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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Carta aos mortos


    Amigos, nada mudou
    em essência.

    Os salários mal dão para os gastos,
    as guerras não terminaram
    e há vírus novos e terríveis,
    embora o avanço da medicina.
    Volta e meia um vizinho
    tomba morto por questão de amor.
    Há filmes interessantes, é verdade,
    e como sempre, mulheres portentosas
    nos seduzem com suas bocas e pernas,
    mas em matéria de amor
    não inventamos nenhuma posição nova.
    Alguns cosmonautas ficam no espaço
    seis meses ou mais, testando a engrenagem
    e a solidão.
    Em cada olimpíada há récordes previstos
    e nos países, avanços e recuos sociais.
    Mas nenhum pássaro mudou seu canto
    com a modernidade.

    Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
    relemos o Quixote, e a primavera
    chega pontualmente cada ano.

    Alguns hábitos, rios e florestas
    se perderam.
    Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
    ou toma a fresca da tarde,
    mas temos máquinas velocíssimas
    que nos dispensam de pensar.

    Sobre o desaparecimento dos dinossauros
    e a formação das galáxias
    não avançamos nada.
    Roupas vão e voltam com as modas.
    Governos fortes caem, outros se levantam,
    países se dividem
    e as formigas e abelhas continuam
    fiéis ao seu trabalho.

    Nada mudou em essência.

    Cantamos parabéns nas festas,
    discutimos futebol na esquina
    morremos em estúpidos desastres
    e volta e meia
    um de nós olha o céu quando estrelado
    com o mesmo pasmo das cavernas.
    E cada geração , insolente,
    continua a achar
    que vive no ápice da história.

    Affonso Romano de Santa’Anna

1 comentário:

fotógrafa disse...

...e é assim mesmo, a roda da vida.
abraço