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domingo, 18 de novembro de 2018

Florbela Espanca





Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

Florbela Espanca  
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sábado, 17 de novembro de 2018




Photo: Jeanlo up Sieff




















Tu, a que eu amo nesta manhã
que trouxe a tua imagem com os ruídos
da rua, vai até à janela,
levanta as persianas do quarto, e olha
o céu como se ele fosse
um espelho. Diz-me, então,
o que vês? As nuvens que passam
pelos teus olhos? Um azul cuja
sombra te desenha o contorno
das pálpebras? A mancha rosa do nascente
que o horizonte roubou ao
teu rosto? Mas não te demores. Um espelho
não se pode olhar muito tempo e
o céu da manhã é dos que mudam com
as variações da alma. Pode ser que o céu
roube um sorriso aos teus lábios e
mo traga, para que eu o ponha neste poema,
onde te vejo, um instante, enquanto
a manhã não acaba.



Nuno Júdice

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Ana Alvarenga






POESIA  



O silêncio tem o sabor de amoras silvestres, negras e brilhantes como a noite que abraça os pensamentos.

Sentes o cheiro das estrelas? 

Eu não o sinto; tenho a pele (ainda) impregnadados toques macios e deslizantes, do silêncio a massajar o corpo.


Pressentes o rasto dos sonhos?

Dos sonhos que desenhei para ti, em estátuas e em nuvens, no silêncio do traço fino.

E passeio nos telhados de casas vazias, encontro o silêncio - o teu e o meu -, que me grita, despenteia, empurra-me. Beija-me.



Ana Alvarenga  


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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Carl Sandburg









































Give me hunger,
O you gods that sit and give
The world its orders.
Give me hunger, pain and want,
Shut me out with shame and failure
From your doors of gold and fame,
Give me your shabbiest, weariest hunger!

But leave me a little love,
A voice to speak to me in the day end,
A hand to touch me in the dark room
Breaking the long loneliness.
In the dusk of day-shapes
Blurring the sunset,
One little wandering, western star
Thrust out from the changing shores of shadow.
Let me go to the window,
Watch there the day-shapes of dusk
And wait and know the coming
Of a little love. 


Carl Sandburg

sábado, 10 de novembro de 2018

Molequinha






MOLEQUINHA


Você, que com um sorriso brejeiro       
colocou sol, alegria e risos no meu dia,
hoje, sorrindo, e com uma ponta de ironia,
me aconselha que devo esquecer.
Que não tento não posso dizer,
mas, o teu cheiro na fronha, na cama, no travesseiro
me traz tua imagem bem ligeiro
e o perfume presepeiro, molequinha,
parece estar na sala, no terraço, no ar
em todo lugar.
Finjo acreditar ser possível
não lembrar da beleza de teu riso,
dos teus olhos, que parecem céu e mar,
todavia, é novamente o teu cheiro
que, no jardim, parece das rosas brotar
e até na maçaneta do portão
sinto este perfume desalmado.
Ah! Molequinha,
meu coração dilacerado
sente o teu cheiro
no mundo inteiro!

Ilustração: Pais e Filhos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

António Carlos Cortez






POESIA 


a imensa claridade será
a tua luz de implacável bruma
espadas ou grutas ou sombras
galopam contra a sanguínea circulação
será a palavra um cavalo um nevoeiro
circunferência exacta a palavra
na tua mão aberta e será sílaba e silêncio
novamente claridade de estranhas avenidas
cidades por onde os olhos já arderam
onde as mãos são uma constelação e um rio
e lembram a carne de um poema no seu fogo
incerto nessa sombra só feita de sombra na cidade
e será a palavra um punhal de palavras
no verde vento onde encontrarás a memória da cidade


António Carlos Cortez



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

J. G. de Araújo Jorge






POEMA
Chovia... chovia...
Naquela tarde, como chovia!
Me lembro de que a chuva caía
lá fora
sem parar,
e seu surdo rumor até parecia
um sussurro de quem chora
ou uma cantiga de embalar...

Me lembro que tu chegaste
inquieta, ansiosa,
mas logo te aconchegaste
em meus braços, quietinha...
(...enrodilhada como uma gatinha...)

E eu quase não sabia o que fazer:
se de encontro ao meu peito te deixava adormecer...
se te mantinha acordada, para seres minha...

Me lembro que chovia... chovia sem parar...
E que a chuva caía a turvar as vidraças
anoitecendo o quarto em seus tons baços...

Me lembro de que te sentia
aconchegada em meus braços...

Me lembro que chovia...
E de que era bom porque chovia,
e porque estavas ali, e porque eu te queria...
Sim, me lembro que tudo era bom...
E que a chuva caía, caía,
monótona, sem parar,
naquele mesmo tom...

Naquela tarde, amor, como chovia!
Agora, quando longe de ti, nem sou mais eu
em minha melancolia,
não posso mais ouvir a chuva cair
que não fique a lembrar tudo o que aconteceu
naquele dia...

Naquele dia...
enquanto chovia...

J. G. de Araújo Jorge   

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