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quinta-feira, 26 de março de 2020

............ Sonhos de neve







          SONHOS DE NEVE
Se eu fosse um pintor
teu corpo branco
pintaria
como se fosse uma flor de neve,
sutil, quase irreal, tão leve
como a pureza e a brancura
da alvorada
de um dia inesquecível.
Se eu fosse um escultor
faria de teu corpo
um monumento de amor
do qual jorrariam
flocos de prazer,
torrões de açúcar,
com um brilho nítido,
incomparável
que só poderia ser teu.
Se eu fosse um músico
faria para o teu corpo
uma sonata branca,
pura, musicalmente clara,
com uma inocência de notas
tão cândidas
que até os santos
se perderiam
na alvura de seu ritmo.
Infelizmente não tenho nenhum talento!
Sou apenas um viajante
por teu corpo de leite
na busca incansável do deleite,
vagando por tuas curvas e saliências,
sem mapa e sem um fio sequer,
aprendendo na branquidão de uma mulher
o amor, o prazer e o sonho de ser feliz e viver!

quarta-feira, 25 de março de 2020

Escrito por. Angelina Alves





POESIA
Angelina Alves

Fecho os olhos
Para só ver
A imagem do teu sorriso...
Contemplar a doçura do teu olhar
E viver meu paraíso
Uma noite de luar
Deixei as pegadas na areia quente
Meus pés caminharam junto a ti
Fecho os olhos
E flutuo na imensidão real sentindo o vento.
Sinto o barulho da gente
Que brinca no tempo
Contente.
Entrelacei meus dedos nos cabelos
Acariciados por tuas mãos
Abri meus braços abracei o mar
Abracei o mar contigo em elos 
De paz e harmonia
Fecho os olhos
Hasteamos juntos
A nossa bandeira de amor
Bem alta
Para mostrar com orgulho
Nosso sentimento tão nobre e grandioso
Vejo na minha frente
O mar imenso e majestoso
Azul perfeito
Surpresa maior
Não poderias ter feito.
O mar acalma-me tu sabes
Ajuda-me a refletir
Sempre foi o meu companheiro
Nas horas difíceis
Quem me fez sorrir
Fecho os olhos
E vejo os teus que docemente
Se aproximam devagarinho
Dos meus.
Sinto a nossa respiração
Extasiada no perfume da maresia
Soltei meus lábios
O teu beijo flutuou em mim
Como pura magia.

Escrito por. Angelina Alves

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terça-feira, 24 de março de 2020

Cecília Meireles






Renova-te
de Cecília Meireles
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços, para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

NALA MARQUES






DESEJO IMPOSSIVEL
Eu sempre desejei o impossivel!...
E a maior parte das vezes nem sequer 
O possivel consegui tocar...
Cheguei a querer vêr o invisível!
Até as cores do arco-íris tentei pegar.
Cresci, e a lição não aprendi...
Mal te vi, logo te desejei!
O jogo começou...
Meu olhar correu atrás de teu,
E tu,...tu fosses meu
Ao primeiro beijo que te dei.

Àh!..Mas eu quis mais! Quis demasiado! 
A minha forma de querer é insaciável!...
Não sei se é meu destino, se é meu fado
Tudo quanto desejo...se torna intocável...

NALA MARQUES

segunda-feira, 23 de março de 2020

POEMA DA ESPERA






     



Talvez seja melhor
Que não venhas.
Ou, melhor ainda se nunca
tivesses vindo.

Porque se assim fosse
Não sentiria
O que estou sentindo
Tamanha ausência de significado.

Talvez seja melhor
Que não venhas.
Podes não ser
Mais nada do que foi
E só matar
O que houve entre nós dois.

Tanto tempos separados
Deve fazer diferença
E se, de repente,
Somos dois estranhos?

Não, é melhor que não venhas.
Melhor permanecer, como agora,
Sem saber por quais caminhos,
Lugares e bancos
Os teus sonhos repousam.

No entanto há uma parte de mim
Que insiste
Em que, de fato, jamais partistes.
E ainda sonha
Com os dias gloriosos
De tua volta
E me sussura
Que não te esquecerei.

Talvez seja melhor que não venhas-
Repito, ansioso, por ouvir tua voz rouca
Me chamar, novamente, de “Meu lindo”!

domingo, 22 de março de 2020

David Mourão-Ferreira





     

David Mourão-Ferreira








    

Photo: Roger Dixey


























Morte, que te insinuas
como um navio torto,
avançando às escuras
no meu corpo,

do teu cruzeiro turvo
as rugas do meu rosto
vão marcando o percurso
rancoroso!

Conheces-me por dentro.
Por fora me assinalas.
E contas com o tempo.
E tens mapas

do regime dos ventos.
E gráficos. E cartas.
E não te impacientas,
porque sabes,

de antemão sabes tudo:
desde o começo, o porto
melhor para o mergulho
da âncora no lodo!


David Mourão-Ferreira

sábado, 21 de março de 2020






Poema em tempo de Coronavírus


A brutalidade da vida é uma coisa normal.
Como sou delicado
tento fazer poesia 
mesmo quando uma pandemia
me isola das coisas e pessoas que amo. 
Sou naturalmente indefeso
contra qualquer tipo de vírus.
Pego gripe 
com a facilidade que os grandes goleiros 
pegam pênaltis. 
E não gosto muito de longas conversas 
por celular 
nem de interações digitais demais. 
Meus receios são tão maiores ainda
porque sei que tudo é frágil 
ao menor contato.
E me entrego aos únicos prazeres 
que me parecem possíveis:
dormir a qualquer hora e sem limites
(que a preguiça sempre foi uma das minhas qualidades),
ler sem a menor regra,
ouvir todo e qualquer tipo de música, 
comer sardinha, até mesmo de lata, 
mastigar castanha do Pará, 
e me embriagar 
com algumas taças de vinho 
porquê, de qualquer forma, 
não posso viver sem sonhar!