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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Tomaz Jorge



“Búzio”
 
 
 

Hoje não trago nada que dizer....
Sossega o teu rosto no meu peito
Repousa em mim a tua tristeza.
Ouve os segredos que te não digo
E a canção de forte esperança
Que germina e rompe devagarinho
Por todos os caminhos da vida,
Na pureza desta tarde,
Ao lusco fusco,
Abre comigo os olhos para os belos horizontes
Cada poente mistifica sempre
Uma nova madrugada.
Repousa em mim a tua tristeza.
Abre comigo os olhos para a vida.
Hoje a minha voz é de búzio
Fala baixo e em segredo
Numa canção que enche o mar, o mundo,
E germina e rompe devagarinho
Por sobre os escombros de luz
Deste poente que cai sobre o mar
Numa angústia de eternidade.
 
Tomaz Jorge
 
Arte: Búzio na areia , foto de Pedro Sousa  
 
 
 
 
 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Fernando Assis Pacheco

terça-feira, 6 de Setembro 2016


Falei de ti com as palavras mais limpas /// Fernando Assis Pacheco



Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.


Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.


Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na
minha lâmpada

 brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
 
 
 

Fernando Campos de Castro

 
 
 
OLHO AS MINHAS MÃOS
 
 
 
 
Olho as minhas mãos
e o que vejo é este frio vazio e solidão e nada
A corola esbatida do teu último beijo
e em fios de angústia
aquela madrugada
 
 
Escorrem - me dos dedos restos do teu nome
e em sílabas geladas
o teu corpo desnudo me aflora aos olhos
que em teu nome fechei e expus a tudo
 
 
Olho as minhas mãos e o que vejo é sangue
é sal do teu corpo de desejo comungando o meu corpo
em desvario
 
 
Com estilhaços de bruma rememoro a tua carne em fogo
e de remorso choro
olhando as minhas mãos de febre e frio


Fernando Campos de Castro

Do livro :  Violação da Noite / 2000 



domingo, 4 de setembro de 2016

Fernando Campos de Castro

 
 
 
NOCTURNO  PARA DOIS
 
 
Vem... a mesa já está posta para os dois
Sobre a toalha feita em malmequeres
Já pus a vela acesa
para depois pôr a tocar o disco que preferes
Vamos fazer a nossa sinfonia
Eu...eu tocarei piano e tu cantarás esta canção
de sonho e alegria que com amor te dou
e tu me dás.
Vem...que a noite é poema que te dou
no fogo da lareira apetecida
aquela que o amor incendiou trazendo a luz de novo
à minha vida
Vamos fazer aqui o universo
Eu...eu dar-te-ei  estrelas que acendi nesta paixão
que pus em cada verso que com amor invento para ti
Vem amor...envolta em rosas cravo e hortelã
ouvir este Nocturno de Chopin
e todo o resto amor  virá depois
Vem amor...envolta numa onda de paixões
matar esta fogueira de  emoções
até que a noite morra entre nós dois.



FERNANDO  CAMPOS DE CASTRO

Do livro de poemas  VIOLAÇÃO DA NOITE
Edição ; Maio de 2000

Nasceu em Lever  : Vila Nova de Gaia em 27 de Agosto de 1952/ PORTUGAL






Nocturno de Chopin 

Clique no endereço ;

https://youtu.be/9E6b3swbnWg  

  










sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Laura Santos

A pomba

 
 
 
 
Sonhei que o teu corpo era um riacho.
Nas tuas margens plantei todas as sementes;
De ti tudo nasceu, tudo transformaste:
O que sonhei, o que sonhaste.
Do sol veio a luz,
No teu corpo lavrado floresci.
Depois nem sei, vi que mudaste.
Já não eras riacho, eras fonte seca
Onde mirei o meu olhar.
Do teu corpo nu brotou a árvore,
Dos teus cabelos revoltos, como folhas, o silêncio
As minhas mãos poisaram como pássaros
Nas tuas mãos abertas como pontes.
Tua boca debiquei e tu sorriste.
Do nada surgiu o teu peito branco,
Nas tuas costas graníticas me sentei.
Debrucei-me sobre ti, uma nuvem surgiu;
Do céu dos teus olhos, como grãos
Gotas caíram.
Sequiosa pomba mensageira, uma bebi.
Passei teu território, a fronteira.
Voltei de novo a ti mas não te vi.
Diz-me meu amor porque voaste...
 
 

Laura Santos   
 
 
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

rui amaral mendes

visões

...







perco-me na visão
desse teu corpo lânguido
que agora se entrega ao meu olhar.
nas sombras que se projectam
vislumbro o erotismo de dois corpos
que se compreendem,
autenticam,
por entre abandonos
às linguagens idiossincráticas
e à natureza metafísica e intemporal
do desejo.
lábios tumescidos e ardentes
aspiram a tez láctea que reveste
quem és.
cabelo seríceo cai
sobre teus ombros afagando docemente
o rosto de menina carente
onde desponta a malícia da
feminilidade felina de um olhar.
o contorno delicadamente decalcado
dos teus seios:
montes e vales de alabastro
onde me perco
rumo à origem do mundo.
por fim
o cheiro do teu corpo depois do amor:
eu em ti, tu em mim,
um no outro.
 
 

rui amaral mendes in triptico [2016]   
 
 
 

João Dimas Fiotte

 
 
 
 
Sempre soubemos que um dia seria assim
era tarde, muito tarde...Tarde de mais!...
a tristeza fazia sentir-se, como as paredes do inverno frio
nenhum de nós queria dizer o ultimo adeus!
as flores do tempo murcharam lá atrás, no esquecimento dos lábios arrefecidos
lentamente apertei os sapatos na convicção de que jamais tornaria a fazer o caminho de volta.
Os poemas secaram na cama que foi dos dois.
Agora só me resta erguer os olhos molhados e enxuga-los pelo caminho.
Chegou o momento de ganhar asas, esquecer todos silêncios, ser audaz e mergulhar no abismo ...
Sim irei... Antes que o meu coração esqueça o susto e a boa surpresa.
Ainda acredito que o amanhã tenha pele de veludo e voluptuosa paixão no peito.
Foi bom, enquanto foi bom. Sempre soubemos que um dia seria assim !
 



Autor: João Dimas Fiotte