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domingo, 11 de setembro de 2016

Ana Luísa Amaral

 
REFLEXOS
 
 
...
Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
 
 
Ana Luísa Amaral  
 
 
 

ROUBADO A UM BLOG

 
 
ROUBADO  A  UM  BLOG
 
 
 
Rabisco indefinido para uma letra de canção
 
 
 
Vil perdão...
 
 
 
 
Eu perdoo você
e suas pequenas mentiras.
Suas grandes mentiras.
Suas mentiras
 
de todos os tamanhos.
 
Perdoo
as promessas de campanha,
as promissórias afetivas
seus ‘eujuros’ e 'euteamos'

  Perdoo a nudez fingida,
os seios oferecidos
as geometrias felizes
os trejeitos de Marilyn
e seus gozos de festim
.
Perdoo suas nuvens vazias de chuvas
seus minuanos, seus tsunamis
Perdoo os raros dias de sol
e sua ausência de verões

  Eu perdoo
 
 
Perdoo os seus boleros,
suas rumbas, suas dores
o aço frio dos punhais
o finco das bandarilhas
ardidas, urdidas
em minhas costas
e esta sangria imposta
feita de uis e ais
 
 
Perdoo você como
quem perdoa Judas.
Perdoo, principalmente,
seus pra sempre
 
 
 
 
 

sábado, 10 de setembro de 2016

Laura Santos


Impermanência

                                                            J.J. Cazin



                                                       Sinto em mim a falta de um alguém
                                                       A falta de um alguém que seja eu
                                                       Pois embora seja não sou porém
                                                       Diluída num sol que entardeceu

                                                        Sei que existo e não estou em mim
                                                        E de tanto me vislumbrar assim
                                                        Sendo o direito e o meu avesso
                                                        É difusa a noite que atravesso

                                                        Em mim fico e de mim me ausento
                                                        Quando tantas vezes me preciso
                                                         E só fico em mim por um momento

                                                         O encontro comigo é fugaz
                                                         O instante passa  só releva
                                                         O ser que em mim emerge e se desfaz   
 
 
 
 
Laura Santos    
 
 
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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Uma poesia de Alda Merini

 


Alda Merini                                                                              

Se tu vedi il mio uomo
carezzagli dolcemente la fronte
è lì che abita il suo grande pensiero.
Se tu vedi il mio uomo
affondagli un coltello nel cuore
e fagli uscire il grumo di sangue
della donna che l’ha ingannato.
Se tu incontri il mio uomo
bagnagli dolcemente le labbra,
ha sete da tanto tempo.
Ma se tu vedi il mio uomo
stenditi dolcemente vicino a lui
è un uomo che sa amare.


Se tu vires o meu homem
acaricia docemente a sua fronte
é ali onde vive o seu alto pensamento.
Se tu vires meu homem
enfia-lhe uma faca no coração
e deixa sair um coágulo de sangue
da mulher que o tenha enganado.
Se tu encontras o meu homem
molha-lhe docemente os lábios
que ele tem sede faz muito tempo.
Porém, se tu vires o meu homem
tendo-te docemente a seu lado
é um homem que sabe amar.

Carlos Drummond de Andrade

vivências 
 
 
 
    

































Ganhei (perdi) meu dia. 
E baixa a coisa fria 
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaçam, num suspiro. 

E me pergunto e me respiro 
na fuga deste dia que era mil 
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia 
tão rico deste dia 
e lá se foi secreto, ao serro frio. 

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera 
bem antes sua vaga pedraria? 
Mas quando me perdi, se estou perdido 
antes de haver nascido 
e me nasci votado à perda 
de frutos que não tenho nem colhia? 

Gastei meu dia. Nele me perdi. 
De tantas perdas uma clara via 
por certo se abriria 
de mim a mim, estrela fria. 
As árvores lá fora se meditam. 
O inverno é quente em mim, que o estou berrando 
e em mim vai derretendo 
este torrão de sal que está chorando. 

