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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Cidália Ferreira //// Tento subir......

Tento subir...
 
 
 

Tento subir, degrau em degrau
Para alguém poder encontrar
Não encontro nem o vejo passar
Nem o sol me quer visitar
Não me aquece, sinto-o fugir,
Tento romper a imensidão
Do nevoeiro denso, tenho olhar
O céu não consigo alcançar
Nem o seu azul a brilhar,
Espaçadamente quero subir
Subir a escada da vida
Mas o nevoeiro fica serrado
Não me deixa ir mais além
Impedindo que encontre alguém
Tento subir, tenho alcançar-te
Tento estar ao nível que pedes
Fazes de mim pessoa de bem
Desenvolves a minha pequenez
Tento subir depois e talvez
O tempo alise e eu possa ver
O sol a brilhar, tudo a fluir
E no cimo da escada, o teu sorrir.

Cidália Ferreira




quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Vieira Calado //// Os teus olhos



OS TEUS OLHOS



 Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios
perpassando na bruma antiquíssima da montanha
e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas
que se extinguem ao clarim da aurora
 
Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias
iluminando a cinza prateada das escarpas
na cor serena tranquila das memórias
que renascem ao clarim da aurora
 
Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas
onde crescem os ventos ágeis da planície
a luz milenar da manhã primeira
que me acordou ao clarim da aurora.


Vieira Calado  


Resultado de imagem para foto de olhos verdes



EDGARDO XAVIER //// Decifra-me....


 DECIFRA-ME
 Que os teus dedos não fiquem
 sem rumo
 à superfície da sede
 Que a tua boca não seque no sal
 de um mar inútil
 de memórias
 Pedras e lagrimas
Procura-me
 na terra mais fértil
 ou na aridez do caminho
Lê-me
 no silêncio dos dias sem idade
 sem destino
Sou eu o fogo do teu sol

EDGARDO XAVIER  



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Eugénio de Castro //// Rosa murcha

ROSA MURCHA


 _ «Quarenta anos fez ontem (sexta-feira
«Da Paixão do Senhor!) a mulher doce
«Que há oito dias para aqui me trouxe
«Da minha verde e maternal roseira.
 
«Amou com vivo amor... e está solteira!
«Sua trança doirada desdoirou-se,
«E chora como as fontes! Antes fosse
«Em tranquilo convento ingénua freira!
 
«Ontem, no seu jantar sem convidados,
«Sem sobremesa, silencioso e curto,
«Só conversava com o relógio velho...
 
«E erguendo os olhos, d'água marejados,
«Para mim, murcha rosa, olhava a furto,
«Como se eu fosse em frente dela um espelho

 Eugénio de Castro  



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

são reis //// Sei.....................


Sei que me habitas
 que estás aonde eu estou
 que te fazes presença
 mesmo quando o teu corpo é ausente
 que me encontras em cada virar de página
 em cada nota que tocas
 nessa tua guitarra que geme
 notas que nem a garganta se atreve a cantar
Sei que estou nos teus versos
 nesses que escreves
 e nos que pensas
 nos pormenores com que descreves os sonhos
 a forma dos meus olhos
 o canto das aves que a medo se recolhem
Sei a cor de um céu estrelado
 e a forma de todas as estrelas
 Sei que esta noite estarás aonde pairar
 a minha imaginação
 ao alcance da minha mão
 no declive dos meus dedos tornados areia
 no eriçar da minha pele
 no gemer da minha carne
Sei que estás aí
 embora eu não te toque
 embora eu não te veja!


são reis   




domingo, 1 de novembro de 2015

Vinicius de Moraes //// Ternura

Ternura



Eu te peço perdão por te amar de repente
 Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
 Das horas que passei à sombra dos teus gestos
 Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
 Das noites que vivi acalentado
 Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
 Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
 E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
 Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
 Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
 É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
 E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
 E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


- Vinicius de Moraes 





Catarina Pinto Bastos //// Declaração de amor......

DECLARAÇÃO AO MEU AMOR



És prenda valiosa, que aceito sem hesitar!
 Não precisa de embrulho, nem de laço
…a não ser, o do abraço que me vais dar...
 Escrevi-te estas palavras de coração a palpitar
 ...e de tanta comoção não dei conta, de afinal
…tudo estar a rimar… tal como mar com amar

Há laços entrelaçados nos abraços, e são
 ... tantos amor, que eu tenho para te dar…
E a certeza de inteira só a ti me querer dar...
 Sei meu amor, que para sempre te irei amar
 pelo tempo que restar, no teu coração vais morar.



Catarina Pinto Bastos