Seguidores

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Cesário Verde

De tarde
Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,...

Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
 
 
Cesário Verde   
 
 
 

terça-feira, 3 de maio de 2016

Perfuma..............................


 
 
 
 
 
Perfuma com gotas de saudade o livro esquecido jogado no canto da sala,
O sofá esta vazio com marcas do nosso corpo entrelaçado,
Autografa o meu sentir para que as letras permaneçam eternas no fundo do meu ser,
Desejo a quietude esmaecida da tua alma para escutar apenas o som do teu coração!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ETERNAMENTE JAZZ

ETERNAMENTE JAZZ
 
 
Quando tocou a última nota do saxofone eu te pedia, por favor, me telefone
...
e as palavras se encaixaram, então,
tão bem, no fim da canção,
que, instintivamente, pegastes na minha mão,
logo quando só pensava em beijar teus pés.
Como, por encanto, quebrando a paz
escorreu, pelo ar, um belo e lento jazz
que, eletricamente, dançamos
como se os primeiros e últimos amantes
até da música os últimos instantes;
e, dali em diante, numa mágica demais,
não nos largamos mais.
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 1 de maio de 2016

(luzdelua)

 
Luz de Lua /// Ao amor....
...



Provoca-me
Ó amor incomparável
Faz-me sair
Do avesso de tudo
E daquilo que pensei
Não ser capaz
Resgata-me e me lança
Para ser o que pede
E nesta solicitude
Purifica-me
Em meu desdobrar por ti
Desfaz meu egoísmo
Para ir ao teu encontro
Onde sou mais
E me ensinas a ser
Somente o que preciso
Ao me abraçar
Empresta-me asas
Para alçar o vôo dos meus sonhos
Ó amor incomparável e bendito
Que me toma pelas mãos
Levando-me a conhecer
O que ainda não sabia ter
Descobri que trago flores na alma
Há em mim um novo jardim
Que floresce por ti

(luzdelua)   
 
 
 

sábado, 30 de abril de 2016

Luís Corredoura dixit

Tua mão sobre os meus lábios colocas
Para que, do que sinto, nada mais diga,
E assim pedes que avance, que prossiga,
Quando com a boca na minha pele tocas.
...
Vacilo, mas tu, versada, a mão deslocas
Mirando-me de um modo que m’intriga,
Que m’excita, que a ser ousado m’obriga
Para ter de ti o que de mim também invocas…
Por instantes, hesitamos, algo impede
O consumar do desejo que m’arrebata,
Algo que tão bem sabes que só sucede
Quando esse teu olhar no meu constata
Que este que sou tudo de ti quere e pede,
O que logo dás por de mim te sentires grata…
 
 
 
Luís Corredoura dixit  
 
 
 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Nuno Júdice

  
viagens... 
 
 
O amor é esse gato abstracto que emerge...
de um rumor de lençóis para se converter na esfinge
do teu corpo, quanto de voltas e me entregas
a península do teu dorso. Escondes-me o horizonte
com os cabelos para que sejas tu o único
horizonte, e eu o possa tocar com as mãos, moldá-lo
à medida de uma navegação de corpos, como barcos
num sulco dos lençóis. Nesta viagem, sigo a linha
curva das tuas ancas, deixando-me guiar pelos
teus olhos que abres, quando a tua boca se liberta
de uma espuma de murmúrios, e colho dos teus
seios os bagos do desejo. Às vezes, é no teus rosto
que um gesto abstracto substitui o movimento
exacto de um escultor de emoções; de outras vezes,
demoro-me a olhá-lo e perco-me na expectativa
de uma voz que encha de luz o coração
das sombras. Quero ver-te assim, nua neste
véu de palavras com que te envolvo, e
dar-te, à transparência de mármore da ausência,
a pulsação que me conduz a ti, como o vento
que empurra a ave, ou o silêncio que
se converte em canto.

Nuno Júdice  
 
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Florbela Espanca

Saudades! Sim... talvez... e porque não? Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! P...ara quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim!



Florbela Espanca