Ah, chega de lamento e versos ditos 
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça, 
ao ouvido do muro, 
ao liso ouvido gotejante 
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia 
seu tapete de água, distraída. 

E vou me recolher 
ao cofre de fantasmas, que a notícia 
de perdidos lá não chegue nem açule 
os olhos policiais do amor-vigia. 
Não me procurem que me perdi eu mesmo 
como os homens se matam, e as enguias 
à loca se recolhem, na água fria.

Dia, 
espelho de projeto não vivido, 
e contudo viver era tão flamas 
na promessa dos deuses; e é tão ríspido 
em meio aos oratórios já vazios 
em que a alma barroca tenta confortar-se,
mas só vislumbra o frio noutro frio. 

Meu Deus, essência estranha 
ao vaso que me sinto, ou forma vã, 
pois que, eu essência, não habito 
vossa arquitetura imerecida; 
meu Deus e meu conflito, 
nem vos dou conta de mim nem desafio 
as garras inefáveis: eis que assisto 
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo 
de me tornar planície em que já pisam 
servos e bois e militares em serviço 
da sombra, e uma criança 
que o tempo novo me anuncia e nega. 

Terra a que me inclino sob o frio 
de minha testa que se alonga, 
e sinto mais presente quando aspiro 
em ti o fumo antigo dos parentes, 
minha terra, me tens; e teu cativo 
passeias brandamente 
como ao que vai morrer se estende a vista 
de espaços luminosos, intocáveis: 
em mim o que resiste são teus poros. 
E sou meu próprio frio que me fecho 
Corto o frio da folha. Sou teu frio. 

E sou meu próprio frio que me fecho 
longe do amor desabitado e líquido, 
amor em que me amaram, me feriram 
sete vezes por dia em sete dias 
de sete vidas de ouro, 
amor, fonte de eterno frio, 
minha pena deserta, ao fim de março, 
amor, quem contaria? 
E já não sei se é jogo, ou se poesia.



Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

GONÇALO SALVADO ////// FULGIDEZ

 

  

 




Como aves extraviadas
 
 
 
 
 
 
 
sob o torpor de tanta luz
nossas bocas
unem-se ansiosas,
ardem juntas
num delírio rubro,
ébrias de gemidos,
nuas, alucinadas,
seduzem-se,
perturbam-se,
embriagam-se,
entregam-se ferventes
e enfeitiçadas,
em êxtase bebem
o fragor do lume,
sorvem o ardor
e a cupidez do vinho,
mordem-se
como polpas tenras,
sumarentas,
inebriadas,
queimam-se,
ferem-se,
húmidas de tantos beijos,
de fogo tão sequiosas,
chamas convulsas
bruxuleando claras.
E quase morrem calcinadas,
exaustas, loucas, desvairadas,
num frémito de labaredas,
em fogueiras acesas, altas,
transfiguradas –
Serão centelhas vivas, alvoroçadas?
Fúlgidas quimeras abrasadas? 
 
 
Gonçalo Salvador

Fernando Campos de Castro





SERVE - TE  DE MIM


 
Intemporal
ofereço - te o meu corpo
como um animal submisso e casto
à espera do voo dos teus dedos
Sem dúvidas ou medos
inclina - te sobre mim e incendeia - me os olhos
com a luz dos teus ombros
Ao menos por uma noite serve - te de mim
e sacia todos os teus desejos
expondo na minha pele luxúrias adormecidas
Crava - te em mim e cansa - me
na satisfação adiada de todos os teus vícios
Grita de prazer montada no cavalo alado da fantasia
e mergulha no rio de suor e cheiro
que me cresce no corpo
Depois
extenuada
deita - te gloriosa  e resplandecente sobre mim
para que eu possa de mãos calmíssimas e brancas
abrir duas rosas vermelhas
nos teus seios eternamente soberbos  
 
 


Fernando Campos de Castro