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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Nuno Júdice








geometrias...
Entre o teu corpo e a paisagem vejo abrir-se 
a distância que me leva de mim a ti. E se 
entre mim e ti outra distância não houvesse, 
limito-me a contar os passos que dou para 
que a conta não acabe. Tu, porém, olhas-me 
neste fundo de tabuada, e deixas que o teu 
braço seja a régua onde a distância se mede 
pelo abraço que falta. Então, acerto a conta 
pelo triângulo que o outro braço forma, 
quando seguras a cabeça, e fecho nesse ângulo 
a soma dos corpos que totalizam o amor.

Nuno Júdice     
Foto de Antonio Maria.


HELENA GUIMARÃES






POEMA

A alma a esvoaçar
o espaço,
dedos a definir
imaginários
contornos,...
o pensamento
submerso,
o sol aquietando-me
o peito,
neste sentir sem jeito,
sem razão,
num universo de sonho
a fluir na quietude
da tarde.
Sorvo o deleite
que invento,
embriago-me
no sentimento
para esquecer
o medo,
a angústia
da dúvida
que na razão
desperta
a cada
momento.

Helena Guimaraes
Janeiro 2003
FOTO DA POETISA     

Foto de Antonio Maria.

sábado, 16 de junho de 2018

Paul Éluard






















Falo-te através das cidades
Falo-te através das planícies
A minha boca repousa na tua almofada
Os dois lados da parede opôem-se
À minha voz que te reconhece
Falo-te de eternidade

Ó cidades lembranças de cidades
Cidades envoltas nos nossos desejos
Cidades precoces e tardias
Cidades fortificadas cidades íntimas
Despojadas de todos os seus pedreiros
Dos seus pensadores dos seus fantasmas

Campo modelo de esmeralda
Viva vivaz sobrevivente
O trigo do céu sobre a nossa terra
Alimenta a minha voz eu sonho eu choro
Rio e sonho entre as chamas
No meio dos cachos de sol

Sobre o meu corpo o teu corpo estende
A toalha do seu espelho transparente.



Paul Éluard

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Autor desconhecido






Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seicentos anos de lava --
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Foto de Antonio Maria.

Cidália Ferreira








Deambulando num só sentido

Foto de Cidália Ferreira. 
Deambulando pelo meu universo
Sozinha, num redopio contagiante
Envolta de pensamentos, saudade
Sentindo uma brisa marinha
No meu expressivo semblante
E num sentimento angustiante
Solto o meu grito, em liberdade,
Procuro no meu eu, o sentido perverso
E deixo-me levar pelo vento
Até onde eu puder chegar
Sem nunca desistir de te amar
*
Nos passadiços que a vida me oferece
Onde deixo meu rasto,
Sinto uma solidão em volta
A praia deserta, o sol escondido
As ondas amenas, o cheio do mar
Nada te traz ao meu mundo,
Deambulando num só sentido
Sinto as areias à solta
Uma brisa forte, pensamento profundo
Algo de mim que se quer soltar
E na orla do teu coração, poder ficar.
***
Cidália Ferreira.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Nuno Júdice
































Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.


Nuno Júdice

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Laura Ponce












Vivimos en el borde de las cosas
buscando vanamente no tocar el dolor.
Creemos que los bordes son una suerte
de corredor / esa distancia que nos pone a salvo.
Lo cierto es que en los bordes reside la tiranía de las cosas;
ellas ejercen allí y sólo desde allí
su pequeño y mortífero poder:
obligarnos a seguir su forma.
Corro a la par de la sombra de un pájaro que vuela:
no soy pájaro, no soy sombra/ apenas
me sujeto a la plumosa decisión de un ala,
al vaivén azaroso de la luz.
¡Si yo pudiera entrar en el temido corazón de la cosas!



Laura Ponce