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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Mário Quintana

 




                                  POEMA DE AMOR



SE TU ME AMAS, AMA-ME BAIXINHO

NÃO O GRITES DE CIMA DO TELHADO

DEIXA EM PAZ OS PASSARINHOS

DEIXA EM PAZ A MIM !

SE ME QUERES A MIM,

ENFIM,

TEM DE SER DEVAGARINHO, AMADA,

QUE A VIDA É BREVE, E O AMOR MAIS BREVE AINDA


Mário Quintana





quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Egito Gonçalves

 



                                Com palavras

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs , o rosto
E saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
Para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
Em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
Para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
Roxas de silêncio. De que servem
Asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos , das palavras, as mais belas;
As que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
As poderei navegar; se alguma vez
Dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas me deito, me levanto,
E faltam-me palavras para contar...
Egito Gonçalves




................ Hamilton Ramos Afonso

 



                      A tua voz

quando a ouço
transporta-me
pela mão
da serenidade
a um mar de
aguas tranquilas
No timbre viaja
a ternura
a sensualidade
tom modulado
pelo volume
da firmeza e
da limpeza
com que
me transmite
tranquilidade...
A tua voz
quando a ouço
é um abraço
balsamo
de ternura
e sensualidade..

Hamilton Ramos Afonso




terça-feira, 20 de outubro de 2020

Casimiro de Abreu /// Desejo

 


                        Casimiro de Abreu /// Desejo

Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só' por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d'inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como d'harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!
Casimiro de Abreu




.......................... Só. ........................

 



                      



[só]
Poeta só.

Porque só é a solidão de um poema.
Nevoeiro é o que vejo dentro do peito.
Rarefeito o racional, banal o carnal.
Bacanal de emoções vãs.
Só está a solitude de uma prosa.
Nua de versos ou ritmos.
Crua e incerta
inserta a solidão no poeta.
Fico só com estas letras.
Chove do lado de fora da janela,
dentro do peito só nevoeiro,
orvalho e melancolia.
Só.

Texto: Andreia Marques
Foto: Ana Gilbert

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Além, bem além da pandemia

 




                                                

Além, bem além da pandemia

 


São esses dias longos, isolados, sem começo nem fim. Como se fossem fios de borrachas esticados em que não sei que dia é ou que horas são, que os recebo em oração. Neles escuto atento todas as canções que embalaram o nosso amor nas mudanças de estações. Sei que a pandemia é um grande mal, um tempo de dor, doença e morte, porém, embora a muitos não conforte, assuste, amedronte, não é o meu caso. Olho o mundo pela janela, uso a máscara como se fosse uma tela provisória, um desconforto passageiro.  O que, agora, nos maltrata como uma recordação da fragilidade humana é a prova real de que a vaidade engana. Não tenho, porém, nenhum dó de mim por estar solitário assim. Este tempo de sofrimento é como se fosse uma antecipação do prazer. É como o calor enorme antes da chuva. É do rio a curva quando se dobra para o grande e imenso mar onde há de se encontrar o sal do amor, da beleza, do prazer. É a grande provação antes  de cair, por fim,  nos carinhos dos teus braços.

são reis

 



                      são reis //// esta noite

Esta noite quero escrever um poema na tua pele
que seja feito de palavras e gemidos
de gestos que vêm de dentro
de ternura pura
Esta noite quero que as palavras se escrevam
e permaneçam escritas
muito para além do toque e dos beijos
das chegadas e dos abraços
e das portas de saída
Esta noite quero que os nossos corpos
sejam e saibam a poesia
são reis