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domingo, 25 de agosto de 2019

Miguel Torga





POESIA
Súplica
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

LÍLIA TAVARES






POESIA

TERRA

Beijas-me como o escultor
que molda e dá forma
à argila branda e molhada.
Terra me sinto e respiro
pelos poros mais ocultos
que a noite oferece e nos envolve.
Não é macia esta penetração azul
de grânulos e rumores longamente à espera.

Soltam-se silvos de vento e murmúrios
profundos nesta escultura
que tem voz. E desejo. E cheiro a terra.
Porque há beijos mais profundos do que as
águas.

LÍLIA TAVARES
Em RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS (Coisas de Ler Ed., 2012)

sábado, 24 de agosto de 2019

Hamilton Ramos Afonso






Regresso

Admito que penses...
que um dia eu regresse a ti, 
tantas vezes me disseste
« que se o fizeres será ao meu sorriso
que regressarás ».

Porém, 
quero que saibas
que estou onde sempre estive,
onde celebrei sempre a minha vida,
numa espécie de toca onde me acolho
para gozar o merecido silêncio
que me fortalece a vontade
e apenas saio para « acender as estrelas» 
na esperança que ainda as procures 
no firmamento…

Nesta certeza 
de quem regressa a quem, 
quero apenas dizer-te
que te acolherei , 
inteira, 
nua,
em abraço
onde ambos possamos ser ,
inteiros,
nus, 
sem baias…

Hamilton Ramos Afonso

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

De helena guimarães






POEMA
Quando ontem , na conversa,
os teus olhos, ora fugídios,
mergulharam nos meus
demoradamente.
Houve um singular instante
em que algo indefenido aconteceu.
As palavras voaram no espaço
e tudo à nossa volta se quedou,
repentinamente.

O teu olhar , até aí indiferente,
surpreendeu-se , tornou-se vivo,
inquieto, procurou-me a alma,
interrogativamente.
Quebraram-se as linhas duras de teu rosto,
adoçaram-se os teus lábios num sorriso
e comungamos ternura,
delicadamente....


De helena guimarães
do livro "" Intimidades ""/// 1994


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Maria do Rosário Pedreira






POEMA
Facto...
Nunca te esqueci - é este um amor maior 
que atravessa a vida e resiste à cicatriz 
do tempo. O que ontem me disseste agora 
o ouço, como se nada tivesse interrompido 
a magia do instante em que as nossas bocas 
se aguardavam na distância de um beijo e 
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja 
lombada acariciei todos os dias que durou a tua 
ausência como uma nesga de sol acaricia 
um rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar 
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os 
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto 
para qualquer aventura - e ainda o cão deitado 
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

Porque os anos não contam para quem assim ama.
Maria do Rosário Pedreira

©JGD Jose Gabriel Duarte






POESIA
Mulher-Flor

Sinto luz no brilho dos teus olhos
Um rasgar de desejo nos teus lábios
Um leve aroma a jasmim
Que me faz voltar
Que me faz sentir de onde vim.
O vento frio da noite
Que te arrefecia
Não amanheceu
No regar de espuma da noite
Acalmou.
O cálice do teu corpo
Voltou a florir
Renasceste mulher
Botão de flor
Querendo abrir...

©JGD Jose Gabriel Duarte
in No Outro Lado de Mim (Chiado Editora)


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e closeup

Adam Zagajewski







Photo: Vivian Maier







































Entre o computador, o lápis e a máquina de escrever
passa metade do meu dia. Um dia isso perfará metade dum século.
Vivo em cidades estrangeiras e às vezes converso
com pessoas estranhas sobre coisas que me são estranhas.
Ouço muito música: Bach, Mahler, Chopin, Shostakovich.
Na música encontro força, fraqueza e dor, três elementos naturais.
O quarto não tem nome.
Leio poetas, vivos e mortos, aprendo neles
a tenacidade, a fé e o orgulho. Tento compreender
os grandes filósofos - na maioria dos casos consigo
apanhar apenas farrapos dos seus preciosos pensamentos.
Gosto de dar longos passeios pela rua de Paris
e olhar para os meus semelhantes, impelidos pelo inveja,
cobiça ou raiva; gosto de observar a moeda de prata,
que passa de mão em mão e devagar perde
a sua forma redonda (apaga-se o perfil do imperador).
A meu lado crescem árvores que não exprimem nada,
a não ser uma verde e indiferente perfeição.
Pelos campos vagueiam pássaros negros
que continuam esperando, pacientes como viúvas espanholas.
Já não sou novo, mas há pessoas mais velhas do que eu.
Gosto do sono profundo, em que cesso de existir,
e de rápidas corridas de bicicleta pela estrada campestre,
quando os choupos e as casas
se dissolvem como cúmulos em céus ensolarados.
Às vezes nos museus os quadros falam para mim
e de repente desvanece-se a ironia.
Adoro olhar o rosto da minha mulher.
Aos domingos, telefono ao meu Pai.
De duas em duas semanas encontro-me com os verdadeiros amigos,
desse modo mantemos a fidelidade recíproca.
O meu pais libertou-se dum mal. Gostaria
que a isso se seguisse outra libertação.
Será que posso ser útil? Não sei.
Não sou, na realidade, um filho do mar,
como escreveu sobre si mesmo António Machado,
mas sim um filho do ar, da hotelã-pimenta  e do violoncelo,
e nem todos os caminhos do alto mundo
se cruzam com os caminhos da vida que, por enquanto, 
me pertence.


Adam Zagajewski