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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

José Carlos Ary dos Santos, in "Obra Poética", pág.51, Edições Avante

 




                         

Poetas Escolhidos–XI –“Desafio” à Vida



Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos
O que os homens não querem.
Ao vento arremessamos
As verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos.
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos
Mas que somos.

José Carlos Ary dos Santos, in "Obra Poética", pág.51, Edições Avante

............... OUTONO

 



                       Outono...

O perfume de Outono chega
na brisa que toca na pele
na chuva de luz
das folhas,que acariciam os meus sentidos.
O vento a soprar a fragrância
dos tons,sons,
da alma
que abraça a melancolia do Outono.
Cada folha que toco
das páginas dos teus dedos
são folhas de palavras
que me envolvem em ti.



De , antonio lobo antunes

 



                   "O sítio onde moro em Lisboa é uma aldeia. Tem merceariazinhas, lojecas, cabeleireiros pequenos, uma constelação de restaurantezitos, sapateiros, costureiras, capelistas. Não o habitam pessoas ricas, o que se percebe pelos automóveis, pela roupa, pelas caras. Toda a gente se conhece. Há pombos a sujarem os tejadilhos

(ainda bem que as vacas não voam)
gatos à Stuart Carvalhais e, no que respeita ao meu quarteirão, do algeroz para cima sou o melhor escritor. Ignoro se sabem o que faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor doutor e quem me trate por senhor António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um carpinteiro. Aqui ao lado, sempre que saio, um grupo de reformados joga à moeda. Digo
- Boa noite meus senhores
desbarretam-se
- Boa noite senhor doutor
e o jogo continua atrás de mim, solene. É à hora alegre e triste em que os candeeiros começam a acender-se e uma fininha melancolia, como escreveu o poeta cabo-
-verdiano Jorge Barbosa
(quem aqui não sentiu esta nossa fininha melancolia)
entra devagar em nós, doce, quase agradável, com a lembrança das pessoas de quem gostámos dentro, transparentes, a sorrirem. Caixotes de lixo cambulhando para a rua. Mulheres sentadas na soleira e o senhor António passando por elas com o livro na cabeça e a saudade dos mortos. Há armazéns também, eternamente fechados. Nas janelas iluminadas lustres, ângulos de armário, prateleiras forradas e eu cheio de ternura por aquilo tudo. Nem um pingo de vento nas árvores. O que estarás a fazer? A entrar em casa, a jantar? Daqui a poucos dias desatam a tornar-se pequenos e o cinzento deles a desbotar no meu peito, a fininha melancolia engrossando. Jorge Barbosa
Onde pára aquela que morava do outro lado da cidade, acolá no alto, de onde se via o mar?
E onde páras tu, senhor António? Metes a chave no buraquinho, entras e a sala enorme, escura. Livros, quadros, retratos. Os cortinados escondem os prédios em frente, o escritório negro, negro. Onde pára aquela que morava do outro lado da cidade, acolá no alto, de onde se via o mar? Fininha melancolia vem e cobre-me. Não me abandones neste momento que preciso de coisas suaves, dedos na minha testa, uma voz que me garanta ter um lugar no mundo. Não derivado aos livros, pelo menino que sou. Que desamparo às vezes: tenho esperança de escondê-lo bem. Sou tão importante eu, sou um grande autor e acabei de nascer. Uma impressão num dente mas a perspectiva da broca
- Ora cá temos uma cáriezinha desagrada-me. E os caixotes do lixo cambulhando para a rua. Vivo só. Não me custa. Quer dizer às vezes, à noite, custa, mas faz de conta que não custa. Ando a escrever um livro que não faço a menor ideia quando acabarei: são tão difíceis as palavras e demorei anos a dar conta disso. Ao princípio era canja. Até a gente perceber que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal: então começa a angústia. Um pouco mais tarde percebe-se que há uma diferença, ainda maior, entre escrever bem e obra-prima: então a aflição é completa. De forma que aqui ando eu, de caneta na mão, na minha aldeia no centro da cidade em que acabado o jantar mulheres da vida, travestis. Bares de alterne perto, com uma fila de taxis à espera: tudo isso cheira a miséria rasca. Onde pára aquela que morava no alto da cidade? Num degrau à espera? Nasci de uma mulher e há ocasiões em que me esqueço disso. Devia lembrar-me o tempo inteiro.

" (2008) ANTÓNIO LOBO ANTUNES « O sítio onde moro »




 



                      




Provavelmente, aqui para os meus lados, também se pensa numa pausa. Desta vez não por cansaço mas porque me parece que uma das minhas características está a ser posta em causa: o gosto pela comunicação.
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Cecília Meireles

 



                    

Cântico IV




Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.


Cecília Meireles




Paraíso. David Mourão-Ferreira

 

                      


Paraíso




Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira




                                   

   

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Egito Gonçalves

 



                     

Photo: Man Ray



































O areal é o desenho branco do teu corpo
E o rio corre como se tu não existisses...
Sonolentas pálpebras cerrando-se
As nuvens cortam as manchas do luar.

Aguardando o quebrar da tua voz
Que a sulcará de ternura e de ruído
A paz ronda a silenciosa margem
Onde se estende o teu vulto imaginado.



Egito Gonçalves