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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Cidália Ferreira





As cortinas fecham-se...as vozes calam-se.

As cortinas fecham-se ao anoitecer
O sol de tão quente, gelou
A aragem acelerou-se no tempo
As vozes calam-se
As paredes em ecos de silêncio
Tornaram-se o refúgio, o desabafo
De uma solidão anunciada
Que acontece a qualquer momento

Janela fechada, paredes mudas, tristeza
Lá fora, de repente, tudo se esvai
Fechou-se o tempo que existia dentro de mim
Rosto vazio, sem o sorriso de firmeza
Porque será que o tempo me trai
E não me deixa libertar, antes do fim

Será um estranho sentimento, tão meu
Um vento agreste que me desarma
Que me deixa sem jeito
Sentimento repentino de quem ama
As cortinas fecham-se sem esperança
Num anoitecer onde me fazes falta
Só meu coração sabe como tremeu
Quando o sol foi embora... e anoiteceu

Cidália Ferreira
A imagem pode conter: interiores


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Albano Martins






ACONTECIMENTO

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.


Albano Martins

A imagem pode conter: planta, flor, natureza e ar livre

(dos) escureceres... Al Berto






(dos) escureceres...

os ossos encheram-se de lodo e 
eu comprei um albatroz empalhado 
para te vigiar a alma - ao anoitecer

é com os dedos incendiados que enterro 
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai 
na fissura entre a máscara e o rosto

um lume maligno solta-se então das águas 
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor 
não há morte ou paixão 
que esta cidade não conheça - mas o corpo

não se lembra de tudo - a noite ardendo 
desperta o coração - este palácio de plâncton 
e de fantasmas com asas de sombra

depois 
talvez se ouça o canto quase límpido 
do mundo - cinzas onde mergulho 
para abrir o tempo e visitar tuas mãos 
que a lucidez do amor escureceu


Al Berto  

Texto alt automático indisponível.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Uma poesia de Percy Bysshe Shelley







Love's Philosophy                                                          
 Percy Bysshe Shelley

The fountains mingle with the river
And the rivers with the ocean,
The winds of Heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single,
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle -
Why not I with thine?

See the mountains kiss high Heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth,
And the moonbeams kiss the sea -
What are all these kissings worth
If thou kiss not me?

Filosofia do amor

Correm as fontes para o rio
E os rios correm para o mar,
Os ventos celestes os misturam para sempre
Com uma doce emoção;
Nada no mundo é simples,
Todas as coisas por uma lei divina
No espírito se encontram e se misturam -
Por que não eu com o você?

Vejo as montanhas beijarem o alto céu
E as ondas se enlaçarem uma a outra;
Nem a irmã-flor seria esquecida
Se desdenhasse do seu irmão;
E a luz do sol agarra a terra,
E os raios de luar beijam, o mar -
Que valor teriam todos estes beijos
Se você não me beijar?


são reis






Amei-te com a pureza dos gestos
e a desarmada inocência
com a ternura dos olhos
e a voluptuosidade da paixão
com os sujeitos feitos verbos
e todos os adjectivos que consegui
colocar ao sentimento que tinha
Amei-te com as mãos e a loucura
das noites e dos dias
com os gestos desenfreados
de quem arrisca
com a sede do verbo
e a fome da carne
com todos os gritos e
com todas as lágrimas

hoje, no entanto,
só quero conseguir
dizer-te
definitivamente adeus
com as mesmas mãos
que tanto te abraçaram

são reis

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Um poema de Tino Barriuso





Um poema de Tino Barriuso



MILONGA DE ANDAR MUERTO

Tino Barriuso

Soy como lluvia: el descenso
de una nube desplomada.
Soy una risa gastada
y sollozo cuando pienso.
Soy un castillo indefenso,
soy una inútil certeza:
se arruinó la fortaleza
cuando murió el verbo amar.
Y nunca supe gritar:
perdonadme la tristeza.

MILONGA DO ANDAR MORTO

Sou como a chuva: a queda
de uma nuvem destruída.
Sou um riso gasto
e soluço quando penso.
Sou um castelo indefeso,
sou uma certeza inútil:
se arruinou a fortaleza
quando morreu o verbo amar.
E nunca soube gritar:
perdoe-me a tristeza.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Sonho é a Vida






O sonho é a vida
O silêncio me invade
quando de ti me afasto
e o mundo fica tênue, mal acabado, incerto.
Tu, ausente; eu, desamparado, só,
como uma criança que perdeu o brinquedo
como uma flor, perdida em meio à lama.
Se muitas horas passam, o tempo desliza
como se o passar não tivesse outra função
que arrumar uma forma de te trazer de volta.
E, depois de mais um dia que sem ti passei,
na madrugada, antes de me invadir o sono,
Me pego assim fazendo versos
Na tentativa de no sonho te ver.
E só quando contigo sonho
consigo sentir o gosto de viver.

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