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domingo, 27 de setembro de 2020

David Mourão Ferreira

 



                      

Rangia entre nós dois a música da areia



Rangia entre nós dois a música da areia
como se fosse Agosto a dedilhar um sistro
Agora está fechada a casa onde te amei
onde à noite uma vez devagar te despiste

Floresça o clavicórdio em pleno mês de Outubro
Na harpa de Setembro entrelaçou-se a vinha
A que vem de repente entre os dois este muro
feito de solidão de sal de marés vivas

Podia conjurar-te a que não me esquecesses
mas é longe do Mar que os navios são tristes
De que serve o convés com a sombra das redes

Quis a tua nudez. Não quis que te despisses

David Mourão-Ferreira

Imagem retirada do Google

António Ramos Rosa

 




                           

Quando te vi senti um puro tremor de primavera



Quando te vi senti um puro tremor de primavera
e a voluptuosa brancura de um perfume
No meu sangue vogavam levemente
anénomas estrelas barcarolas
O siêncio que te envolvia era um grande disco branco
e o teu rosto solar tinha a bondade de um barco
e a pureza do trigo e de suaves açucenas
Quando descobri o teu seio de luminosa lua
e vi o teu ventre largamente branco
senti que nunca tinha beijado a claridade da terra
nem acariciara jamais uma guitarra redonda
Quando toquei a trémula andorinha do teu sexo
a adolescência do mundo foi um relâmpago no meu corpo
E quando me deitei a teu lado foi como se todo o universo
se tornasse numa voluptuosa arca de veludo
Tão lentamente pura e suavemente sumptuosa
foi a tua entrega que eu renasci inteiro como um anjo do sol

António Ramos Rosa

Imagem retirada do Google

sábado, 26 de setembro de 2020

Para variar....

 



                          PORQUE RIR FAZ BEM


À porta da barbearia estava um papagaio. Sempre que a Micas passava por lá ele dizia:

- "Ó Puta!"

Ela já farta, um dia queixou-se ao dono...

Ele, para castigar o papagaio, pintou-o de preto.

Dois dias depois a Micas passou à porta e o papagaio não disse nada...

Perguntou ela:

- "Então, já não dizes nada?"

Respondeu o papagaio:

- "Quando estou de smoking não falo com putas"



                       

Rui Namorado

 



                               

Lírica do Silêncio



Somos larva e semente
Somos o trigo o vento e a colheita
Somos o mar o cais e a aventura
O transe da partida e a chegada
Somos a carne do medo e a madrugada
Raiz do desespero amor coragem
Temos pressa e somos a paciência
Somos o dia que passa e somos sempre
Somos a polpa do tempo
A pausa da memória o movimento
Lavramos o silêncio com palavras
Que apenas soletramos surdamente.

Rui Namorado

Foto:Satoshi Saikusa

De Wind

 



                   TRANSPARENTE  



                    Dias cruzados

Pensamentos sublimados
Saudades de alguém
Jogo de xadrez
Razão e emoção
Empate técnico.

Não perceber relações
Jogos, máscaras, o "social".

Palavras cruzadas
Directas
Puras, água do mar
Livres, vento que sopra.

Eu
Sem truques de magia
Sou transparente
Olhar directo.


Wind









                  


                        

Sei-te de cor / Paulo Gonzo

 



                   Sei-te de cor   /   Paulo Gonzo


                                 Sei de cor

cada traço
do teu rosto
do teu olhar.
Cada Sombra
da tua voz.
E cada silêncio
cada gesto que tu faças
Meu amor sei-te de cor

Sei
Cada capricho teu
E o que não dizes
Ou preferes calar.
Deixa-me adivinhar
não digas que o louco sou eu
se for tanto melhor
Amor sei-te de cor

Sei
Por que becos te escondes.
Sei ao pormenor
o teu melhor e o pior.
Sei de ti mais do que queria
Numa palavra diria
Sei-te de cor.


Paulo Gonzo 




      

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Carlos Drummond de Andrade

 

                    



                               DESTRUIÇÃO

          


                               Os amantes se amam cruelmente

e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade