Santo e Senha
Deixempassar quem vai na sua estrada.Deixem passarQuem vai cheio de noite e de luar.Deixem passar e não lhe digam nadaDeixem, que vai apenasBeber água de sonho a qualquer fonte;Ou colher açucenasA um jardim que ele lá sabe, ali defronte.Vem da terra de todos, onde moraE onde volta depois de amanhecer.Deixem-no pois passar, agoraQue vai cheio de noite e solidãoQue vai ser uma estrela no chão.Miguel TorgaFoto retirada do Google
Mas que sei eu
Mas que sei eu das folhas no outonoao vento vorazmente arremessadasquando eu passo pelas madrugadastal como passaria qualquer dono?Eu sei que é vão o vento e lento o sonoe acabam coisas mal principiadasno ínvio precipício das geadasque pressinto no meu fundo abandonoNenhum súbito súbdito lamentaa dor de assim passar que me atormentae me ergue no ar como outra folhaqualquer. Mas eu que sei destas manhãs?As coisas vêm vão e são tão vãscomo este olhar que ignoro que me olha.Ruy BeloFoto:Piotr Kowalik
Amo-te no intenso tráfego
Amo-te no intenso tráfegoCom toda a poluição no sangue.Exponho-te a vontadeO lugar que só respira na tua bocaÓ verbo que amo como a pronúnciaDa mãe, do amigo, do poemaEm pensamento.Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncioDos teus lábios.Molda-me a partir do céu da tua bocaPorque pressinto que posso ouvir-teNo firmamento.Daniel FariaImagem retirada do Google
Sem outra palavra para mantimento
Sem outra palavra para mantimentoSem outra força onde gerar a vozEscada entre o poço que cavaste em mim e a sedeQue cavaste no meu canto, amo-teSou cítara para tocar as tuas mãos.Podes dizer-me de um fôlegoFrase em silêncioHomem que visitasÓ seiva aspergindo as partículas do fogoO lume em toda a casa e na paisagemFora da casaPedra do edifício aonde encontroA porta para entrarCandelabro que me vens cegando.SolQue quando és nocturno andoCom a noite em minhas mãos para ter luz.Daniel FariaImagem retirada do Google
Amar a morte
Amar de peito aberto a morte.Não de esguelha, de frente.Amar a morte,digamos,despudoradamente.Amá-la como se amauma bela mulhere inteligente.Amá-ladiariamentesabendo que por maisque a amemosela se deitarácom uns e outrosindiferente.Affonso Romano de Sant'AnnaFoto:Christian Coigny
O malandro arrependido
Ela tinha uma cintura bem torneadacadeiras cheiase caçava os machos nos arredores da Madeleine.pelo seu jeito de me dizer: Meu anjote apeteço?eu vi logo que se tratava de uma debutante.Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.Ela tinha gênio,mas sem técnica um dom não é nada.Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.Sentindo-me cheio de piedade pela donzelaensinei-lhe os pequenos truques de sua profissãoe ensinei-lhe os meios para fazer logo fortunarebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,o difícil é saber mexer bem a bunda.Não se mexe a bunda da mesma maneirapara um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.Rapidamente instruída por meus bons ofíciosela cedeu-me uma parte de seus benefícios.Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.Quando a coitada voltava para casa sem nadadava-lhe umas porradas mais do que com razão.Será que ela se lembra ainda do bidê comque lhe rachei o crânio?Uma noite, por causa de manobras duvidosasela caiu vítima de uma doença vergonhosa,então, amigavelmente, como uma moça honestapassou-me a metade de seus micróbios.Depois de dolorosas injeções de antibióticosdesisti da profissão de cornudo sistemático.Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita loucae, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,correu a suportar as infâmias do bordel.Dizem que ela se vendeu até aos tiras!Que decadência!Já não existe mais moralidade públicana nossa França!Georges BrassensFoto:Rene Asmussen
AutobiografíaAmado Nervo¿Versos autobiográficos ? Ahí están mis canciones, allí están mis poemas: yo, como las naciones venturosas, y a ejemplo de la mujer honrada, no tengo historia: nunca me ha sucedido nada, ¡oh, noble amiga ignota!, que pudiera contarte. Allá en mis años mozos adiviné del Arte la armonía y el ritmo, caros al musageta, y, pudiendo ser rico, preferí ser poeta. -¿Y después? -He sufrido, como todos, y he amado. ¿Mucho? -Lo suficiente para ser perdonado...Autobiografia Versos autobiográficos? Aí estão as minhas canções, Ali estão meus poemas: eu, como as nações venturosas, e a exemplo da mulher honrada, não tenho história: nada me sucedeu nunca, Oh! Nobre amiga desconhecida!, que poderia te contar. Além de que na juventude adivinhei da arte a harmonia e o ritmo, queridos do maestro, e, podendo ser rico, preferi ser poeta. - E depois? - Como todos sofri e amei. Muito? - O suficiente para ser perdoado....