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terça-feira, 1 de abril de 2025

POESIA

 




Todos os dias se escrevem milhares de poemas 
em bilhetes de autocarro em guardanapos dos cafés nos mais variados cadernos 
e acabam em pastas nas gavetas ou no computador ou no cérebro 
A maioria como este se não nesse dia passados alguns meses ou anos 
acaba no caixote do lixo 

Um dia acordas de repente e o que não fazia sentido passou a fazê-lo 
ou o que fazia sentido deixou de o fazer 
palavras trocam de lugar vogais e consoantes engalfinham-se 
o que não rimava passou a rimar 
ou a navegar ou a voar ou a rastejar 
alguns poemas erguem-se na página em branco 

E corres a procurá-los no caixote do lixo entre os restos da última refeição 
que por acaso foi de peixe 
mas o camião do lixo acabara de passar 

Todos os dias se escrevem milhares de poemas


Jorge Sousa Braga




Abadia de Kylemore, Irlanda



sábado, 29 de março de 2025

POESIA

 




No princípio, só a vida existia; 
O mundo era o que havia 
Ao alcance da vida...
E mais nada. 

Tudo era certo, simples, claro. 

Quando o passado passar 
(E passará, porque o passado é hoje) 
E o futuro vier 
(E há-de vir, porque o futuro é hoje), 
Então, sim; há-de saber-se tudo 
E tudo será certo, simples, claro. 

Eu, porém, não sei nada.


Reinaldo Ferreira




sexta-feira, 28 de março de 2025

Mercedes Sosa - Gracias a la vida




Eterna Voz Latina De Mercedes Soss...Em Buenos Aires...No Ano De 1982.😊😊😊😊

terça-feira, 25 de março de 2025

POESIA

 

O Alicerce da Poesia



Poeta seja direto-ela me disse-

Por que ainda fazer poesia? 

Não é tolice?

E me olhou com seus belos olhos,

que só a poesia poderia perceber.

Dei, porém, uma resposta clichê:

-A realidade é muito cruel sem poesia. 

Ela me olhou, talvez decepcionada 

por considerar minha resposta evasiva,

com um olhar descrente

de quem desejava um argumento mais convincente. 

Então tive que dizer

que o todo poeta é só um meio, 

pois a poesia transcende o poeta. 

Ele, como uma antena, apenas recebe,

em silêncio, mensagens das quais nada sabe.

A poesia como um raio cai, de forma sempre inesperada, 

como uma carícia ou uma chicotada

sem precisar de razões. 

A poesia é a apreensão de um momento

e só existe quando gera sensações, 

quando cria sentimentos. 

Ilustração: Editoras.Com. 

POESIA

 

Mar




Quero um cavalo de várias cores, 
Quero-o depressa que vou partir. 
Esperam-me prados com tantas flores, 
Que só cavalos de várias cores 
Podem servir. 

Quero uma sela feita de restos 
Dalguma nuvem que ande no céu. 
Quero-a evasiva - nimbos e cerros - 
Sobre os valados, sobre os aterros, 
Que o mundo é meu. 

Quero que as rédeas façam prodígios: 
Voa, cavalo, galopa mais, 
Trepa às camadas do céu sem fundo, 
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, 
Para onde tendem as catedrais. 

Deixem que eu parta, agora, já, 
Antes que murchem todas as flores. 
Tenho a loucura, sei o caminho, 
Mas como posso partir sozinho 
Sem um cavalo de várias cores?


Reinaldo Ferreira






quinta-feira, 20 de março de 2025

................. "foda-se!"

 

Foda-se (por Millôr Fernandes) - óptimo anti-stress




O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz.

Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?

O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor.

Reorganiza as coisas. Liberta-me.

"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"

"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?

"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via Láctea tem estrelas comó caralho!

O Sol está quente comó caralho!

O universo é antigo comó caralho!

Eu gosto do meu clube comó caralho!

O gajo é parvo comó caralho!

Entendes?

No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!".

Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.

O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.

Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.

Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.

Solta logo um definitivo:

"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".

O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)

Há outros palavrões igualmente clássicos.

Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.

Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.

Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?

Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:

"Chega! Vai levar no olho do cu!"?

Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.

Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".

Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"

Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”

Então:

Liberdade,

Igualdade,

Fraternidade

e

foda-se!!!

Mas não desespere:

Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”

Atente no que lhe digo!

Reinaldo Ferreira

 




No princípio, só a vida existia; 
O mundo era o que havia 
Ao alcance da vida...
E mais nada. 

Tudo era certo, simples, claro. 

Quando o passado passar 
(E passará, porque o passado é hoje) 
E o futuro vier 
(E há-de vir, porque o futuro é hoje), 
Então, sim; há-de saber-se tudo 
E tudo será certo, simples, claro. 

Eu, porém, não sei nada.


Reinaldo Ferreira




Madonna della Corona, Itália