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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Gianni Aterrano - Poema




Tango é música e dança, é alegria, e paixão. . Belo vídeo e música tocados com uma graça excepcional...

Paul Anka - Time To Cry

Hamilton Ramos Afonso

 



                         Clássicos


A ti Isa
Costumas acordar relembrando os clássicos da pintura,
invariavelmente falas-me dos Girassóis de Van Gogh,
associando esta metáfora às anomalias da vida
que se confundem com as banalidades
com que nos confrontamos...
Prefiro ,
sinceramente ,
quando adormeces
depois dos meus dedos te terem percorrido ,
ao ritmo melodioso duma peça de música clássica ,
Beethoven ,
Mozart ou Vivaldi,
talvez este último ,
porque é unânime ,
em todas as estações ,
bem ritmadas ,
em madeiras a vibrar ,
a pedirem-nos uma ultima dança,
até que a exaustão nos vença...

Hamilton Ramos Afonso

Almada, 27.3.2018
*
Arte: Gary Grayson (EUA) - "Space kiss





Hamilton Ramos Afonso

 




                                             Alma desnudada




Despiste-me a alma por inteiro
na firmeza do teu olhar
no jeito de feiticeira que tens
em palavras de afecto e

de jura mútua de amor eterno...  


    Hamilton Ramos Afonso    




                   

Outra poesia de Jesús Andrés Pico Rebollo

 



                               

Outra poesia de Jesús Andrés Pico Rebollo

 


DESNUDO FRENTE AL MAR

 Jesús Andrés Pico Rebollo

Desnudo frente al mar sólo es posible

adentrarse en el cuerpo compañero de espumas

blandamente tendido a nuestro lado

surcado por la quilla húmeda de los besos

buscar entre las algas agitadas del fondo una ofrenda de sangre

asir las tablas rotas legados de naufragios

antiguos como el hombre o la mujer que somos

vaciar con las redes pescadoras de sueños

entrañas oceánicas cordilleras de sombra

renovar en la arena la huella de la noche

endulzar con saliva los caminos de sal

y buscar en los ojos del mar enamorado

el verde más profundo donde conjugar la luz.

Amar amar tan sólo sin preguntar siquiera

por qué el amor mantiene a flote fuera del mar la vida.

 

NU FRENTE AO MAR

 

Nu de frente para o mar só é possível

entrar-se no corpo companheiro de espumas

suavemente estendido ao nosso lado

sulcado pela quilha molhada dos beijos

buscar entre as algas agitadas do fundo por uma oferenda de sangue

agarrar as tábuas quebradas legados de naufrágios

antigos como o homem ou mulher que somos

esvaziar com as redes de pescadoras de sonhos

entranhas oceânicas  cordilheiras de sombra

renovar na areia a trilha da noite

adoçar com saliva as estradas de sal

e buscar com os olhos do mar enamorado

o verde mais profundo onde conjugar a luz.

Amar amar tão só sem nem mesmo perguntar sequer

por que o amor  se mantém à tona fora do mar da vida.

Ilustração: https://instagrammernews.com/.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Adeus. Eugénio de Andrade

 



                            

Adeus. Eugénio de Andrade

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Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou
não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas
estremeciam só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.


Adeus.


Eugénio de Andrade  



 




Joaquín Antonio Peñalosa

 



                              AUNQUE ES DE NOCHE

 

No es mía la noche
de vasos rojos y de besos rojos.

 Ni siquiera la noche que amortaja
conciencia y ojos en el camposanto del sueño.

 Mía es la noche del suero
que eterniza la gota y el quejido

 La noche del asfalto del trailer
que soporta con café y con aspirinas.

 La noche de las redes que acechan
los jardines flotantes de los peces.

 La noche de los relâmpagos
que aluzan entre abismos
el paso de la mula y del indio.

La noche de vendimia de mujeres,
a elegir esclavas a precios razonables. 

Mía la noche con olor laboral de obrero;
si la fábrica para, para el universo,
¿y el obrero, qué? 

La noche rodante del metro
donde los sin-techo cabecean,
el mismo tabaco, la misma ruta.

Mía la noche de los barrotes,
prohibida la entrada a la luna y la justicia.
Tantos son los expertos de la noche,
tan pocos los centinelas del alba.


Joaquín Antonio Peñalosa

 

 

Não é minha a noite
de copos e beijos vermelhos.

Nem mesmo a noite que amortalha
olhos e consciência no cemitério do sonho.

Minha é a noite do soro
que eterniza a gota e o queixume.

A noite do asfalto do trailer
que vai com café e com aspirinas.

A noite das redes que envolvem
os jardins flutuantes dos peixes.

A noite dos relâmpagos
que alumiam por entre abismos
os passos da mula e do índio.

A noite de vindima das mulheres,
escolhendo escravas a bom preço.

Minha a noite com cheiro de operário;
parando a fábrica, pára o mundo todo,
e o operário, depois?

A noite circulante do metro,
onde cabeceiam os sem-abrigo,
o mesmo tabaco, a mesma rota.

Minha a noite dos barrotes,
entrada proibida na lua e na justiça.
Tantos são os especialistas da noite
e tão poucas as sentinelas da aurora.


Joaquín Antonio Peñalosa


(Trad. A.M.)