Não desesperarei da Humanidade.
Por mais que o mundo, o acaso, a Providência, tudo,
à minha volta afogue em lágrimas e bombas
os sonhos de liberdade e de justiça;
por mais que tudo o que a maldade busque
para encobrir-se traia o que ainda esperamos;
por mais que a estupidez rica de bens e audácia
estrangule a lucidez dos que vêem claro;
por mais que tudo caia, acabe, se suspenda;
por mais que a Humanidade volte ao bando apavorado
que os cães servis acossam aos redis avaros;
por mais que a noite desça, o frio gele
as últimas esperanças, em luar cendrado
cujo silêncio nem gritos de criança
possam trespassar -
não desesperarei da Humanidade. Em vão
me aturdem, me intimidam, me destroem;
em vão se juntam todos imprecando ignaros. Não!
Podem fazer o que quiserem. Podem
tornar-me anónimo, traidor ou prostituta,
que não desesperarei. Com os olhos postos
na terra devastada em nome da justiça,
vendo os mortos e os assassinos mortos
que a liberdade em fúria assassinou,
ouvindo o lume negro, o odor sombrio
da paz sangrando apodrecida em escárnio,
esperarei ainda e sempre. Para além
de mim, de tudo. Esperarei tranquilo.
Jorge de Sena
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