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terça-feira, 4 de novembro de 2014

Laura Santos //// Pele....

 
 
Tudo acorda em mim enevoado
quando em mim te afundas e te deitas.
Um torpor, um arrepio na espinha
quando nas minhas coxas te ajeitas
em leve murmúrio abafado
numa vontade que já não é minha.
Seiva, saliva, humidade de poros,
vaga de lume batida em corpo salgado
tropicais cascatas e meteoros
oscilando em revolta navegação
como calado de barco afogado
fogo liberto em silêncio de amarração.
A minha pele adormecida
 é avida de astrolábios desconcertados
de tanta sede acometida.
De gestos de ternura perfumados
de sol, chuva e frescas nuvens
de mastros de coragem levantados.
 
Mas tu hoje não vens...
 
Laura Santos 
 
 
Nu sentado //  Picasso
 
 
 
 
Márcia com JP Simões, "A Pele Que Há Em Mim"(Quando o Dia Entardeceu). Pelo poema, e pela voz do JP Simões. "Sobre a pele que há em mim tu não sabes nada. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O meu barco vazio na madrugada."
 
 
 
 

António Ramos Rosa ///// Corpo....


Procuro no corpo uma gentileza nova
a garua pardente de um pesado rochedo
envolto em longos enrolados e sedosos cabelos
É a densa divindade a divindade leve
dádiva de um firmamento submerso de selvagem suavidade
para além do tumultuoso desastre e da violência dos monstros
Eurídice num barco obscuro com o seu rosto de lua
sobre o seu túmulo branco entre a sombra e o canto
oferece o torso vegetal e o seu seu sombrio sangue
entre nostálgicos murmúrios e voluptuosos queixumes
Ela é a rocha a sombra adormecida
no vermelho silêncio do meu corpo ancestral
e só ela pode dar um rosto eterno ao mar
É ela que se ergue e se estende na praia
desta página aberta ao seu divino corpo
E eu que sou eu senão o seu amante
que vive do seu sopro que bebe o seu silêncio

António Ramos Rosa 
 
 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

são reis //// Quando....

Quando tudo parecia correr bem
vieste tu e roubaste-me os olhos
Depois roubaste-me o sorriso
e eu apenas olhava sem sorrir
Quando tudo parecia correr bem
levaste-me as asas e eu
fiquei presa ao chão
rasteira
mas ainda promissora
Quando tudo parecia correr bem
foste embora
largaste a minha mão
e disseste que tudo tinha sido um engano
Que pena!
Logo agora que tinha começado
a aprender a voar
a confiar nas minhas asas
e a entender que o céu é muito mais azul
quando tocado e visto por dentro
 

São Reis
 
 

Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit

 
Quelqu'un M'a Dit
On me dit que nos vies ne valent pas grand chose
Elles passent en un instant comme fanent les roses
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux
Pourtant quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore
Serait ce possible alors
On dit que le destin se moque bien de nous
Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout
Parait qu'le bonheur est à portée de main
Alors on tend la main et on se retrouve fou
Pourtant quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore
Serait ce possible alors
Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais
Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit
J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits
Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit
Tu vois quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore, me l'a t'on vraiment dit
Que tu m'aimais encore, serais ce possible alors
On me dit que nos vies ne valent pas grand chose
Elles passent en un instant comme fanent les roses
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux
Pourtant quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore
Serait ce possible alors
 

Alguém me disse
Falam que nossas vidas não valem grande coisa
Elas passam em um momento, como murcham as rosas
Falam que o tempo é um bastardo
Que de nossas tristezas ele faz um casaco
No entanto alguém me disse
Que você ainda me ama
Alguém que me disse que você ainda me ama
Será isto possível então?
Falam me que o destino se diverte conosco
Que não nos dá nada e que nos promete tudo
Que a felicidade está dentro do alcance
Então você estende a mão e se descobre louco
No entanto alguém me disse
Que você ainda me ama
Alguém que me disse que você ainda me ama
Será isto possível então?
Mas quem me disse que você sempre me ama?
Eu não recordo mais, era tarde da noite
Eu ouço ainda a voz, mas eu não vejo o rosto
"Ele ama você, isso é segredo, não lhe diga que eu disse a você"
Você vê alguém dizendo a mim que você ainda me ama
Você realmente me disse que você ainda me ama
Seria isto possível então?
Falam que nossas vidas não valem grande coisa
Elas passam em um momento, como murcham as rosas
Falam que o tempo é um bastardo
Que nossas tristezas são aparência
No entanto alguém me disse
Que você ainda me ama
Alguém que me disse que você ainda me ama
Será isto possível então?








domingo, 2 de novembro de 2014

Poema de São Reis

É como se te abraçasse
ao me abraçar
como se te beijasse
ao me beijar
como se ao meu nome se sobrepusesse o teu
e fosse essa a única verdade
a única realidade
que me acorda os sentidos
a única que verdadeiramente me importa
Como se o teu nome
fosse tão-somente o refrão
de uma velha canção
que me baloiça nos lábios
desde sempre
como se fosse um pião
de movimentos tão precisos e sábios
que gira destramente
não importa quantas voltas lhes dês
onde basta a primeira sílaba
para que eles me adivinhem o resto
ainda que eu feche os olhos
e me alheie de tudo
Ainda que eu nada veja e tudo emudeça
E ainda que por breves momentos eu enlouqueça
e me pareça
que não sou eu quem me abraço
mas que és tu que estás aqui


são reis .



Laura Santos //// CHUVA.....


                              
                               Águas caíram, galgaram a margem.
                               Não há nuvem que sempre dure
                               Nem leito de rio que perdure
                               Seco, não vibrante na paisagem.
                               Choveu. Mesmo agora.
                               Lá fora e dentro de ti.
                               Não há no entanto
                               Desencanto pelas fragas.
                               Apenas ecos dispersos pelo monte
                               Anunciando sem mágoas
                               A eterna juventude dos deuses
                               A cintilar em cada fonte.
                               Pardais partiram em debandada
                               Sacudindo as pesadas penas
                               Em esvoaçante, fulminante segundo;
                               Transportando p'lo imenso arvoredo
                               Gotas de luz p'ró interior do mundo.

Laura Santos  





sábado, 1 de novembro de 2014

Amália Rodrigues ( Diva do fado ) //// Disse-te adeus e morri...

Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.
 
Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar.
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.
 
Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras.
 
Vasco de Lima Couto