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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

a história começa assim:

SEARAS E PAPOILAS



Era uma vez….
Assim começam as histórias
que nos contam as glórias
dos heróis, ou os devaneios
da nossa imaginação.
Era uma vez,
(A história começa assim)
uma borboleta de asas brancas
tão finas como cambraia
que em voo saltitante,
passeava radiante
por um belo campo de trigo.
Pareceu-lhe um bom abrigo!
A seara ondeava calma
até além, ao horizonte,
cabelos de ouro fino
penteados pela brisa.
Mar doirado que desliza
em murmúrio ao sol de Verão.
Aqui e ali, pontos escarlate,
as papoilas abrem as corolas,
húmidas, macias de cetim.
-Hei, borboleta, diz a espiga,
pousa em mim tua candura
vem partilhar minha doçura
eu e as minhas companheiras
somos úteros de pão.
Vem degustar o meu grão
que dá a vida para ser sustento.
Em gargalhada sonora
responde atrevida a papoila
torcendo os estames amarelos,
a mostrar os seus carpelos.
- Tu és pálida, sem encantos,
teu perfume é a farinha
tens barbas que magoam asas.
Eu sou húmida e macia
e vermelha de paixão.
- Mas és papoila dormideira!
Na tua cor escarlate,
no néctar maligno e doce
dormita a mão da Ceifeira.
Virou-lhe a papoila a corola,
na sua haste elegante
mostrando-lhe o seu melindre.
- Borboleta, és tão bela,
pareces um anjo voando
dá-me o teu beijo de amor
dar-te-ei a minha cor
conhecerás a paixão
e ao calor deste sol
viveremos nos amando.

(Ninguém lhe falara assim!)
mirou a corola de cetim,
pousou cansada e incauta
sorveu o néctar num beijo,
saciou o seu desejo.
Num adejar lento e breve
uniu as asas, morreu.
Naquela loira seara,
aquele ponto escarlate
ficou manchado de neve.
Uma incauta mariposa
morreu de amor e desejo
apenas, e só, por um beijo!


Helena Guimarães

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Tempos




Eu sempre soube da verdade em teus olhos.
O que eles me disseram mantive guardado,
fora do alcance das conversas.

Havia um tempo em que a despedida
principiava um outro encontro,
escondido dos olhos e das conversas.

Havia um tempo com um doce cheiro no ar
de todos os perfumes.
Uma busca constante do olhar,
um gosto a mais nas coisas...
Era batom!

E era depois a pele,
o deslizar dos cabelos,
o afago das mãos...

A casa cheia de nossas conversas,
dos modos, das esperas e demoras.
Uma vida em tantos acordar!

Era por fim um outro olhar,
sem mais as mesmas verdades
(embora nunca mentiras).
Mas sem as mesmas respostas.

Outras vozes agora falam no nosso silêncio.
Mudamos os rumos,
os olhares,
o sentido da conversa.

Celso Brito

Foto:Janosch Simon

Um poeta não fode, ama

Um poeta não fode, ama



Um poeta não fode, ama.
Um poeta faz da página cama
Onde se deita, se contorce
Se abre e se sacia.
Um poeta toca as palavras
Como se acariciasse o corpo
E o poema cresce
E o poeta é verso
Que rola na página cama
Onde o poeta não fode, mas ama
E acaricia o corpo/verso
E o orgasmo que tem
É a poesia!


in"Encandescente"

Do blog : WebClub



AMINTA

Ronald Rivas

Aminta la hija inmortal del viento
Dejó su secreto disperso
En la hierba de las horas
Cuando soy, a penas,
Un escarabajo
Que recoge su tedio en las líneas más densas de la grama,
Planta su sonrisa mientras acaricia mi huesudo corazón
Y desearía ser el gatito en medio de sus piernas.

Aminta

Aminta, a filha imortal do vento,
Deixou seu segredo disperso
Na grama das horas.
Quando sou, apenas,
Um escaravelho
Que recolhe o seu tédio nas linhas mais densas da grama,
Planta o seu sorriso enquanto acaricia meu coração de osso
E desejaria ser o gatinho no meio de suas pernas.

Do blog : spersivo/br

Número da paixão




Na corda bamba quero ser teu contrapeso
no número das facas assobiar nos teus ouvidos
no globo da morte quero ser teu copiloto
no vai e vem do trapézio quero ser quem te segura

quero te acompanhar pelas ruas do rio sorrindo ou chorando
quero me molhar todinho só pra te deixar sequinha nesse temporal
quero te abraçar apaixonado sentir teu coração pulsar
quero te beijar do oiapoque ao chuí, bem te vi

porque eu sei que teus cabelos são tempestades que me alucinam
que despencarei cada vez que subir nos teus andaimes
que me esfaquearei transtornado com suas subtis insinuações sobre o
tempo

que me transmutarei em nêspera cada vez que me disseres:
hasta luego, luz del fuego
que vagarei sem esperanças quando não mais fizeres parte
dos meus próximos capítulos
que capitularei enfim, com a cabeça espatifada nos escombros
do meu próprio coração.

Chacal

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cálice do amor ....



Sorvo os teus lábios no cálice do amor.
é um vinho extasiante;
embriaga-me de ternura,
dá-me novo alento.

A energia que invade o meu peito
dissipa todos os senões
como se nunca tivessem existido.
O tempo para. O momento é nosso.

às vezes, tudo parece ilusão,
mas a ilusão é o toque mágico
com que a realidade brinda a vida.

Entregamo-nos intensamente.
Cabeça, corpo, emoção são o elo
que permeiam duas essências a se refletirem.
Dois espelhos antepostos e uma única imagem.

O descanso não existe.
O calor é avassalador.
O amor é o fruto de todas as nossas realizações,
cada um construindo o outro, em busca de nós mesmos.

Paulo José Pinheiro Machado


Foto:Haleh Bryan

Sacode as nuvens



Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que tu respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Imagem retirada do Google