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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Gonçalves Dias /// Não me deixes!






POESIA


Não me deixes!

Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"

Gonçalves Dias   

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, ar livre e água


segunda-feira, 5 de novembro de 2018








DECIFRA-ME

Que os teus dedos não fiquem
sem rumo
à superfície da sede
Que a tua boca não seque no sal
de um mar inútil
de memórias
Pedras e lagrimas

Procura-me
na terra mais fértil
ou na aridez do caminho

Lê-me
no silêncio dos dias sem idade
sem destino

Sou eu o fogo do teu sol

EDGARDO XAVIER





Fernando Assis Pacheco






























Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caindo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.



Fernando Assis Pacheco   

Photo: Jeanloup Sieff

sábado, 3 de novembro de 2018

HELENA GUIMARÃES






NÃO-POEMA

Pediste-me um dia um poema,
poema que fosse teu.
Como ave delicada
que agoniza quando presa,
o poema nasce na alma,
movimenta-nos o sangue
com a força do desejo,
humedece-nos os lábios
com a ternura de um beijo,
dança na bainhas dos versos,
plana nas asas da calma,
amordaçado, ele morre
se soletrado fenece.
Poema não compreendido
torna-se vago, emudece.
Procurei o teu poema
no abraço da entrega,
nas pegadas paralelas
de mãos dadas junto ao mar,
na cumplicidade da noite,
na comunhão de um olhar.
Só descobri versos vagos
dançando ao som do medo,
abandonos calculados,
a reserva e o segredo.

Pediste-me um dia um poema,
poema que fosse teu.
Mas nesses versos dispersos,
o poema se perdeu.
Não consegui e foi pena.
Poema não construído
torna-se num não-poema!

HG Junho 2004
HELENA GUIMARÃES   

Texto alt automático indisponível.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018







Num bar 
junto ao mar 
deliciando bolo de chocolate divinal e fabuloso 
numa noite serena, 
musica de fundo, 
enrolar das ondas
beijando areia
misturado com o branco da salitra, 
senti me rendido ao amor 
levei a passear na praia 
removendo a areia 
lua espelhava no mar
beijei sua boca
Humedecidos nossos lábios
senti a sua respiração
Inspirei seu perfume 
passeei minhas mãos no seu corpo
enrolados pelo que sentíamos 
decidimos momentos de loucura.


 S.O.
   
A imagem pode conter: oceano, céu, nuvem, água, ar livre e natureza

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

helena guimarães






POESIA 

NO MEU INTERIOR...

No meu interior tenho um santuário
onde tu tens um altar...

É um lugar tão secreto
onde não entra ninguèm.
É um lugar de silêncio
onde eu medito também.

As velas são pensamentos
e os pensamentos são sonhos:
o chão ternura infinita,
onde me rojo a teus pés;
e em fantasias me deito,
despido meu corpo inteiro
em sacríficio de amor.

No meu interior tenho um santuário
onde tu tens um altar...

As ofertas são o sangue
que me corre acelerado
quando te vejo me olhando,
os olhos sempre fugindo;
e são a mente, tão cheia
só de ti, a noite e o dia ;
e a volúpia das horas 
pela mente construida,
e a Vida...

No meu interior tenho um santuário
onde tu estás num altar...

helena guimarães

Do livro "" INTIMIDADES ""
pag. 15 Ano 1994   




Texto alt automático indisponível.

Rui Knopfli





POEMA
transcendência...

Não rimes. 
Ou rima, se quiseres, 
mas não violentes 
a palavra. 
Não busques ansioso, 
qual amante inexperiente, 
a palavra.

Espera antes 
a sua vinda.

Música e rima 
são acessórios dispensáveis: 
O poema é outra coisa.

Deixa, pois, 
que as palavras acordem 
na matriz 
e caiam maduras. 
Áridas ou frias, 
secas e imperturbáveis, 
orvalhadas, humildes, 
estropiadas até, 
que sejam precisas, 
prenhes de significado.

Espera as palavras. 
Elas viajam misteriosas, 
desconhecidas ainda, 
elas germinam 
em ti.

Caem. Juntam-se. 
Doloridas, feias 
sob o visco placentário, 
deselegantes por vezes, 
elas procuram-se 
e organizam-se.

Juntas transcendem-se, 
há algo de íntimo, 
coeso e secreto 
nelas.

O poema está aí.
Rui Knopfli   
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