Seguidores

segunda-feira, 30 de março de 2020

............ POEMA.






     
Pedido

Quando a morte vier, meu amor,
fechemos os olhos para a olhar por dentro
e deixemos aos nossos lábios o murmúrio
da palavra branda jamais pronunciada
e às nossas mãos a carícia dispersa;
relembremos o dia impossível,
belo por isso e por isso desprezado,
e esqueçamos o que nos não deixaram ver
e o resto que sobrou do nada que possuímos;
deixemos à poesia que surge
o pranto de quem a trocou para comer
e os passos sem rumo pelas ruas hostis;
deixemos à carne o que não alcançámos,
e morramos então, naturalmente...

Tomaz Kim


A imagem pode conter: ar livre

Poema em tempo de Coronavírus





      

Poema em tempo de Coronavírus


A brutalidade da vida é uma coisa normal.
Como sou delicado
tento fazer poesia 
mesmo quando uma pandemia
me isola das coisas e pessoas que amo. 
Sou naturalmente indefeso
contra qualquer tipo de vírus.
Pego gripe 
com a facilidade que os grandes goleiros 
pegam pênaltis. 
E não gosto muito de longas conversas 
por celular 
nem de interações digitais demais. 
Meus receios são tão maiores ainda
porque sei que tudo é frágil 
ao menor contacto.
E me entrego aos únicos prazeres 
que me parecem possíveis:
dormir a qualquer hora e sem limites
(que a preguiça sempre foi uma das minhas qualidades),
ler sem a menor regra,
ouvir todo e qualquer tipo de música, 
comer sardinha, até mesmo de lata, 
mastigar castanha do Pará, 
e me embriagar 
com algumas taças de vinho 
porquê, de qualquer forma,
não posso viver sem sonhar!

domingo, 29 de março de 2020

Jorge Palma - Encosta-te a mim






        Jorge Palma - Encosta-te a mim
Encosta-te a mim, 
nós já vivemos cem mil anos 
encosta-te a mim, 
talvez eu esteja a exagerar 
encosta-te a mim, 
dá cabo dos teus desenganes
não queiras ver quem eu não sou, 
deixa-me chegar. 
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviver 
em nome da terra, 
no fundo p´ra te merecer 
recebe-me bem, 
não desencantes os meus passos 
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi, 
estou a partilhar contigo 
o que não vivi, hei-de inventar contigo 
sei que não sei, 
às vezes entender o teu olhar 
mas quero-te bem, 
encosta-te a mim.
Encosta-te a mim, 
desatinamos tantas vezes 
vizinha de mim, 
deixa ser meu o teu quintal 
recebe esta pomba 
que não está armadilhada 
foi comprada, foi roubada, 
seja como for.
Eu venho do nada, 
porque arrasei o que não quis 
em nome da estrada, 
onde só quero ser feliz 
enrosca-te a mim, 
vai desarmar a flor queimada 
vai beijar o homem-bomba, 
quero adormecer.
Tudo o que eu vi, 
estou a partilhar contigo
o que não vivi, 
um dia hei-de inventar contigo 
sei que não sei, 
às vezes entender o teu olhar 
mas quero-te bem,
encosta-te a mim

sábado, 28 de março de 2020

Robinson Rodriguez Herrera


AINDA UM POETA DE COSTA RICA





        CUMPLICIDADE 

Nós temos conspirado,
Amada minha, contra o mundo:
Urdindo íntimas tramas
encontro furtivos,
atentando
contra o falso pudor
das beatas,
pintando as avenidas
com nossos nomes,
buscando a mesma escuridão
que os fugitivos,
inventando chaves e segredos,
resistindo a batalhas
cotidianas,
Imersos
em nossa causa
apaixonada e clandestina.

Robinson Rodriguez Herrera    



Oswaldo Montenegro






      POESIA
Metade
Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Vinicius de Moraes







   Soneto da Mulher ao Sol

Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo umido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixes a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...

Vinicius de Moraes    
A imagem pode conter: texto

quinta-feira, 26 de março de 2020

Almada Negreiros






      POESIA
Aconteceu-me
Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros