creio que A Jangada de Pedra de José Saramago, quando a comunicação social anunciou a atribuição ao escritor do Prémio Nobel.

Lembro-me que segurei com força o livro entre as minhas mãos enquanto sentia invadir-me por um misto de enorme orgulho e alegria.

Eu era um admirador de José Saramago desde a leitura do Memorial do Convento. Aquela forma de escrita, aquele enredo, aquela enigmática e misteriosa personagem da Blimunda, deixaram-me surpreendido, encantado.

Recordo, que em determinadas passagens da leitura me levantava, livro nas mãos, dirigia-me à secretária do meu amigo Cláudio e dizia-lhe:

- "Cláudio, ouça-me aqui esta passagem…"

Mas foi o Evangelho segundo Jesus Cristo o livro que mais me tocou e enterneceu.

Um “ayatola” qualquer da religião católica de Roma, que então era secretário de Estado, proibiu a candidatura desta obra a um prémio literário europeu. Triste e revoltado, José Saramago saiu de Portugal e foi residir para Espanha, para a ilha de Lanzarote, que já tive a oportunidade de conhecer e cuja beleza, de uma riqueza agreste no geral e delicada no pormenor, contudo surpreendente, ainda a lembrar a violência das erupções vulcânicas que estiveram na sua génese, parece ter alguma coisa a ver com o autor e a sua obra.

Um pequenino trecho (pags. 363) de uma passagem deste livro, já na sua parte final, livro que a intransigência, o sectarismo e as muralhas que nascem em alguns espíritos, tornaram polémico. Inútil, estúpido, e despropositadamente polémico…:



- “Manhã de nevoeiro. O pescador levanta-se da esteira, olha pela fresta da casa o espaço branco e diz para a mulher, Hoje não vou ao mar, com uma névoa assim até os peixes se perdem debaixo de água. Disse-o este, e, por iguais ou parecidas palavras, também o disseram os demais pescadores todos, duma margem à outra, perplexos pela extraordinária novidade de um nevoeiro impróprio da época do ano em que estamos. Só um, que pescador de ofício não é, ainda que com os pescadores seja o seu viver e trabalhar, assoma à porta da casa como para certificar-se de que é hoje o seu dia, e, olhando o céu opaco, diz para dentro, Vou ao mar. Por trás do seu ombro, Maria de Magdala pergunta, Tens de ir, e Jesus respondeu, Já era sem tempo, Não comes, Os olhos estão em jejum quando se abrem de manhã. Abraçou-a e disse, Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo, depois, com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à agua, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar.”
Aos 88 anos, a morte interrompeu agora, definitivamente, a produção literária de José Saramago... um grande prejuizo para todos nós, independentemente da nacionalidade, convicção religiosa ou ideologia política.




.................. A verdade e a mentira .

 A Verdade

e a
Mentira



Pedro Almodôvar, esse talentoso cineasta espanhol, quando tinha nove anos, no início dos anos 60, mudou-se com a família da aldeia da Mancha, onde nasceu, para uma outra na Estremadura, onde a maioria dos habitantes eram analfabetos, o que foi identificado como uma oportunidade de negócio pela mãe, que logo montou, em sociedade com o filho, um comércio de leitura e escrita de cartas.

Como tinha uma caligrafia muito bonita, ele escrevia as cartas, enquanto a mãe se encarregava da leitura. Cedo, Pedro começou a reparar que a mãe romanceava o que estava escrito nas cartas, e um dia não se conteve e perguntou-lhe:

- Por que lhe disseste que ela sente saudades da avó e se lembra muitas vezes dela a lavar a roupa numa bacia cheia de água à porta de casa, se na carta nem sequer fala na avó?

Ao que a mãe o calou com uma resposta desarmante:

- Mas viste como a avó ficou contente?!!!

“A realidade precisa da ficção para ser mais completa, mais agradável, mais vivida” escrevia o cineasta no dia a seguir ao da morte da mãe.

