Aprendo com as mãos a gramática do teu corpo,
separando orações e dividindo sílabas. Atravesso
a conjugação dos teus seios, perco-me no gerúndio
dos teus cabelos, erro, por vezes, no enunciado
dos verbos. Mas aceito as tuas emendas, e volto
ao princípio da frase quando me dizes que tenho
de voltar a pôr acentos e vírgulas, ou que me
enganei nos complementos. Com efeito, não é
fácil esta gramática que percorre a língua
do amor, a única que não precisa de
dicionários e que, por vezes, nem precisa
de palavras. "Então", perguntas, "para que serve
todo este trabalho?" Mas quando te respondo
que tudo tem de ser feito segundo as regras,
e que nem a gramática do amor as dispensa,
vais ao quadro e apagas tudo o que lá estava,
para recomeçarmos, como se ainda não soubéssemos
como se enche o quadro branco.
Nuno Júdice
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