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domingo, 6 de dezembro de 2015

Helena Guimarães //// A vida parou....

 A VIDA PAROU



O sol brilha cálido
lá fora.
Hoje não o sinto!
Está tão distante
o velho que lê o jornal
junto ao quiosque.
A vida parou ontem.
Exactamente àquela hora.
Hoje é o vazio
e apesar do sol
está frio.
Vejo os outros,
longínquos,
a fruir a vida
sem tempo.
Eu estou dentro de mim,
com uma réstia de ti
no sentimento,
o teu olhar
no pensamento,
a tua imagem,
esbatida,
a cortar-me  a ligação
com a vida..

 
H.G..Janeiro2003.   

 A VIDA PAROU


sábado, 5 de dezembro de 2015

De efeneto

Quando senti as tuas mãos
à volta do meu pescoço
e um frémito a percorrer-me o corpo
soube que começava ali,
à luz pálida do teu quarto,
o momento da dádiva mútua.
 

Teu corpo ofegante abriu-se
às minhas mãos
que navegam como barcos
os lagos do teu corpo.
 

Beijo-te as coxas
o ventre e os seios e tu pedes-me mais.
Na sofreguidão que somos
já nada resta que se não faça.

Por fim, a exigência final
que se prolonga até ao êxtase
que não controlamos.
 
Longamente confundidos
nenhum beijo se perde
até que o sono nos vença. 

efeneto


 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

De efeneto

Encontrei-te por dentro das mãos,
na orla do teu sorriso
e nos teus olhos meigos.
Fixamo-nos tão ternamente
como nos esperassemos desde sempre.
Baixaste os olhos sem deixar de sorrir.
Suavemente te aflorei o rosto,
escrevi um verso nos teus cabelos
e os nossos lábios tocaram-se
com um sabor novo.
Demoramo-nos na contemplação do outro
e de mão na mão soubemos
que começava ali o nosso sol.


efeneto   



Nuno Júdice //// Trajecto


 Trajecto 
 
 
 

Como se a tua voz se perdesse e encontrasse
em cada esquina do mundo,
como se o teu corpo se iluminasse e escondesse
nos cantos a que o olhar não chega,
na mais longuínqua memória em que te lembro,
no mais próximo instante em que te esqueço,
encho contigo o papel branco de uma rua
que não existe,
desenho os teus gestos na folha abstracta
de um registo de instantes,
sigo a linha obscura de um rio que inunda
as margens da vida,
e desaguo com ele no oceano que se abre
no estuário dos teus braços.

 Enfureço-me em versos exaustos
de um último poema,
vendo-os derramarem-se pela estrofe
numa inundação de palavras;
faço das suas sílabas um campo
de pétalas secas;
canto com lentidão de um pássaro ferido,
e as árvores morrem num outono
de antigas emoções.
Quando a noite chega, acendo a sua treva
com o sol de um pulsar de estrelas.
Podia arrancar da tua boca esse grito
de néon que fez fulgir as anémonas - mas
perdi-o nas cinzas de um silêncio.

 Dizem que atravessas com os teus passos
a solidão do inverno. E vou atrás de ti,
até onde me esperas.


 Nuno Júdice  




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Florbela Espanca //// Escreve-me......

Escreve-me...



Escreve-me! Ainda que seja só...

Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!" Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
 
 
Florbela Espanca   
 

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Uma poesia de Carmen Toscano




Trazo incompleto                                                        



Te encontré una vez más.
Tenías lo que mi alma deseaba,
lo que todo mi ser siempre pedía.
Te perdí una vez más,
tenías lo que yo no quería.


Mi alma era para ti, vino a buscarte
creyendo que ya estabas,
tú viniste después para esperarme
sin saberme llegada.


Sedientas se buscaron, y se vieron,
mas pasaron de largo, sin palabras;
porque yo te aguardaba por el norte
y en el sur, silencioso, me esperabas.


No pensamos, al vernos, en que el tiempo
pudiera haber burlado nuestras almas.

Carmen Toscano
 
Traço incompleto
 

Te encontrei uma vez mais.
Tinhas o que a alma desejava,
o que todo meu ser sempre pedia.
Te perdi uma vez mais,
Tinhas o que eu não queria.
 

Minha alma era para ti, vim te buscar
crendo que já estavas,
tu viestes depois para esperar-me
sem saber-me chegado.
 

Sedentas se buscaram e se vieram,
mas, passaram ao largo, sem palavras;
porque eu te aguardava pelo norte
e, no sul, silencioso me esperavas.
 

Não pensamos, ao nos vermos, que o tempo
pudesse haver enganado nossas almas.

Carmen Toscano    


Uma poesia de Luis Lloréns Torre /// Barcarola


Uma poesia de Luis Lloréns Torre



Barcarola                                                                              
Luis Lloréns Torre


Déjame, niña, bogar,
En el esquife de un verso,
Por el oleaje perverso
De tus pupilas de mar.
Quiero en ellas desafiar
Las rachas de tu ilusión,
Y que una ola de pasión
Me envuelva en sus espirales,
Me ahogue entre sus cristales.
Y me hunda en tu corazón.


Barcarola
 

Deixa-me, menina, remar
No barquinho de um verso
Pelo ondular perverso
De tuas pupilas de mar.
Quero nelas desafiar
As rachaduras de tua ilusão,
E que uma onda de paixão
Me envolva nos teus espirais,
Me afogue entre teus cristais.

E me afunde no teu coração.
 
Luis Lloréns Torre
 


Ilustração: Salvador Dalí