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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'






Como é que se Esquece Alguém que se Ama?Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

maria helena guimarães




POESIA
ADORMECI EM MIM A POESIA

Adormeci em mim a poesia
para que não me fizesse fraca.
O tempo na vida
exige gente forte, capaz de lutar
sem sonhos nem fantasia, 
por todos que são um
na existência de humanos.
Adormeci em mim a poesia
porque há poetas flores
e músicos de palavras
e em mim tudo tinha esquinas
e dor e sofrimento, 
e as flores e a música
já não combatem exércitos, 
já não vencem guerras,
nem dão de comer a ninguém.
Adormeci em mim a poesia, 
porque o utópico de mim
só dá consolo a quem já tem 
e não trás nada a quem nada tem.
Adormeci em mim e poesia
porque o caminho do sonho está fechado
porque o Amor soçobra no egoísmo,
porque a natureza continua
mas poucos sabem que é segura
é bela e traz consigo a paz.
Adormeci em mim a poesia
porque perdi os caminhos
para as coisas simples, 
o rocio das manhãs, 
o chilrear das crianças, 
o canto dos pássaros,
o desabrochar da flor
o voar das andorinhas ao sol pôr.
Adormeci em mim a poesia
porque o mundo está cão
e há nevoeiros nas manhãs de Verão.

maria helena guimarães

Foto da autora

Joaquim Pessoa





POESIA
JOAQUIM PESSOA

Dia 113. (excerto)... Joaquim Pessoa

O país do amor não tem horizontes, nem sequer tem horas, 
o país do amor não possui caminhos. Está-se lá, apenas. 
Vive-se lá, onde todas as perdas são possíveis para 
ganhar alguma coisa de que precisamos, e sem precisar 
de gostar dela. As águas do amor são mais humildes que 
transparentes, e a elementar serpente que as atravessa, 
e que arrulha como uma pomba, é na realidade uma pomba 
se tu não quiseres que seja uma serpente. 
Eu não te invento nas canções, não te beijo com a 
saudade que vive na memória das ruínas, nem espero 
por ti com a queixa escondida no peito frio das muralhas. 
Onde estou, espero por ti e amo-te. Olho para ti, 
e o meu olhar beija-te. Canto, e é a ti que canto.

in ANO COMUM, Litexa, 2011

Laura Santos






POESIA
Laura Santos ///// A pomba
Sonhei que o teu corpo era um riacho.
Nas tuas margens plantei todas as sementes;
De ti tudo nasceu, tudo transformaste:
O que sonhei, o que sonhaste.
Do sol veio a luz,
No teu corpo lavrado floresci.
Depois nem sei, vi que mudaste.
Já não eras riacho, eras fonte seca
Onde mirei o meu olhar.
Do teu corpo nu brotou a árvore, 
Dos teus cabelos revoltos, como folhas, o silêncio
As minhas mãos poisaram como pássaros
Nas tuas mãos abertas como pontes.
Tua boca debiquei e tu sorriste.
Do nada surgiu o teu peito branco,
Nas tuas costas graníticas me sentei.
Debrucei-me sobre ti, uma nuvem surgiu;
Do céu dos teus olhos, como grãos
Gotas caíram.
Sequiosa pomba mensageira, uma bebi.
Passei teu território, a fronteira.


Voltei de novo a ti mas não te vi.
Diz-me meu amor porque voaste...


Laura Santos

domingo, 1 de setembro de 2019

Jorge Melícias





POESIA
E eu amava-te...
Sentavas-te junta à esteira
e acendias os cabelos numa lágrima.
Em silêncio ias moldando entre os dedos
luas muito cheias que depois me ofertavas,
dizendo, abre no meu rosto
um poema a pique por onde a luz se despenhe.
Só tu conhecias a inclinação certa do cachimbo,
a púrpura linguagem do fumo,
a revelada cadência dos sonhos.
E eu amava-te pela maneira como os barcos
sangravam nos teus lábios


Jorge Melícias

rui amaral mendes






POESIA
visões
perco-me na visão 
desse teu corpo lânguido
que agora se entrega ao meu olhar.

nas sombras que se projectam
vislumbro o erotismo de dois corpos
que se compreendem,
autenticam,
por entre abandonos
às linguagens idiossincráticas
e à natureza metafísica e intemporal
do desejo.

lábios tumescidos e ardentes
aspiram a tez láctea que reveste
quem és.

cabelo seríceo cai
sobre teus ombros afagando docemente
o rosto de menina carente
onde desponta a malícia da
feminilidade felina de um olhar.

o contorno delicadamente decalcado
dos teus seios:
montes e vales de alabastro
onde me perco
rumo à origem do mundo.

por fim 
o cheiro do teu corpo depois do amor:
eu em ti, tu em mim,
um no outro.


rui amaral mendes in triptico [2016]

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma.

Sophia de Mello Breyner Andresen


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