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terça-feira, 3 de abril de 2018

Jaime Portela











A poesia só existe no olhar




Há poemas
que são figuras de estilo
com o diabo no corpo,
onde o poeta se perde a beijar os versos
sem pudor dos seus leitores.

Mas há poemas
que dispensam as palavras
para que tenham a música
e os acordes de um concerto
ou as cores e os esmaltes de uma tela.

Na verdade,
os poemas não são poemas,
porque as palavras,
a musica e as cores
estão na alma e nos olhos de quem lê.

A poesia só existe no olhar,
porque as palavras apenas te dizem
para onde deves olhar.

Jaime Portela   


Foto de Toni Bernhard, author.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

Manuel Sepúlveda









POESIA
É UM SEGREDO ENTRE OS DOIS

Depois do Amor...
Muito depois!...
Os meus olhos, ainda bêbados de tanto te olhar...
Não param de procurar o teu corpo ausente...
Sem cansar!
E todo este desejo que sinto,
Me parece uma loucura!...
E como ele dura...
Tanto tempo depois de te deixar!
Mas também de repente,
Vem uma angústia
Envenenar a minha mente...
- É quando te vejo...
E se lhe vem juntar
O medo de te perder...
De nunca mais te voltar a ter!..
Olha bem!..
Tudo o que hoje aqui te digo...
É um segredo entre os dois
Para não o dizeres a ninguém!
E assim como t´o confesso...
Agora...sou eu que te peço :
Diz-me ...
Se quando olhas para mim,
Contigo...
Acontece assim...
Também!  

Manuel Sepúlveda   

Foto de Antonio Maria.

Tabacaria . Fernando Pessoa








Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fernando Pessoa   


Foto de Antonio Maria.

Os caminhos da Felicidade, segundo Max Ehrmann







Os caminhos da Felicidade, segundo Max Ehrmann

Pessoa amiga enviou-me este video em que Ruy de Carvalho empresta a sua voz a esteprose poem intitulado Desiderata, de um autor norte-americano de nome Max Ehrmann. Nele são apontados alguns caminhos na procura da Felicidade. Aqui vo-lo deixo, com votos de uma Boa Páscoa.


domingo, 1 de abril de 2018

Ver TV na cama ... é no que dá








Ver TV na cama ... é no que dá


Uma noite, depois de alguns anos casados, o casal está na cama
quando a mulher sente que o seu marido começa a acariciá-la como não fazia há muito tempo. 
 Ele começou no pescoço, desceu pelo dorso até às nádegas; voltou ao pescoço, aos ombros, aos seios e parou na barriga; colocou a mão na parte interna do braço esquerdo, passou no seio, na nádega, na perna esquerda até o pé, subiu na parte interna da coxa e parou bem em cima da perna. 
Fez a mesma coisa na parte direita e, de repente, vira-se de costas e não fala uma palavra. 
 A esposa, diz-lhe carinhosamente: 
- Querido, estava maravilhoso, porque paraste?
 Ele resmungando: 
 - Já encontrei o comando​.​

BOA SEMANA

João marinheiro








insónia...



Não sei quantos dos dias ainda serão de chuva,
Não me importo que seja uma primavera adiada
As flores se atrasem a desabrochar
As noites são longas em mim
Não consigo vencer a falta de sono o desassossego interior

Por vezes dormes ao meu lado
Por vezes desenho-te de memória na cama
E percorro as tuas costas com beijos ternos
Por vezes acordas e dás-me um abraço apertadinho
Ficamos aninhados um no outro
Adormeço por fim…

Mas tudo é irrealidade em mim
Tu, a tua silhueta, a tua pele
As formas do teu corpo despido
Os cabelos na almofada desalinhados
As tuas mãos abertas...

E os beijos
São como gotas da chuva que escorre na vidraça fria
Não passam de criações do cérebro cansado
O desassossego interior
O livro aberto sobre a cama
A falta de sono…


João marinheiro
Ineditos 2013   


Foto de Hamilton Ramos Afonso -poesia.

De William Shaskespeare






Foto de Antonio Maria.