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domingo, 13 de abril de 2014

Mia Couto //// Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




 
Foto: Soneto da Separação

(Vinicius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oh ! meu amor....( obra prima de Tom e Vinícius )




Por Toda A Minha Vida
(1959)



Composição: Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Interpretação: Elis Regina
Oh! meu bem-amado
Quero fazer de um juramento, uma canção
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente tua e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou
Ninguém


Oh! meu bem amado, estrela pura aparecida
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe
Oh! meu amor
 
 
 


 





 

Lua diurna //// Pendurei o teu olhar....

pendurei o teu olhar
 
nas asas de uma gaivota
no litoral branco do mar
 
onde as palavras escorregam
no coração das cidades
à equidistância do abraço
no vértice do infinito
 
prolonguei no horizonte
as linhas do equilátero
e a gaivota retornou
na rotação das marés
o teu olhar
num raio de sol nascente...
 
aconcheguei os olhares
na concha das minhas mãos
onde o amor acontece
 
na urgência dos sorrisos
na tangente do sentir
 
neste refúgio de alma
a transbordar por ti
 
eternamente

Lua Diurna / 12/04/14
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 12 de abril de 2014

são reis //// Sentir !

 
 
Sentir!
sentir a areia molhada
fazer-me cócegas nos pés
sentir a vida fluir
a andar de encontro ao vento

sentir essa liberdade de poder escolher
e ir...
e repartir...
repartir aquilo que se sente
com quem se gosta
e gostar-se de estar vivo
ainda que nem sempre a mão amada
encontre a nossa
ainda que muitas vezes esse caminho
tenha apenas as nossas peugadas
e o sentir seja apenas nosso

Essa poderá ser uma das grandes lições de vida!
aprender a sentir um todo
e a repartir metade do que se sente
quando não confiarmos na sorte
para repartirmos tudo!



são reis
11abril14


 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gustavo Adolfo Bécquer ////



RIMA XXX

Gustavo Adolfo Bécquer

Asomaba a sus ojos una lágrima
y a mi labio una frase de perdón;
habló el orgullo y se enjugó su llanto,
y la frase en mis labios expiró.

Yo voy por un camino; ella, por otro;
pero, al pensar en nuestro mutuo amor,
yo digo aún: —¿Por qué callé aquel día?
Y ella dirá: —¿Por qué no lloré yo?


Rima XXX

Assomava em seus olhos uma lágrima
E nos meus lábios uma frase de perdão;
falou o orgulho e se enxugou o pranto,
e a frase em meus lábios expirou.

Eu fui por um caminho; ela, por outro;
porém, ao pensar em nosso amor mútuo,
eu digo ainda: - Por que me calei naquele dia?
E ela dirá: - Por que não chorei eu?

Miguel Torga /// Recomeça




Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Laura Santos //// Aromas





Sonhei que cheirava a café acabado de fazer
enquanto o teu corpo amanhecia.
A tua pele cheirava a tangerinas,
a minha, a amoras rubras e silvestres,
fragrâncias quentes e finas
ao canto de cada entardecer
quando te desnudas e te vestes.
Na breve penumbra das horas
sonhei que cheirava a rosmaninho,
a frescos coentros acabados de cortar,
se te aproximavas de mansinho...
enquanto preparava secreto manjar.
Odores salgados de maresia.
Algo me invadia; perfumes de anis,
alecrim, poejo, manjericão.
Uma paz de hortelã, de tomilho,ou de limão,
de maçãs vermelhas e conversas
saboreadas ao contacto da tua mão.
Sei que cheirava altos pinheiros,
floridos aloendros, campos de alfazema,
odores muito mais intensos
do que poderia escrever em poema.
Cheiro a estevas e terra molhada,
a roupa lavada com sabão
despida na prévia madrugada.
Desejaria teu corpo aroma
a anoitecer perto do meu.
Ou a amanhecer de repente,
brisa canção a rodopiar
num prado perto do céu.
Perdi o sentido do olfacto.
Que sonho inventado é este,
ilusório e contrafeito,
este tormento em doce retrato,
leve e caricato,
que trago no meu peito?...
 
Laura Santos