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segunda-feira, 2 de maio de 2011
Inúmera....
Que é daquela ribeira que reablita a pedra
Que é daquela cidade que dissolve o ciúme
Rasgavam-se crateras E eu à tua espera
Por entre as mãos do vento rolava um alaúde
As noivas dos abetos vestiram-se de luto
As aias dos abutres caminhavam de rojo
Das trinta e nove amantes que me roubaram tudo
trezentas e noventa desfizeram-se em lodo
Volver as noves musas em noventa viúvas
é aliás tão fácil tão fácil que arrepia
Basta acender um zero depois de cada uma
e mergulhar os braços num poço de neblina
É de lá que ressurge negando a aritmética
de lágrimas coberta de lágrimas tão nua
Ah pensar que podias ter sido a quadragésima
És afinal a única És talvez a inúmera
David Mourão-Ferreira
domingo, 1 de maio de 2011
Amor e risco....
Não pense que te esqueço!
Não há possibilidade de te esquecer,
Enquanto o meu coração bater,
Enquanto houver em mim
Este desejo que me impele a pensar em ti
E me arrepia a pele e me faz sonhar.
Se, muitas vezes, mergulho no silêncio;
Se parece que nem me importo
Onde andas, onde estais,
É que meu coração precisa de alguma paz.
É que este fogo que me queima
Me faz querer muito mais do que eu posso dar,
Enfim, meu amor, é que não posso correr o risco
De morrer de tanto amar!
Ainda Cristina Maya....
Cristina Maya
Todo lo llena tu presencia:
lo distante y lo próximo,
lo pequeño y lo grande,
el delicado nudo de los sueños.
El mundo es una larga huella tuya
y yo piso la tierra
desterrando el olvido.
Presença
Tudo está pleno de tua presença:
o distante e o próximo,
o pequeno e o grande
o delicado ninho dos sonhos.
O mundo é uma seqüência longa tua
e eu piso a terra
desterrando o esquecimento.
Que música escutas tão atentamente....
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade
Imagem retirada do Google
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