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segunda-feira, 6 de abril de 2020

José Régio






     Soneto de amor
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio

Miguel Gomes Coelho





     Pedi-te sempre que não olhasses para trás.
Tu sabias que te queria demais,
na totalidade, por dentro e por fora,
só para mim e sem deixar nem um pouco para ti.
Tu existias para que eu existisse
queria-te sempre a voar ao meu redor,
era eu o teu único destino...

Foi apenas isto que te obriguei a interiorizar
por isso , num equívoco, deixei-te esvoaçar
e tu não voltaste, seguiste e cumpriste,
nem olhaste para trás...
Aí, entendi como era falso...
Descobri, já só, que afinal eras tu o meu destino,
que te amava por ti e apenas por ti.
Descobri que as minhas mãos apenas têm dedos e não tenazes e
os meus braços apenas abraçam não agrilhoam;
o muito querer nem só tudo aceita, nem só tudo exige,
o amar é dar e aprender.

Agora...
só,
olhando cada dia que nasce,
repondo lá longe a linha do horizonte,
sejas tu o Sol ou apenas o meu Sol,
espero ansiosamente que inicies o teu voo de regresso....

Miguel Gomes Coelho
2016

domingo, 5 de abril de 2020

Manuel Sepúlveda






    POESIA
E TU... A MIM ?!.
Ontem, ...
Quase em segredo, 
Perguntavas-me a medo 
O que era eu amar-te (!?)...

Amar-te...
É dar-te... Sem que mo peças 
E sem que eu mesmo o saiba...
... 
É abrires-me os braços e eu ficar... 
É sonhar-te assim...
No centro da minha vida,
Até ao fim...
É sentir medo... 
De não te saber prender
E amanhã te perder...
E pensar... 
Que se tiver de lutar por ti,
Os meus instintos lutarão...
Seja ou não em vão.

E agora...
No fim de tanto te dizer...
Eu também quero saber:

E tu... a mim !?...
Manuel Sepúlveda

TOADINHA DA HORA CERTA






   

TOADINHA DA HORA CERTA (Só vai de Covid-19 quem tem de ir. Quem não tem espera o Covid-20)




Não deve ser o que se passa lá fora, 
que vai  nos perturbar nesta hora em que é momento de amar.
Não há o que nos impeça de beber, cantar
e matar a sede com um bom vinho chileno-
o engano que nos fazem não é pequeno.
O que dizem os noticiários,
esses boletins de mortes diários,
essas tentativas de nos assustar,
meu bem, uma hora vai passar.
Já sou velho demais para me iludir.
Parte quem tem que partir.
Quem tem de morrer, morre.
A morte, quando para alguém quer sorrir,
tem mil manhas, infindáveis artimanhas,
que não podemos vencer.
Ninguém vai me convencer
que alguém já foi além de sua hora!
Chegou o tempo vai embora.
Claro que há sempre a opção
de morrer pela própria mão.
Mas, aí também, meu irmão,
vai na hora certa: acabou sua missão!

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sábado, 4 de abril de 2020

POEMETO DA NECESSIDADE DE TE AMAR






        POESIA
Uma revisita ao passado sempre presente
POEMETO DA NECESSIDADE DE TE AMAR
Meu mais forte desejo é mergulhar no profundo mar de teu corpo
para, sem nenhum receio, queimar minhas mãos
colhendo as algas quentes de teus seios
com a mais irrefreável sofreguidão.
Anseio me perder nas profundezas de teu ventre
para colher, contente, o desaguar do vulcão de prazer
que há de fazer, bem sei, tudo em volta de nós tremer.
Quero mesmo, e a vontade é louca,
buscar sentir na boca o sumo do prazer,
com a alegria de quem sabe
que está sentindo, e chegou, ao ápice do momento de felicidade
e diante da flor do prazer se fez deus em plena realidade do ser humano.
Sonho em te acariciar
nos lugares mais insuspeitos,
e de todos os jeitos,
de tal forma que até o teu dedinho
menos sensível
terá que estremecer sem ter motivo.
Ainda que saiba
que, por mais que fizer,
nada há de saciar
o poço inesgotável da vontade
e, como um guerreiro teimoso,
cujas forças irão minguando
hei de voltar a lutar todo dia
por te dar e obter prazer
enquanto viver,
se Deus não me der o prêmio
de nos teus braços morrer.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Manuel Bandeira







        

Teu corpo claro e perfeito


Teu corpo claro e perfeito,

– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Quem em antigas se derrama...

Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Manuel Bandeira

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Chico Buarque






    Soneto
Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morto de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morto de medo
Por que não me deixaste adormecido
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morto de frio

Chico Buarque