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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Francisco Valverde Arsénio

 



                         Não Me Lembro / Mas Sei!

Não me lembro se chegaste a pedir para entrar nos meus dias. Mas que importa, apetece-me afundar no teu olhar e perder-me num momento que não termine nunca. Só eu sei como a voz dos teus olhos tem mais timbre que o som das gotas de orvalho… e elas caem nesta madrugada vindas do cimo de todas as flores. Enraizaste-te em mim como a neblina ao beijar a terra por cima do monte… intensamente… e os corpos evadem-se nessa bruma densa… toco-te… tocas-me a alma com esse sabor selvagem de quem está presente mesmo quando ausente… és mulher!
© Francisco Valverde Arsénio




 



     Coraçãozinho ateu


Eu não sei não
Como foi que perdi
teu coração.
Ainda agora o tive
tão vivido.
na minha mão.

Não se pode nem dizer
Que não o tratei com carinho
Que não lhe dei ilusão.
Até dei uma pancadas nele
Tentando injectar adrenalina
pensando que tivesse salvação.

Ó coraçãozinho sem-vergonha!
Voou feito um passarinho
E nem cantou nem gemeu
Deve ser um coração ateu
nem acreditou
quando lhe disse
que era Deus!

By spersivo/br





CANTO AO AMOR OCULTO

 




CANTO AO AMOR OCULTO

Como um passarinho vivo
Criando um ninho para o meu amor...

Hei de fazê-lo com as mais belas flores da floresta
e envolvê-lo com os mais doces cantos de outros pássaros
para cantar com os mais suaves sons que há.

Nem me importo de voar mais alto
Ou, de por longas distâncias, me cansar
Ou, se, na busca, venha a me machucar
Se os melhores e saborosos frutos recolher.

Só me importo, antes do luar aparecer, olhar seus olhos,
e cantar, no por do sol, o meu canto de glória,
pelo imenso amor que só posso ter

Que é mais belo ainda por ninguém perceber ....




Poesia da dança

 



                                                    POESIA DA DANÇA


Vê é tão simples. De repente a mão
Na mão, o olhar no olhar, uns beijos.
Por que complicar? Não exija a razão.
De todo modo virá com o tempo.

Mas, com o tempo, virão outras coisas
Como a perda da magia, a dor e até
O tédio. De repente não há remédio
E, se tivermos, o mal não tem mais cura.

Segura o tempo!Segura! A mão agora
Oferece tanto. Não deixa de ser belo
O canto porque cessa. É tão lindo
Enquanto dura. Vamos, minha mão segura.

Por que temer ou colocar obstáculos
Contra o desejo que é tão natural?
Não contrarie a Natureza. Sê a presa
E a caçadora do prazer, que é tudo

Que nos resta quando o canto acaba.
A música da vida é feita de tais notas
E, se não se dança, no tempo certo,
Sobrevém o deserto e, também, se dança.

(De A Alquimia da Vida,1999)    




       

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

TEMPO

 

TEMPO


Te abandonas molemente aos afagos.
Percebo que teus seios são montanhas, 
Teu ventre, um vale e, quando me apanhas,
Que teus olhos são dois enormes lagos. 

Quando, então, danças no escuro 
No ritmo febril de tua respiração 
Teu sangue é uma lava, teu corpo, um vulcão
E no teu corpo o tempo está seguro. 

Depois mais mole, e mesmo saciada, 
Um sorriso, ou melhor, uma flor 
Desabrocha como fruto do amor 
E o tempo parece que não é mais nada!


(De "Apocalypse", Editora Zanzalás, 1982). 










SONETO DO AMOR OCULTO

 




    

SONETO DO AMOR OCULTO

Todo este amor escondido e calado   Pode ser triste, mas, não amargurado,
Pois, de nada se arrepende ou reclama
Resignado sobrevive porque ama,

E, bem sabe, ainda mais, ser muito amado.
Contente assim até suporta delicado
Os longos dias que se perdem no infinito
Sem o gozo do amor e sem um grito.

Exalta muito mais o ter a certeza
Que tanto amor fortalece a natureza
De seu viver tão frágil e tão humano

Até sonha dias que, talvez, jamais virão
Consciente de que a vida sem a ilusão
É um esforço tão inútil quanto insano.

Ilustração: cristiane-amoroculto.blogspot.com

valter hugo mãe

 



                                                Calor interior...

Às vezes perco-me nos caminhos que
conheço. Adormeço nos ruídos do
mundo sonhando banalidades
enquanto sou feliz. Sempre que
falho e fecho os olhos, imagino
outra pessoa perto de mim aquecendo as
mãos no calor do meu corpo como nas labaredas
de uma pequena fogueira
valter hugo mãe