Um sábio de outro século, de outra arte e de outra geografia, Fiodor Dostoievski tinha chegado à mesma conclusão quando nos avisou:

- “Para tornar a realidade mais verosímil precisamos necessariamente de adicionar a mentira”




E. Ethelbert Miller

 

Eu posso sentir as noites de verão ficando frias
As folhas marrons caindo no chão das árvores 
Um homem leva seu cachorro até a loja da esquina
Eu o vejo latir e pular e lutar contra sua coleira 
Do outro lado da rua um menino implora por mudança
Sua mãe se curva e limpa sua boca com amor
Na varanda, dois velhos compartilham vinho e fumam 
A polícia passa em seus carros preto e branco 
No apartamento acima um crime de blues
Um jovem gemendo por uma mulher que se foi


E. Ethelbert Miller




Sousa Dias

 

deixa-me ser a tua casa 
o corpo inteiro do teu habitar 
deixa-me ser a porta quotidiana
aberta pela tua mão para o teu entrar 
deixa os meus lábios serem o fogo em que te esqueças
e os meus olhos a luz que queiras respirar 
deixa-me ser de pão mesa cama 
e o velho livro de versos para à noite folhear 
deixa-me ser o interior do teu repouso 
deixa-me ser o teu ficar 
deixa-me ser o teu estar


Sousa Dias




"Banhistas", 

de Paul Cézanne, pintor francês, que morreu  em 1906 



segunda-feira, 24 de outubro de 2022

............... a esperar por mim!

 

CANTO BRANCO DE AMOR

Amo a brancura de tua pele

quando me fere

com sua doce entrega. 

O bico azul de teus seios, 

fontes de mel, nascedouros de  prazeres,

portos de precipícios de desejos, 

brinquedos lúdicos de sonhos infantis. 

Ainda sinto teus beijos,

muito tempo depois, 

no meu sono 

e ainda guardo os ardores insaciados,

os desejos guardados, 

ansiosos por poderem se expandir 

atrás de ti, 

como fantasmas da paixão,

que rondam as terras desconhecidas

atrás da flor fugaz do gozo, 

flor preciosa, 

entre as pernas

nos brancos campos de neves 

onde nunca chegaram 

a maciez ávida de minha língua, 

seca ainda, chorosa à míngua

dos líquidos que hão de brotar, 

do germinar sem fim 

do amor que há em ti,

que há em mim 

e quer te ver esposa, menina , mulher

a gemer, gritar, dizer 

que existe sim, 

que te guardastes tanto, 

de modo quase santo, 

a esperar por uma festa assim, 

a esperar tanto amor, 

a esperar por mim! 




domingo, 23 de outubro de 2022

............... Zé .......................

 CARTA PARA JOSEFA


-  MINHA AVÓ

 De José SARAMAGO






Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. 

Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.

Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. 

Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena.

O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior.

Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!.

É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.

Zé






José de Sousa Saramago ( Azinhaga , 16 de novembro de 1922 - Tías , 18 de junho de 2010 ) foi um escritor português . Em 1998 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura . A Academia Sueca destacou sua capacidade de "tornar uma realidade indescritível compreensível, com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia". 







"" R y k @ r d o "

 domingo, 23 de outubro de 2022

Pintaria de amor o teu coração

 


Trago no pensamento, o teu olhar puro, sincero
A tua ternura nas palavras que desatas ao vento
No sorriso que ofereces com bondade e esmero
Na virtude que adoça, como mel em sentimento
.
Trago no olhar os gestos, dádivas de esplendor
A visão dos teus passos, quando livre caminhas
O sabor dos teus beijos qual unguento de amor
Como vistosas uvas, que embelezam as vinhas
.
Soubesse eu como te poupar às ondas bravias
E conseguisse amar-te todas as noites, e dias
Como te amo, através dos delírios da emoção
.
Dar-te-ia as chaves da nobreza da eloquência
Iluminando a tua alma tão pura de excelência
E pintaria de amor, esse teu bondoso coração
...

Para todas as amigas e amigos um feliz domingo
...
"" R y k @ r d o "