Seguidores

sábado, 11 de abril de 2020

Fátima Porto



       POESIA
CORPOS COLADOS
Nossos corpos colados
A tua respiração na minha
Nosso beijo
Uma paixão
Mãos que vagueiam
Teu sussurro me prende a ti
Somos almas ao vento,
Mas numa só
O teu toque pelo meu peito
O teu olhar no meu
Assim como sem jeito
O meu corpo é o teu
E a espuma das ondas vem
Como se o mar viesse também
E não sabemos quem somos
Sussurros na noite, abraços apertados
Entusiasmo abrasador, como barcos parados
Sensações ardentes,
Quando em ti me sentes
Olha-mo-nos nesse momento
E foi como sentir o vento,
Em corações acelerados
Num só corpo…
Fátima Porto
Texto registado e protegido pelo IGAC

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Manuel António Pina





     POEMA
Manuel Antonio Pina
TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Manuel António Pina

quinta-feira, 9 de abril de 2020






     

NO PESTANEJAR DE UMA VÍRGULA






Olho-te como se fosse a primeira vez

na verdade a água
corpo líquido de mulher
tem segredos escondidos no fundo das pedras
alimentos de fogo
talvez uma praia onde se fundem
areias e lábios 
um piano de luzes
que determina o tempo das estações

ainda bem que tens ilhas selvagens
sinais apócrifos que se desnudam
em gestos simples
no pestanejar de uma vírgula

na verdade a água sabe rir e chorar
no espelho das próprias lágrimas
no rumor das maresias
e eu descobri uma vez mais 
que tens poros por onde respiras
silêncios escarpas por onde escorrem salivas
que te ergues e desmoronas
abrigo e mensageira
te desprendes do chão
ou hibernas nos corais

que bom ainda hoje
partilhar contigo este despertar
aprender vida fora a descobrir-te
como se fosse a primeira vez
e deixar  por um instante
a outra água
para os peixes se moverem


eufrázio filipe

"Chão de claridades"
editora Lua de marfim

são reis





      POEMA
DIZ-ME QUE TE COMOVI!

Diz-me que te comoveste com o que escrevi
que as palavras são tuas
que te reflectem
que são a tua cara
Diz-me que por uma vez na vida
te comovi
te fiz chorar
te escavei abismos nos olhos
e um buraco no peito
Diz-me que os teus silêncios são mudos
e que todos os sorrisos em ti renascem
que todos os caminhos condizem ao paraíso
e ele (o paraíso) é em qualquer lugar
aonde tu estejas
aonde eu possa chorar por ti
aonde eu te possa achar e perder
Diz-me que te comovi!
Por uma vez na vida te comovi!
Diz-me isso agora
antes que morra
antes que eu me vá e não volte
porque eu não sei escrever o que sinto
Apenas escrevo aquilo que os outros precisam de ler
para se comover
para chorar e sonhar
tudo aquilo que eu não consigo!

são reis  

A imagem pode conter: 1 pessoa, ar livre

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro






     POEMA
Teus Olhos Entristecem
Teus olhos entristecem 
Nem ouves o que digo. 
Dormem, sonham esquecem... 
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste, 
Te disse tanta vez... 
Creio que nunca o ouviste 
De tão tua que és.
Olhas-me de repente 
De um distante impreciso 
Com um olhar ausente. 
Começas um sorriso.
Continuo a falar. 
Continuas ouvindo 
O que estás a pensar, 
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso 
Sumir da tarde fútil, 
Se esfolha silencioso 
O teu sorriso inútil.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro

terça-feira, 7 de abril de 2020

Rita Leston






    E eu escolho sempre seguir os meus sonhos. 
Mesmo que sejam infindos e do tamanho do mundo.
Sonhos que ninguém entenda.
Não sou pobre a sonhar: quando sonho, sonho tudo.
Não quero muitas vezes: mas quando quero, quero muito.
Não sou fácil de gostar: mas quanto gosto, gosto muito.
Não sou de arriscar: Mas quando arrisco, dou tudo.
Sem medos e sem barreiras. Quando quero.
Ou então não dou nada.
Rita Leston

Pedro Tamen

~




   

Photo: Florence Henri





































E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar. 
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.



Pedro Tamen