quinta-feira, 28 de julho de 2016

Mia Couto

Pergunta-me
Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda ...

o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
 
 
Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'   
 
 
 

1 comentário:

  1. Foram noites e noites que numa só noite
    Nos aconteceram
    Era o dia da noite de todas as noites
    Que nos precederam
    Era a noite mais clara daqueles
    Que à noite amando se deram
    E entre os braços da noite de tanto
    Se amarem, vivendo morreram.
    Eu não sei, meu amor, se o que digo
    É ternura, se é riso, se é pranto
    É por ti que adormeço e acordo
    E acordado recordo no canto
    Essa tarde em que tarde surgiste
    Dum triste e profundo recanto
    Essa noite em que cedo nasceste despida
    De mágoa e de espanto.
    Meu amor, nunca é tarde nem cedo
    Para quem se quer tanto!


    bjinhos............

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