sábado, 1 de fevereiro de 2014

Manuel António Pina //// Todas as palavras

 


As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.


Manuel António Pina - 18/11/1943_19/10/2012

 




2 comentários:

  1. As que calei por serem muito cedo,
    e as que calei por serem muito tarde,
    Nunca é cedo para a felicidade, belo este poema, ensina-nos o que além de nós a "ALMA" ADOREI.........

    BEIJO ....CONDE

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  2. E também aquelas que ficaram,
    por cansaço, por inércia, por acaso,
    e com quem agora, como velhos amantes sem
    desejo, desfio memórias,
    as minhas últimas palavras
    beijokinhas.

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